01/Jul/2026
O banimento de antimicrobianos na produção animal brasileira para atender às exigências da União Europeia no que diz respeito às exportações de carnes pode comprometer investimentos da indústria veterinária nacional, diz o vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), Emílio Carlos Salani. Segundo ele, fabricantes que investem em pesquisa, desenvolvimento, registro e produção de medicamentos dependem de previsibilidade regulatória para ampliar operações e lançar novas tecnologias no País e discutir uma possível proibição ao uso desses produtos ameaça o processo produtivo. Segundo ele, o setor apoia o uso responsável dos antimicrobianos e considera legítimas as exigências da União Europeia para produtos destinados ao bloco.
No entanto, defende que o atendimento aos protocolos europeus ocorra por meio de sistemas de segregação e rastreabilidade, sem retirar essas ferramentas de toda a pecuária. O dirigente destacou ainda que os antimicrobianos vêm perdendo participação no mercado brasileiro de saúde animal. Em 2015, essa classe representava cerca de 17% do faturamento do setor e, atualmente, responde por aproximadamente 12%, enquanto a produção nacional de proteínas continuou crescendo. Para Salani, esse movimento demonstra que produtores e indústria vêm adotando essas moléculas de forma mais criteriosa. Segue a entrevista:
Como o Sindan avalia as exigências da União Europeia para carnes produzidas sem o uso de antimicrobianos?
Emílio Salani: Entendemos que elas devem ser analisadas de forma técnica. A União Europeia nunca pediu o banimento das moléculas. O que ela exige são garantias de que determinados antimicrobianos não tenham sido utilizados nos animais destinados ao mercado europeu. São conceitos bastante diferentes. Entendemos que o Brasil tem capacidade de atender essa exigência por meio de sistemas de segregação e rastreabilidade, sem a retirada dessas moléculas de toda a pecuária brasileira.
Por que a entidade é contrária ao banimento dessas moléculas?
Emílio Salani: Porque estamos falando de produtos de uso dual. Algumas moléculas podem ser utilizadas como melhoradores de desempenho em determinadas condições, mas também são fundamentais no tratamento de infecções. Um banimento elimina uma ferramenta terapêutica importante para o produtor. Isso vai na contramão do bem-estar animal, da produtividade e do próprio conceito de saúde única. Nossa defesa sempre foi pelo uso responsável, e não pela retirada indiscriminada dessas tecnologias. Assim, o produtor que desejar atender ao mercado europeu poderá seguir protocolos específicos. Já quem comercializa com outros destinos deve continuar tendo acesso às ferramentas autorizadas pelas autoridades sanitárias.
O sistema de segregação é viável para a pecuária brasileira?
Emílio Salani: Sim. O Brasil já trabalha com diversos protocolos específicos para atender diferentes mercados internacionais. A segregação é perfeitamente possível desde que seja construída de maneira técnica, executável e com segurança jurídica. O importante é que haja previsibilidade para toda a cadeia, desde o produtor até a indústria frigorífica. O mercado europeu representa apenas uma parcela das exportações brasileiras. Não faz sentido impor uma regra única para toda a produção nacional quando existem diferentes exigências entre os países importadores.
Alguns setores defendem o banimento para facilitar o atendimento às exigências europeias. Como o Sindan vê essa posição?
Emílio Salani: Cada entidade representa interesses legítimos da sua cadeia. Nós representamos a indústria de saúde animal e temos a obrigação de defender decisões baseadas em evidências científicas. Entendemos que existem alternativas muito mais equilibradas do que uma proibição ampla. O produtor precisa ter liberdade para decidir qual mercado deseja atender. Se optar pelo mercado europeu, seguirá o protocolo correspondente. Se produzir para mercados que aceitam outras práticas, poderá continuar utilizando essas ferramentas dentro das regras sanitárias estabelecidas.
Existem alternativas capazes de substituir completamente esses antimicrobianos?
Emílio Salani: Não. Quando falamos do uso terapêutico, não existe substituição plena. Os animais adoecem e precisam ser tratados. Assim como ocorre na medicina humana, existem situações em que o antimicrobiano é indispensável para preservar a saúde do paciente. O uso responsável sempre foi defendido pela indústria. O que não podemos fazer é eliminar uma ferramenta importante para o tratamento das enfermidades.
Os antimicrobianos continuam sendo uma das principais classes terapêuticas da indústria?
Emílio Salani: Eles continuam relevantes, mas vêm perdendo participação naturalmente. Em 2015, representavam aproximadamente 17% do mercado brasileiro de saúde animal. Hoje respondem por cerca de 12%. Ao mesmo tempo, o Brasil ampliou significativamente sua produção de proteínas. Isso mostra que o setor vem utilizando essas moléculas de maneira cada vez mais racional, incorporando outras tecnologias e reforçando programas de uso responsável. Somos, inclusive, membros fundadores da Aliança para o Uso Responsável de Antimicrobianos.
A indústria de saúde animal já avalia os impactos econômicos das discussões sobre restrições aos antimicrobianos?
Emílio Salani: Nossa maior preocupação vai além da venda de um produto específico. A indústria trabalha com investimentos de longo prazo em pesquisa, desenvolvimento, registro, produção, equipes técnicas e estrutura comercial. Quando surge a possibilidade de mudanças abruptas nas regras, a previsibilidade diminui. Isso naturalmente influencia decisões de investimento, expansão industrial e desenvolvimento de novas tecnologias para o mercado brasileiro.
O risco, então, é mais relacionado ao ambiente de negócios do que propriamente ao faturamento imediato?
Emílio Salani: Evidentemente existe um impacto econômico, mas a principal preocupação é a segurança regulatória. Empresas nacionais e multinacionais precisam de estabilidade para decidir onde investir. Quando uma tecnologia desenvolvida ao longo de muitos anos pode deixar de ser utilizada por uma mudança repentina, isso afeta a confiança do investidor e aumenta a percepção de risco para novos aportes.
O produtor também pode sentir esses efeitos?
Emílio Salani: O produtor será um dos principais impactados se perder acesso a ferramentas importantes para tratar seus animais. Ao mesmo tempo, acreditamos que protocolos diferenciados podem gerar valorização para quem atender mercados mais exigentes. O mercado internacional já remunera produtos com atributos específicos de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade. O importante é que existam regras claras e previsíveis para que o produtor possa decidir qual estratégia comercial pretende seguir.
O Sindan tem participado das discussões conduzidas pelo Ministério da Agricultura?
Emílio Salani: Temos mantido diálogo permanente com o Ministério da Agricultura e com diversas entidades da cadeia pecuária. Colocamos nossos especialistas à disposição para contribuir tecnicamente na construção de protocolos. Entendemos que esse trabalho precisa ser conduzido com base em evidências científicas, preservando a competitividade da produção brasileira e garantindo segurança para os mercados compradores.
Como o Sindan avalia a condução das negociações entre Brasil e União Europeia?
Emílio Salani: Estamos otimistas. O Ministério da Agricultura vem conduzindo as discussões e o Sindan colocou seus especialistas à disposição para fornecer todo o suporte técnico necessário. Nossa expectativa é que prevaleça uma solução construída com base na ciência e na cooperação entre governo, indústria e cadeia produtiva. Acreditamos que a implementação de sistemas de segregação atenderá às exigências europeias sem a necessidade de medidas radicais que prejudiquem a competitividade da pecuária brasileira.
Fonte: Broadcast Agro.