06/May/2026
O governo da Coreia do Sul cancelou a auditoria técnica no sistema sanitário brasileiro para análise da abertura de mercado para a carne do Brasil, prevista inicialmente para meados de agosto e setembro deste ano. O adiamento da vistoria frustra a ambição brasileira de obter aval à proteína local ainda neste ano. Integrantes do governo dizem buscar reverter o cancelamento, mas ponderam que a decisão cabe somente à autoridade sul-coreana. A abertura do mercado sul-coreano para a carne bovina brasileira foi um dos principais temas da agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em missão à Coreia do Sul, em fevereiro. O cancelamento da auditoria foi comunicado pelo adido agrícola do Brasil em Seul ao Ministério da Agricultura.
No comunicado, o adido informa sobre ter recebido mensagem eletrônica de oficial do Ministério da Agricultura, Alimentação e Assuntos Rurais da Coreia do Sul (Mafra) informando que "em razão de as avaliações relativas às visitas técnicas daquele ministério neste ano estarem concentradas em produtos agrícolas, e não em produtos pecuários, a proposta da equipe técnica de realizar missão ao Brasil, conforme tratada previamente neste processo, não foi aprovada". De acordo com o adido, o oficial do Mafra informou ainda que a proposta de auditoria será submetida novamente para análise no próximo ano. Nos bastidores do Executivo, interlocutores afirmam que o adiamento das visitas técnicas é comum no processo de acordo por protocolo sanitário, vide no caso do Japão, que remarcou a visita técnica mais de duas vezes.
Agora, o governo brasileiro avalia a estratégia para buscar que o compromisso político seja realizado até o fim do terceiro trimestre. Antes do cancelamento, as autoridades sul-coreanas sinalizaram inclusive para antecipação da visita para junho deste ano. O compromisso político da auditoria sanitária, considerada a principal etapa do processo de abertura de mercado, foi acordado na agenda bilateral dos países durante a visita de Lula a Seul. Na ocasião, Lula e o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, anunciaram um plano de ação com o objetivo de estreitar a relação entre os dois países e Lula reforçou a pressão pela abertura do mercado sul-coreano para a carne brasileira. Na época, a auditoria foi avalizada durante reunião da comitiva do Ministério da Agricultura com o comissário da Agência de Quarentena Animal e Vegetal (APQA), Choi Jung-Rok, da Coreia do Sul.
Em nota em fevereiro, o Ministério da Agricultura informou que a autoridade sanitária sul-coreana confirmou a realização de uma auditoria técnica no sistema sanitário brasileiro para análise da abertura de mercado para a carne nacional. O órgão também deveria avaliar a ampliação da importação de carne suína proveniente de todo o território brasileiro. Hoje, Santa Catarina é o único Estado autorizado a exportar a proteína suína para a Coreia do Sul, um dos primeiros Estados a obter reconhecimento de livre de febre aftosa sem vacinação. O Brasil negocia a abertura da Coreia do Sul para a carne bovina brasileira há 20 anos, com as tratativas oficiais bilaterais iniciadas em 2008. O país é um dos principais players importadores da proteína, tendo adquirido cerca de 500 mil toneladas de carne bovina em 2025, o equivalente a cerca de 10% do mercado mundial.
A autorização para exportar ao mercado sul-coreano era uma das prioridades da indústria neste ano. A intenção do governo brasileiro era dar impulso político às negociações a partir da missão presidencial de fevereiro. Nos bastidores, interlocutores apontavam que a expectativa era por avanços concretos nas tratativas ao longo deste ano. A auditoria dava a possibilidade de celeridade no processo e um aval inicial ainda neste ano, mesmo que há outras etapas a serem cumpridas. As autoridades sul-coreanas já realizaram uma auditoria no sistema sanitário nacional em meados de 2023, conduzida pelo Ministério da Segurança Alimentar e Farmacêutica (MFDS), com foco em saúde pública, faltando a realização de uma segunda vistoria pelo Mafra, com foco em saúde animal.
Além da auditoria do Mafra, restam como etapas pendentes para exportação a conclusão da análise de risco pela Coreia do Sul; a retirada formal da proibição; a deliberação pela Assembleia Nacional, o que é considerado sensível do ponto de vista político; a elaboração do certificado sanitário e a habilitação das plantas brasileiras. O prazo médio para o processo gira em torno de três a quatro anos, já que na Coreia do Sul um eventual acordo sanitário depende da aprovação do Parlamento sul-coreano. O aval para entrada da carne da França e da Irlanda do Norte, por exemplo, levou dois anos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.