27/Feb/2026
A valorização do boi gordo registrada no início de 2026 não tem um único responsável, mas um catalisador: a China. A corrida do país para antecipar compras dentro da cota estabelecida pela salvaguarda, e dos frigoríficos para vender, se somou à oferta mais restrita no campo, à demanda interna aquecida pela sazonalidade e a um mercado externo em ritmo acelerado, criando um ambiente que impulsiona os preços. Para analistas, a China puxa uma alta que já estava no roteiro, mas que ganha contornos mais intensos diante da corrida para aproveitar a tarifa reduzida antes que o limite de volume seja atingido. Para a Scot Consultoria, o movimento atual é claro: frigoríficos estão antecipando embarques para aproveitar a janela tarifária favorável, antes que os volumes exportados superem o teto de 1,1 milhão de toneladas fixado pela China para 2026. Os agentes estão se adiantando para aproveitar a tarifa reduzida dentro da cota. Os dados corroboram o aquecimento.
As exportações brasileiras de carne bovina registraram o melhor desempenho já apurado para um mês de janeiro, em volume e em receita, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Em janeiro de 2026, o País embarcou 264 mil toneladas, alta de 26,1% ante igual mês de 2025, enquanto a receita somou US$ 1,404 bilhão, avanço de 40,2% na mesma comparação. A China permaneceu como principal destino da carne bovina brasileira em janeiro, com compras de US$ 657,2 milhões e 123,2 mil toneladas, o equivalente a 46,8% da receita e 46,6% do volume total exportado. Em relação a janeiro de 2025, quando o país asiático importou 91,2 mil toneladas, houve crescimento de 35,1% nos embarques. Além disso, nos primeiros 13 dias úteis de fevereiro, o Brasil exportou um volume de carne bovina superior ao total registrado em igual mês do ano passado. Foram embarcadas 192.709 toneladas, volume 1,2% maior que as 190.431 toneladas exportadas em fevereiro inteiro de 2025.
A média diária alcançou 14.824 toneladas, alta de 55,69% sobre as 9.521 toneladas da média de fevereiro do ano passado. O Brasil está exportando muito. Então, se a China está montando estoque ou já fazendo as compras, ela vai contribuir para essa precificação, afirmou o Cepea. O movimento externo encontra terreno fértil em uma restrição de oferta que já vinha se desenhando independentemente da salvaguarda. O Brasil está na fase de retenção de fêmeas, o que reduz a disponibilidade de animais para o abate e aperta o mercado. O País deve produzir menos carne esse ano. Há um movimento de retenção de fêmeas porque o preço da reposição está interessante para o criador. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetam queda na produção brasileira de carne bovina em 2026 em relação ao ano anterior. Em exercício elaborado pelo Cepea, mantidas as exportações estagnadas em torno de 3,3 milhões de toneladas em 2026, a disponibilidade interna de carne bovina para o consumidor cairia de aproximadamente 29 Kg per capita para cerca de 27 Kg.
Além disso, o contexto global pesa. O estoque mundial de carne bovina está no menor nível desde 2006, segundo dados do USDA. Ao contrário dos grãos, que têm superoferta, o mercado de carnes começa 2026 num ambiente mais pressionado. Para além da sazonalidade, há um vetor de demanda com potencial mais duradouro: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Estudos acadêmicos recorrentes apontam que a melhora da renda da população eleva o consumo de carne bovina. Quando se isenta essa parte da população, que é a classe média, o consumo de carne sobe. Isso também pode ser um dos fatores. Além disso, 2026 é ano de eleições, historicamente associado a maior circulação de recursos na economia, e de disputa da Copa do Mundo de futebol. O último grande ciclo de valorização do boi gordo acima de US$ 60,00 por arroba ocorreu em 2010, também ano eleitoral, quando o aumento da liquidez na economia e o consumo interno mais aquecido ajudaram a sustentar os preços, mesmo em um contexto cambial distinto do atual. Tudo isso é combustível para o aumento dos preços do boi gordo.
Ressalta-se, ainda, o movimento de 2021, quando a China comprou grandes volumes da proteína. Apesar do cenário favorável, há tetos para a alta. O primeiro é o câmbio. Com o dólar na casa de R$ 5,20, o boi gordo brasileiro chegou a cerca de US$ 66,00 por arroba, um dos maiores valores históricos, abaixo apenas do pico de US$ 71,00 por arroba registrado em 2021. Já está ficando caro no exterior também. Não se sabe o quanto mais a China pagaria nesse momento. O segundo limitador é o próprio mecanismo da salvaguarda. A partir do momento em que as exportações ao mercado chinês superarem 1,1 milhão de toneladas, uma tarifa adicional de 55% torna as vendas praticamente inviáveis. A Scot Consultoria estima que esse teto será atingido por volta do fim do terceiro trimestre. Na hora que a cota for preenchida, se a China não mudar a política, o mercado vai sentir. No entanto, pode não haver espaço para uma queda expressiva nos preços do boi gordo depois que a cota for atingida. O mercado interno vai estar apertado. Há ainda outros vetores: a oferta vai estar restrita e a demanda interna, com eleições e Copa do Mundo no segundo semestre, pode ajudar a equilibrar o mercado.
Do lado da indústria, porém, o cenário não é de pleno conforto. Com o boi gordo em forte alta e a carne bovina no atacado subindo em ritmo mais moderado, as margens dos frigoríficos tendem a ficar mais comprimidas. Muitas plantas operam com escalas curtas e dificuldade de repassar integralmente o aumento da matéria-prima ao consumidor final, seja no externo. Nesse ambiente, a exportação forte dá fôlego para o escoamento da produção, mas o equilíbrio entre preço do boi gordo e preço da carne segue sendo um ‘cabo de guerra’ constante entre pecuaristas e indústria. Os Estados Unidos, que compraram 270 mil toneladas de carne brasileira em 2025 mesmo com a tarifa vigente, devem manter ou ampliar o volume em 2026, funcionando como válvula de escape parcial para a produção que não seguirá à China. Ainda assim, substituir o apetite chinês não é tarefa simples. A China é difícil de substituir. Isso é uma questão de longo prazo. Por ora, o setor corre para aproveitar a janela de exportação à China enquanto ela ainda está aberta. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.