20/Feb/2026
O governo brasileiro vê "resistência" da China em flexibilizar as salvaguardas impostas à carne bovina. Até o momento, autoridades chinesas não responderam formalmente aos pedidos brasileiros, tanto em relação aos ajustes operacionais na cota alocada ao Brasil quanto nas medidas compensatórias pleiteadas. Não há sinalizações por parte da China e o governo teme que o país asiático mantenha as condições atuais. Em telefonema no último mês, com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, o vice-presidente da China, Han Zheng, recebeu os pedidos brasileiros, mas teria afirmado que o "tema é sensível" no país. Não há retorno nem positivo e nem negativo. O assunto segue inconclusivo, em análise pelas autoridades chinesas. O pedido brasileiro é para que sejam considerados ajustes operacionais no cumprimento e contabilização da cota, estipulada em 1,106 milhão de toneladas para o Brasil, sem aplicação da taxa adicional de 55%.
Há duas demandas principais: a redistribuição para o Brasil no último trimestre de volumes de cotas que não forem cumpridas pelos demais exportadores e o não cálculo de cargas em alto-mar, em trânsito ou em desembaraço alfandegário no país asiático na cota alocada ao Brasil (estimadas entre 250 mil e 300 mil toneladas). O País também pede transparência mensal quanto à utilização das cotas. Não há prazo para a resposta pelo lado chinês. Porém as sinalizações dadas pelas autoridades chinesas a outros fornecedores negando ajustes nas cotas deixa o governo receoso quanto ao eventual aceite chinês. O governo brasileiro aguarda o retorno da China. Sabe-se que outros países também têm feito pleitos semelhantes e até o momento a China tem se mostrado um pouco resistente às demandas. O Brasil priorizou demandas que facilitem o planejamento das exportações, o melhor aproveitamento das cotas e mecanismos de operacionalização das cotas.
Houve um intercâmbio técnico, mas falta uma análise e decisão política. O governo aposta em diálogo de "alto nível" com a China para negociar as flexibilizações no âmbito da salvaguarda imposta pelo país asiático sobre a carne bovina. O Brasil pediu também à China medidas compensatórias para minimizar o impacto decorrente da salvaguarda. O pacote de medidas pleiteadas pelo Brasil inclui o reconhecimento de todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação, após o País ter obtido o status sanitário pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA); o reconhecimento do Brasil como país de risco insignificante para encefalopatia espongiforme bovina (EEB), doença popularmente conhecida como "mal da vaca louca"; o aceite da regionalização para gripe aviária; e abertura do mercado chinês para miúdos bovinos, carne bovina com osso, miúdos suínos e miúdos de aves do Brasil, estes não estão contemplados na salvaguarda, e portanto, não seriam contabilizados na cota brasileira. É natural que se busque as compensações previstas pela própria Organização Mundial do Comércio (OMC).
A China impôs desde 1º de janeiro cotas específicas país a país para importação de carne bovina com a aplicação de uma tarifa adicional de 55% para volumes que excederem a quantidade. O Brasil, principal fornecedor da proteína vermelha ao mercado chinês, terá uma cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas sem tarifas adicionais neste ano, cerca de 600 mil toneladas menos que as 1,7 milhão de toneladas de carne bovina exportadas para a China no último ano. A indústria estima prejuízo de cerca de US$ 3 bilhões, considerando as 600 mil toneladas e o valor médio da carne bovina pago pela China em 2025. Interlocutores acreditam que a resposta chinesa deva ser formalizada apenas no âmbito da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), que será no Brasil. A possibilidade é de que o encontro, principal mecanismo de diálogo bilateral, ocorra em agosto. Há uma tradição diplomática chinesa em fazer "entregas e anúncios" bilaterais no âmbito da Cosban.
Fontes que apostam em uma saída política para o tema, com base no bom momento da relação diplomática entre os países, apontam que a China poderia ampliar a cota destinada ao Brasil ao fim do primeiro semestre. Exportadores planejam inclusive uma missão ao país asiático a fim de esclarecimentos operacionais. Para endossar o apelo às demandas brasileiras, um dos argumentos apresentados aos importadores é o encarecimento do preço pago pela China na proteína internalizada, o que pode levar à aceleração da inflação local. Fontes do mercado afirmam que o valor saiu de US$ 5,5 mil por tonelada no fim de dezembro para US$ 7 mil por tonelada. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que acredita que a China pode atender a demanda brasileira de flexibilização da cota de carne bovina. "Os pleitos brasileiros respeitam a soberania chinesa, que, por sua vez, não adotou salvaguarda de forma abrupta e sim com um ano de antecedência. O Brasil se coloca como um parceiro na busca da estabilidade no comércio e no abastecimento chinês e, tenho certeza, que isso será entendido pela China", disse Fávaro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.