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03/Feb/2026

Carnes: mudanças com as canetas emagrecedoras

O início de 2026 já sinaliza transformações profundas no agronegócio e no varejo alimentício brasileiro, impulsionadas por uma mudança estrutural no padrão de consumo de calorias. Se em ciclos anteriores o preço era o principal fator de decisão, agora a alimentação do brasileiro passa a ser influenciada por uma combinação entre a busca por longevidade e o avanço acelerado do uso de medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro. Segundo relatório recente do Itaú BBA, o fenômeno, que começou no campo da saúde, já provoca efeitos diretos “da porteira para dentro”, alterando o equilíbrio entre lavouras e pecuária. Estimativas das consultorias IQVIA e do Itaú BBA apontam que o Brasil já conta com algo entre 4 e 6 milhões de usuários regulares desses medicamentos, concentrados majoritariamente nas classes A e B, o que consolida o País como o segundo maior mercado mundial da categoria. Os números, no entanto, refletem apenas o mercado formal auditado. Ao se considerar o uso off-label e aquisições fora dos canais regulares, o alcance real tende a ser ainda maior.

A expectativa de quebra de patentes ao longo de 2026 e o avanço dos genéricos reforçam esse movimento. Analistas de instituições como o BTG Pactual projetam que o volume de vendas pode crescer até 80% com a entrada dessas novas opções no mercado. Com a redução do apetite promovida por esses medicamentos, o consumidor passa a comer menos, porém com escolhas mais criteriosas. Dados setoriais indicam que cerca de 56% dos usuários relatam mudanças para hábitos alimentares mais saudáveis, priorizando porções menores e alimentos de maior densidade nutricional. O impacto mais evidente é a retração na demanda por carboidratos refinados e a valorização das proteínas. As recomendações nutricionais para usuários desses tratamentos chegam a até 1,6 grama de proteína por quilo corporal, com foco na preservação de massa magra. Em contrapartida, o consumo de carboidratos apresenta quedas estimadas de 10,1% no segmento de snacks e de 8,8% em produtos de panificação, cenário que favorece diretamente a cadeia de proteína animal.

Nesse contexto, a carne suína ganha relevância estratégica. O relatório do Itaú BBA indica que o Brasil deve liderar o crescimento global da produção de carne suína em 2026, com projeções que variam entre 1,3% e 3,8%. O desempenho é sustentado pelo baixo custo da ração e pela migração do consumo de calorias provenientes de carboidratos para proteínas. A tendência global de “Smart Foods”, mapeada pela Euromonitor, também impulsiona o setor, ao associar a carne suína à praticidade e à saciedade. Esse movimento estimula o desenvolvimento de embutidos e produtos processados de maior valor agregado, com menor teor de sódio, rótulos mais limpos e foco em qualidade nutricional. No varejo, a transformação acompanha o novo perfil do consumidor. A chamada “servitização” ganha força, com supermercados deixando de atuar apenas como pontos de venda para se consolidarem como espaços de experiência e orientação. Redes já começam a oferecer serviços como acompanhamento nutricional e curadoria especializada de produtos.

Estudos de consultorias como Kantar e Mintel indicam que a hiperpersonalização nutricional será uma das marcas de 2026, com o uso de inteligência artificial e retail média para direcionar ofertas de acordo com o perfil metabólico e as necessidades de saúde de cada cliente. As marcas próprias também avançam nesse cenário, reposicionando-se como opções premium em alimentos funcionais, snacks proteicos e produtos prontos para o consumo. Embora o ambiente seja favorável às proteínas, o setor de grãos enfrenta o desafio da adaptação. A redução gradual no consumo de cereais para alimentação humana direta exige maior foco na eficiência da produção de ração animal, uma vez que a demanda por carnes segue em patamares elevados. Para a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), leitura do momento é estratégica. Compreender que a mudança de hábito do consumidor começa na farmácia é essencial para manter competitividade no ponto de venda. Em um mercado que se redefine rapidamente, a antecipação passa a ser um diferencial decisivo para a suinocultura brasileira e para toda a cadeia do agronegócio. Fonte: ABCS. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.