22/Jan/2026
Segundo a StoneX, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia cria oportunidades assimétricas para o mercado de proteínas, com a carne bovina despontando como o principal canal de expansão comercial, enquanto aves e suínos permanecem altamente limitados por fatores estruturais e políticos. O desenho do acordo reforça a posição da carne bovina como a proteína mais compatível com a dinâmica do mercado europeu. Mesmo com a assinatura do acordo, ele não abre a porta da mesma forma para todos os setores de proteínas. A discussão central não é se haverá expansão do comércio, mas em quais segmentos essa expansão faz sentido econômico. No caso da carne bovina, o mercado europeu opera historicamente mais próximo do equilíbrio entre oferta e demanda. Em momentos de aperto da produção doméstica e elevação de preços, as importações passam a ter papel relevante no ajuste do mercado.
Além disso, mesmo em anos de aparente equilíbrio em volume, a União Europeia depende estruturalmente de importações para atender nichos específicos, como cortes premium, demanda do food service e padrões de qualidade que não são totalmente supridos internamente. Não se trata apenas de volume, mas também de qualidade, com segmentos em que a produção doméstica europeia não consegue atender completamente a demanda. É exatamente nesse espaço que o Mercosul se encaixa, com custos competitivos de produção e capacidade de ofertar ampla gama de produtos, tornando a carne bovina o melhor encaixe econômico dentro do acordo, ainda que o crescimento do fluxo comercial seja limitado pelas cotas. Pelo cronograma estabelecido, até 50% da cota de carne bovina será liberada já no primeiro ano de vigência, o equivalente a cerca de 49 mil toneladas, com aumento gradual até atingir 99 mil toneladas ao final de seis anos.
No entanto, o impacto imediato tende a ser limitado, já que o Brasil, isoladamente, já exporta volumes superiores a esse patamar para o mercado europeu, além de a cota precisar ser compartilhada entre os países do Mercosul. Para o setor de aves, o cenário é substancialmente diferente. A avicultura europeia é estruturalmente superavitária e altamente integrada dentro do próprio bloco, o que reduz a necessidade de importações. Ao contrário da carne bovina, não existe déficit de oferta a ser preenchido. Nesse contexto, qualquer volume adicional é rapidamente percebido como pressão competitiva sobre preços. Além disso, o setor de aves carrega forte sensibilidade política na Europa, com debates que extrapolam a economia e envolvem bem-estar animal, questões ambientais e regras sanitárias. Esses fatores tornam o segmento um dos mais defensivos dentro do acordo.
A cota inicial para aves é de cerca de 30 mil toneladas, chegando a 180 mil toneladas apenas após seis anos, o que reforça o caráter gradual e limitado do impacto. No caso da carne suína, se trata do segmento mais protegido e sensível. O mercado europeu de suínos opera com excedente estrutural e depende fortemente das exportações para terceiros mercados para escoar a produção. Mesmo pequenos volumes adicionais de importação geram preocupação, porque aumentam a competição em um mercado já saturado. A cota inicial para carne suína é de apenas 5 mil toneladas, com expansão até 25 mil toneladas ao longo do período de implementação, o que evidencia que o produto não é prioridade comercial dentro do acordo. Do ponto de vista comercial, suínos acabam sendo a proteína menos relevante no arranjo.
O acordo precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, o que adiciona incertezas ao cronograma de implementação. Ainda assim, a leitura econômica é clara: a carne bovina é onde o acordo efetivamente importa, as aves representam uma história de longo prazo e os suínos permanecem altamente restringidos. Quando se observa o desenho das cotas, dos prazos e da estrutura de mercado, fica evidente que a carne bovina é o canal mais compatível com a dinâmica europeia. Embora o acordo não represente uma mudança abrupta no curto prazo, ele consolida um espaço relevante para o Mercosul no abastecimento europeu de carne bovina ao longo dos próximos anos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.