14/Jan/2026
Exportadores de carne bovina pedem ao governo federal medidas emergenciais para minimizar os impactos da salvaguarda chinesa sobre a proteína, que vai restringir os embarques brasileiros. A demanda foi apresentada em ofício pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e ao Ministério da Agricultura. são estudadas ações estruturantes, um conjunto de medidas, que trarão um resultado satisfatório de redução de impactos, porque haverá prejuízos. O pedido do setor ocorre após a China anunciar que vai impor cotas específicas por país para importação de carne bovina com a aplicação de uma tarifa adicional de 55% para volumes que excederem a quantidade. A decisão foi comunicada pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom) em 31 de dezembro de 2025 e está em vigor desde o dia 1º de janeiro de 2026. As medidas serão implementadas por três anos até 31 de dezembro de 2028 e atingem os principais exportadores da carne bovina.
O Brasil, principal fornecedor ao mercado chinês, terá uma cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas sem tarifas adicionais neste ano. Em 2025, o Brasil exportou para a China quase 1,7 milhão de toneladas de carne bovina. A cota de 1,106 milhão de toneladas representa uma redução de cerca de 35%. Sem uma atitude proativa frente a essa decisão chinesa, pode haver um dano muito grande para a cadeia pecuária brasileira, um dano desestruturante. A ideia é ter um entendimento setorial entre a pecuária e a indústria com apoio das ações do governo para mitigar os efeitos. Entre as medidas solicitadas, a Abiec pede uma linha de crédito emergencial ao setor exportador, aos moldes das adotadas pelo Executivo para suporte a empresas afetadas pelo tarifaço norte-americano no ano passado, operada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O valor do aporte e demais condições ainda serão discutidas com o governo, mas o pleito é de taxas atrativas com juros abaixo de dois dígitos com prazo de pagamento de até cinco anos, além de carência.
Os recursos tendem a ser utilizados pelos frigoríficos tanto em capital de giro quanto para investimento em armazenagem e estoque da proteína. Além do suporte aos exportadores afetados pela salvaguarda chinesa, a indústria pede ao governo a negociação junto à China da flexibilização da cota. São dois pleitos neste sentido: a redistribuição da cota não utilizada pelos demais países exportadores ao Brasil e que as mercadorias em alto-mar antes do anúncio da medida não sejam contabilizadas para uso da cota. Estima-se que 300 mil toneladas da proteína brasileira já estavam a caminho da China e aguardam desembaraço alfandegário no país asiático, quando o governo chinês anunciou a aplicação da salvaguarda. As demandas já estão sendo tratadas pelas autoridades brasileiras com o governo chinês. A indústria pede mediação do governo também quanto à divisão da cota, seja em distribuição por Estados, seja por volume mensal, seja por frigoríficos habilitados à exportação a fim de garantir previsibilidade e constância aos exportadores, como ocorre na divisão da cota Hilton e na cota de exportação de carne de frango à União Europeia.
O mercado não vai se adequar sozinho, é preciso mediação governamental. A Abiec se reuniu no dia 12 de janeiro com o vice-presidente e ministro da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, para apresentar a pauta. Há várias estratégias que estão sendo pensadas e colocadas na mesa. Não há nada decidido ainda, mas há diálogo para ver como o governo poderá auxiliar nessa situação para evitar prejuízos à toda cadeia. Se nada for feito, o impacto será gigantesco. Houve boa receptividade das demandas pelo vice-presidente Alckmin que verificará a disponibilidade de recursos e avaliará as medidas internamente no Executivo. A expectativa do setor é de que haja uma resposta em até dez dias a fim de minimizar os impactos. Fora as medidas imediatas, a indústria estuda também um conjunto de medidas estruturantes junto ao Executivo como habilitação de maior número de frigoríficos exportadores e Estados produtores para vendas externas da proteína a novos mercados abertos recentemente.
O setor estima que o impacto da restrição chinesa vai superar US$ 3,2 bilhões em mercadorias que deixarão de ser exportadas, um terço do valor atual, considerando os embarques realizados no último ano, a limitação sem tarifa adicional e os preços atuais. Além disso, há os impactos domésticos como eventual fechamento de indústrias, redução de turnos e de necessidade de mão de obra. No apelo ao governo, a Abiec destacou que a indústria de carne bovina gera mais de 7 milhões de empregos e que a pecuária está presente em todos os municípios brasileiros. Não se descarta que pode haver demissões, diminuição dos abates e fechamentos de plantas. Há, por exemplo, uma indústria que exporta 93% da produção para a China. Há risco ainda de oscilações bruscas de preços da proteína no mercado interno, com quedas ou altas acentuadas. Isso é ruim para a cadeia, desestrutura o setor e afeta o pecuarista.
As exportações contribuem para a complementaridade da oferta doméstica, já que os cortes comercializados ao país asiático (sobretudo dianteiro) diferem dos consumidos internamente e possibilitam o "aproveitamento inteiro" do boi e estabilidade na produção. A ideia é uma saída negociada com a China, conforme o governo brasileiro vem direcionando as tratativas. A indústria não descarta, contudo, em última instância o acionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando falta de fundamentos jurídicos para a restrição. Mas, primeiro será feito via negociação assim como foi com o tarifaço dos Estados Unidos. Porém, a medida da salvaguarda não tem embasamento legal. O setor espera no primeiro momento uma resposta positiva da China quanto aos pleitos do Brasil. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.