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13/Jan/2026

Boi: oferta interna de carne deve crescer em 2026

Após o recorde de exportação em 2025, o começo de 2026 está marcado por medidas protecionistas de parceiros do Brasil que poderão mudar esse quadro. Em 2025, o Brasil exportou 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura, crescimento de 21,4% em relação a 2024, volume recorde. Com preço médio da tonelada também maior, o faturamento atingiu recorde. Em 2025, não só a exportação brasileira foi recorde: o abate de bovinos e a produção de carne também. Estimamos o abate de bovinos em 40,7 milhões de cabeças, aumento de 2,7% em relação a 2024, em um ano ainda com forte participação de fêmeas. A produção de carne bovina em 2025, em milhões de toneladas de equivalente carcaça (tec), deverá crescer 4,6%, estimada em 12,4 milhões, com essa produção, pela primeira vez na história, o Brasil será o maior produtor global.

Apesar do volume alto de abate, a disponibilidade interna (produção - exportação + importação) de carne bovina, caiu de 8,2 milhões de tec, para 8,1 milhões (USDA). Em um ano bem ofertado, a exportação foi importante para preços da arroba mais firmes, em relação aos anos anteriores (2023-2024). Mesmo em meio às incertezas, como o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, no início do segundo semestre, a conjuntura internacional, com preços da carne bovina em alta no mundo, favoreceu o setor. O ano começa com perguntas sobre a exportação. Em ordem de relevância, China, Estados Unidos, Chile, México e Rússia encabeçaram os destinos da carne brasileira em 2025. Na primeira semana de 2026, China e México anunciaram medidas protecionistas à carne bovina. A principal preocupação é em relação à China, maior destino da carne bovina brasileira.

Em 31/12/2025, o governo chinês, através de seu Ministério do Comércio (Mofcom), anunciou o resultado da investigação sobre os efeitos da importação de carne bovina sobre a pecuária chinesa, em curso desde dezembro de 2024 e prevista para ser anunciada apenas em 26/1/2026. A China adiantou o anúncio e estabeleceu uma cota global de importação e cotas anuais por país, além da incidência de uma tarifa adicional de 55,0% sobre volumes que ultrapassarem essas cotas. A alegação chinesa é de que a importação de carne bovina foi prejudicial à indústria local e, por isso, as salvaguardas foram tomadas. As medidas entraram em vigor em 1º de janeiro de 2026, e com duração prevista de três anos, até 31 de dezembro de 2028. O Brasil, maior fornecedor de carne bovina à China, recebeu a maior cota. A cota atribuída, porém, é menor do que a exportação em 2024 (1,2 milhão de toneladas) e em 2025, quando 1,6 milhão de toneladas foram embarcadas, o que deixa parte do fluxo sujeito à tarifa extra.

Pelo lado mexicano, o governo publicou em 5/1/26 duas resoluções que limitam a quantidade de importação das carnes bovina e suína sem imposto. Até então, empresas mexicanas tinham direito a tarifa zero para compra desses alimentos do exterior independente de quantidade. A isenção de imposto de importação para carne bovina e suína estava prevista no Pacote Contra a Inflação e a Carestia (Pacic), uma iniciativa do governo criada em 2022 para combater o aumento dos preços dos alimentos no México. Agora foram estabelecidas cotas, e os volumes que excederem esses limites pagarão taxa, o que deve impactar as exportações de países que vendem carne para o México, como o Brasil. A medida valerá até 31 dezembro deste ano. Com a mudança, os mexicanos poderão importar 70 mil toneladas de carne bovina sem tarifas, e o que exceder esse volume será taxado em 20,0%.

Por outro lado, os Estados Unidos, segundo maior destino da carne bovina brasileira retiraram, no fim de novembro, o “tarifaço” à carne bovina, em momento estratégico para o Brasil, pois, no fim de cada ano, há uma “corrida” para preencher uma cota de 60 mil toneladas com tarifas menores. Findado o tarifaço, o mercado voltou à normalidade. Apesar da importância da exportação, o maior destino da produção brasileira é o mercado interno. Em 2025, com o recorde de produção, o mercado interno respondeu por 65,8% do consumo, a menor participação desde 2010. Em 2026, com a atual conjuntura à exportação envolvendo a China e o México, o cenário muda? A expectativa é que sim, mas não como no início desta década. O Brasil deverá exportar 5,9% menos em 2026 (USDA), apesar da expectativa, será o segundo maior ano para a exportação, ou 250 mil tec a menos.

Após anos de descarte intenso de matrizes, a produção deverá diminuir 5,3%, em função da menor participação de fêmeas nos abates. Com a produção recuando menos que a exportação, a oferta doméstica deverá aumentar 0,2% em 2026. Se o impacto na exportação for maior que a estimativa vigente, divulgada antes das “novidades” recentemente anunciadas, o impacto poderá ser maior e a disponibilidade interna, também. Suponhamos que, China e México comprem apenas o volume previsto nas cotas divulgadas para 2026 e os demais países mantenham sua posição compradora inalterada, a exportação brasileira poderá cair até 600 mil tec (bem acima da estimativa atual). Pesa para uma redução brusca da exportação, e até mesmo a revisão por estes países às tarifas, o preço global da carne bovina, em sua máxima, a expectativa de redução na oferta global de carne em 2026 e a busca, pelos importadores, por países com preços mais acessíveis, com destaque, é claro, ao Brasil.

Ou seja, a exportação, apesar do cenário mais difícil, não deverá perder desempenho. Não consideramos a possibilidade de abertura de mercados que têm flertado com a carne bovina brasileira, como o Japão e Coreia do Sul. Apesar do “susto” com as medidas protecionistas anunciadas, o cenário em 2026 é de otimismo e preços firmes ao pecuarista. Primeiro é a expectativa de redução da oferta de boiadas, e menor produção de carne bovina. Segundo, reside no mercado interno. O Brasil está com o menor nível de desemprego desde 2015 (IBGE) e com mais renda per capita desde a pandemia. Mais renda, maior consumo de carne. A inflação está dentro da meta e, para 2026, podemos ter cortes na taxa básica de juros. O Banco Central do Brasil, segundo boletim Focus de 2/01/26, estima para 2026, que a Selic será de 12,25% ao ano, abaixo dos 15,0% vigentes.

Ao fim de 2025, o governo aprovou a isenção do imposto de renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês. A medida deve elevar a renda dos consumidores e manter a competitividade entre as carnes bovina, suína e de frango no próximo ano, e abre espaço para ajustes no preço das carnes ao longo da cadeia. Em 2026, teremos eleições, a previsão para o fundo eleitoral é de R$ 4,9 bilhões, valor que deverá, de alguma forma, circular na economia. Se “as bets” não consumirem essa renda extra, o mercado, principalmente o de alimentos, deverá ser beneficiado. No futebol, haverá a realização da Copa do Mundo, que ocorrerá nos Estados Unidos, México e Canadá, dois dos cinco maiores destinos da carne bovina brasileira e que, em 2026, no caso dos Estados Unidos, deverá seguir com oferta reduzida de carne e preços em alta. A exportação, tem sim, com as notícias recentes, um quadro menos “apetitoso” para 2026, mas não deixará de ser uma boa mistura para um prato que aparenta estar bem-preparado e temperado. Fonte: Alcides Torres. Broadcast Agro.