13/Jan/2026
A imposição de salvaguardas pela China à importação de carne bovina brasileira tende a provocar ajustes pontuais de oferta e maior volatilidade de preços ao longo de 2026, mas sem força para gerar uma queda estrutural das cotações no mercado interno ou um alívio relevante na inflação doméstica. Analistas avaliam que o impacto deve ser diluído pela redução da produção já esperada para este ano, pela capacidade de redirecionamento das exportações e pelo ajuste via consumo. A lógica inicial é que a eventual redução do volume exportado ao principal destino da carne bovina brasileira ampliaria a oferta doméstica de alguns cortes e, consequentemente, reduziria os preços no País. Analistas, porém, ressaltam que o efeito tende a ser pequeno, diante da capacidade de redirecionamento das vendas externas e da própria expectativa de menor produção de carne bovina no Brasil neste ano, em comparação com 2025. A salvaguarda anunciada pela China estabelece cotas tarifárias para a importação de carne bovina entre 2026 e 2028.
No caso do Brasil, a cota deste ano foi fixada em cerca de 1,1 milhão de toneladas. Volumes embarcados acima desse limite estarão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, o que, na prática, encarece o acesso ao mercado chinês e pode inviabilizar parte das vendas. A medida representa uma mudança significativa na relação comercial entre os dois países, já que a China absorveu 48% das exportações brasileiras de carne bovina em 2025, com 1,68 milhão de toneladas, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A cota estabelecida para 2026 representa uma redução de cerca de 35% em relação ao volume embarcado no ano anterior. Embora seja unânime que o "teto" imposto às exportações para a China será alcançado já em 2026, analistas ponderam que um fator já vinha limitando a oferta de carne: a inversão do ciclo pecuário.
Nesta fase, há menor disponibilidade de gado para abate, o que naturalmente reduz o volume de carne produzido no País. A XP Investimentos trabalhava com a premissa de que a disponibilidade interna de carne bovina cairia 9,9% (cerca de 700 mil toneladas) em 2026. Nesse cenário, caso a maior parte do volume que deixaria de ser exportado para a China permanecesse no País, haveria uma recomposição significativa da oferta, com acréscimo estimado em cerca de 500 mil toneladas, reduzindo a queda da disponibilidade para algo próximo de 3%. No cenário-base anterior à salvaguarda, a XP projetava alta de 8,5% nos preços da carne bovina em 2026, refletindo tanto a restrição de oferta doméstica quanto um mercado global de proteínas ainda apertado. Com a imposição da salvaguarda, essa alta poderia cair pela metade, para cerca de 4%, mas apenas se a quase totalidade do que seria exportado à China ficasse no Brasil, cenário considerado "improvável".
Essa premissa otimista representaria um impacto baixista de 0,15% na projeção do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026. Mas, é importante lembrar que os Estados Unidos devem ampliar as compras de carne bovina brasileira em 2026, enquanto países do Mercosul, como Argentina e Uruguai, também devem absorver parte da produção brasileira. A gestora Quantitas corrobora a análise de efeitos limitados sobre o preço das carnes e no IPCA como um todo. Importante lembrar, inclusive, do precedente da tarifação imposta pelos Estados Unidos, quando o País conseguiu redirecionar embarques para outros destinos ou mesmo "triangular" exportações. Esse precedente que sinaliza capacidade de contornar o impacto que a tarifação chinesa vai representar para a exportação da carne nos próximos anos. A projeção da Quantitas é de alta de 7,5% para as carnes bovinas no IPCA de 2026. A Warren Investimentos também vê risco baixista na casa de 0,1% no IPCA de 2026, em caso de redirecionamento dos cortes de carne bovina para o mercado interno.
A carne bovina deve ter alta de 11% neste ano. Essa estimativa considera preço médio de R$ 320,00 por arroba do boi gordo no primeiro semestre e de R$ 360 por arroba na segunda metade do ano. Caso a queda da arroba fique entre 10% e 20%, haverá impacto negativo de 0,1% no IPCA. Para analistas do setor, o ajuste provocado pela salvaguarda deve ocorrer menos por queda persistente de preços e mais por volatilidade ao longo do ano, especialmente no segundo semestre. Segundo o Rabobank, caso a cota seja atingida antes do fim do ano, pode haver algum alívio pontual. Pode haver até períodos temporários de pressão baixista nos preços, principalmente no último trimestre, quando bater a cota da China. Mas, essa pressão não seria persistente. Os preços da carne bovina no mercado doméstico mostraram estabilidade em 2025 justamente porque o mercado externo funcionou como amortecedor de margens. Os preços se mantiveram estáveis no Brasil durante o ano inteiro.
Foi, de fato, o mercado externo o grande compensador, em termos de margem para o setor. A restrição de oferta deve levar a preços mais elevados, mas com limitações impostas pela salvaguarda chinesa. Para quem estava esperando o boi gordo a R$ 400,00 por arroba neste ano, vai ser muito difícil isso acontecer. O próprio pecuarista tende a reagir a quedas mais intensas reduzindo o confinamento, o que limita o potencial de baixa prolongada das cotações, com maior controle da oferta. Outro canal relevante de ajuste é o consumo doméstico, que deve recuar em 2026. É esperado que haja uma queda de consumo no mercado interno. Mesmo que parte da carne fique no País, a absorção é limitada. Essa avaliação é compartilhada pela Datagro. Parte desse volume pode ficar no mercado interno, o que reduzirá o ímpeto de alta. Há previsão de queda de cerca de 5% no consumo interno de carne bovina em 2026. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.