06/Jan/2026
Segundo o BTG Pactual, o impacto sobre o Brasil das cotas impostas pela China às importações de carne bovina vai muito além da necessidade de redirecionar embarques. O verdadeiro desafio está na preservação de preços em um mercado global que não remunera, na mesma medida, os cortes tradicionalmente absorvidos pelo país asiático. O principal desafio não é redirecionar volumes, mas sim encontrar mercados dispostos a pagar o que a China paga por cortes específicos da carne brasileira. As exportações brasileiras de carne bovina somam cerca de 3,0 milhões de toneladas nos últimos 12 meses, o equivalente a aproximadamente 30% das vendas totais do setor. Desse volume, a China responde por 54%, cerca de 1,6 milhão de toneladas, o que representa aproximadamente 15% de toda a produção nacional. Com a nova política, apenas 1,1 milhão de toneladas estarão isentas de tarifa em 2026, forçando o redirecionamento de cerca de um terço das exportações ao mercado chinês. A dificuldade está no perfil da demanda.
A China absorve e precifica cortes que poucos outros mercados demandam, o que cria pressão direta sobre os preços realizados pelos exportadores brasileiros. O comércio de proteínas é um jogo de soma zero: um mercado menor para esses cortes tende a resultar em menor preço unitário de venda. A medida chinesa decorre de uma investigação de um ano, que concluiu que as importações prejudicavam o desenvolvimento da cadeia doméstica de carne bovina. Como resultado, o governo fixou uma cota total de 2,7 milhões de toneladas para 2026, abaixo das cerca de 3,0 milhões de toneladas estimadas para 2025, com tarifa adicional de 55% para volumes que excederem os limites por país. Do ponto de vista estrutural, a decisão reflete uma estratégia de redução da dependência externa. A história ensinou que nenhum país está disposto a depender por muito tempo de importações de energia ou alimentos. A China provavelmente não está disposta a permitir que as importações se tornem significativamente mais relevantes no mix local de oferta de carne bovina.
O efeito tende a ser inflacionário para os preços domésticos chineses e deflacionário para o restante do mundo. Apesar do impacto, o cenário é desafiador, mas administrável. As cotas devem crescer 2% ao ano nos próximos dois anos, em um momento em que se espera o início de um ciclo de retenção de gado no Brasil, o que pode limitar a expansão da oferta. Além disso, empresas com produção mais diversificada na América Latina podem ter maior flexibilidade para ajustar volumes, já que países como Argentina e Uruguai contam com cotas superiores aos seus embarques atuais. O setor brasileiro já demonstrou capacidade de adaptação em episódios recentes, como em 2025, quando tarifas impostas pelos Estados Unidos tiveram impacto limitado após o redirecionamento dos volumes. Ainda assim, a principal preocupação é que a China deixe de ser o principal motor de crescimento do setor no longo prazo. Embora não se espere que os exportadores, especialmente os maiores, saiam ilesos, a situação parece administrável. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.