09/Oct/2026
Os contratos futuros de açúcar demerara encerraram a sessão desta quinta-feira (08/10) em forte queda na Bolsa de Nova York, interrompendo a sequência recente de alta e registrando movimento de realização de lucros. O vencimento março/27, referência atual e contrato mais líquido, recuou 68 pontos, equivalente a 3,26%, e fechou a 20,15 centavos de dólar por libra-peso. A queda foi liderada pela liquidação de posições compradas por gestoras de recursos, pelo aumento do interesse das usinas brasileiras em fixar vendas para exportação diante do dólar sustentado nos últimos dias e pelos dados de embarques de setembro. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que as exportações brasileiras de açúcar somaram 2,699 milhões de toneladas em setembro, queda de 16,8% ante igual mês de 2025, refletindo acomodação técnica no ritmo de saída de navios após o pico de embarques.
A queda foi limitada, contudo, pela forte valorização do petróleo no mercado internacional, pelas revisões negativas para a produção de açúcar e pelo quadro de menor disponibilidade global. O petróleo WTI subia 3,17%, ou US$ 3,18, para US$ 100,20 por barril, elevando a paridade teórica do biocombustível e aumentando o incentivo econômico para que as usinas brasileiras direcionem maior parcela da cana-de-açúcar para a produção de etanol. Nos fundamentos produtivos, o relatório do escritório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em Brasília reduziu a estimativa para a produção brasileira de açúcar na safra 2026/27 para 42,2 milhões de toneladas, ante 42,5 milhões de toneladas na projeção anterior. Para o Centro-Sul, a produção é estimada em 38,7 milhões de toneladas, enquanto a meta de exportação brasileira foi reduzida para 33,3 milhões de toneladas. A revisão da produção brasileira ocorre em um cenário de aumento das preocupações com a oferta asiática.
O USDA reduziu a projeção para a safra da Índia para 29,5 milhões de toneladas, ante 33,6 milhões de toneladas anteriormente, em razão de chuvas de monção 12,6% abaixo da média histórica. A Associação de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia (Isma) estima estoques de passagem em 3,8 milhões de toneladas, o menor nível em mais de dez anos. O governo indiano também avalia restringir o uso de melaço B e caldo para a produção de biocombustíveis, com o objetivo de preservar a disponibilidade de açúcar para o abastecimento alimentar. No Brasil, levantamentos do Ministério da Agricultura (Mapa) e do Cepea indicam que as chuvas de setembro reduziram em 34,2% a moagem e em 41,6% a produção de açúcar na primeira quinzena do mês. O teor de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) recuou 4,25%, para 149,59 kg por tonelada. Na logística, a Datagro estima 35 dias de paralisações provocadas por tempestades no Porto de Santos (SP) entre julho e setembro, fator que afetou o fluxo de embarques.
Na União Europeia, analistas do ING e da Hedgepoint projetam redução de até 17% na produção de beterraba açucareira. As projeções de déficit global também sustentam os fundamentos do mercado. A Organização Internacional do Açúcar (OIA) estima déficit de 200 mil toneladas em 2026/27, enquanto a Covrig Analytics projeta 300 mil toneladas. Para 2027/28, a Czarnikow calcula déficit de 2,8 milhões de toneladas, e o Rabobank estima 3,2 milhões de toneladas. O conjunto das estimativas reforça a perspectiva de menor disponibilidade global de açúcar nos próximos ciclos, mesmo diante da pressão pontual exercida pela realização de lucros. No mercado financeiro, dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) mostram que os fundos especulativos mantêm posição líquida comprada expressiva de 152.117 contratos na ICE. A concentração de posições compradas amplia o potencial de realização em momentos de alta, mas também indica que o mercado financeiro permanece sustentado por uma percepção de oferta global mais apertada.