07/Oct/2026
Os contratos futuros de açúcar demerara fecharam em alta na Bolsa de Nova York nesta terça-feira (06/10), estendendo o movimento comprador recente e renovando a máxima em 19 meses. O vencimento março de 2027, atualmente o mais líquido e referência do mercado, avançou 9 pontos, ou 0,43%, e fechou a 20,82 centavos de dólar por libra-peso. A sustentação das cotações permanece associada aos impactos das chuvas sobre a moagem no Centro-Sul do Brasil, às interrupções nos embarques pelo Porto de Santos (SP), à valorização do real ante o dólar e às restrições estruturais de oferta na Ásia e na Europa. No Brasil, dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) reforçam os efeitos das precipitações de setembro sobre a produção. Na primeira metade de setembro, a fabricação de açúcar recuou 41,6%, para 2,117 milhões de toneladas, enquanto o processamento de cana-de-açúcar caiu 34,2%, para 30,16 milhões de toneladas. No acumulado da safra 2026/27, a moagem registra retração de 1,50%, para 443,7 milhões de toneladas, passando pela primeira vez no ano a operar abaixo do ritmo observado no período anterior.
A produção de açúcar no ciclo 2026/27 acumula queda de 14,26%, para 26,07 milhões de toneladas. O desempenho é pressionado pela redução de 4,25% no rendimento de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), para 149,59 kg por tonelada de cana. Com menor rendimento industrial e impactos das condições climáticas sobre a matéria-prima, as usinas ampliam a destinação da cana-de-açúcar para a produção de etanol, reduzindo a disponibilidade de açúcar. No setor logístico, as chuvas provocaram paralisações nos carregamentos de açúcar no Porto de Santos por pelo menos 35 dias entre julho e setembro, em razão da falta de cobertura nos berços. O problema gerou filas de navios e represamento dos embarques, restringindo o fluxo de exportações brasileiras e contribuindo para o suporte aos preços internacionais. O câmbio também atua como fator de sustentação. A valorização do Real reduz a atratividade da fixação de vendas para exportação pelas usinas, contribuindo para limitar a oferta brasileira direcionada ao mercado externo.
A Associação Indiana de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia (Isma) informou que a Índia iniciou a safra 2026/27 com estoque de passagem de 3,8 milhões de toneladas, o menor nível em mais de dez anos. A situação reduz a folga de oferta do segundo maior produtor mundial. Paralelamente, o governo indiano avalia restringir o uso de caldo de cana-de-açúcar e melaço B para a produção de etanol, com o objetivo de preservar o abastecimento interno de açúcar. Na União Europeia, a Hedgepoint reduziu em 17% sua estimativa para a produção de açúcar do bloco, para 13,1 milhões de toneladas. A revisão reforça o quadro de menor disponibilidade de açúcar em importantes regiões produtoras e amplia a atenção do mercado sobre o balanço global entre produção, consumo e estoques. Dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) mostram que os fundos especulativos mantêm elevada posição líquida comprada em açúcar na ICE, de 152.117 contratos. A posição financeira indica manutenção de interesse comprador e contribui para sustentar as cotações, embora aumente também o risco de realização de lucros após o forte avanço recente.
As projeções de balanço global continuam apontando para déficit de oferta. A Organização Internacional do Açúcar estima déficit de 200 mil toneladas no ciclo 2026/27, enquanto a Covrig Analytics projeta déficit de 300 mil toneladas. Para 2027/28, a Czarnikow estima déficit de 2,8 milhões de toneladas e o Rabobank trabalha com 3,2 milhões de toneladas. Apesar dos fundamentos altistas, a valorização dos contratos foi limitada por movimentos de realização de lucros, pela oscilação do petróleo e pelos dados recentes de exportação do Brasil. Após o rali e a renovação de máximas plurianuais, investidores realizaram ajustes técnicos e liquidações parciais de posições ao longo da sessão. O petróleo WTI recuava 0,15%, equivalente a US$ 0,15, para US$ 100,32 por barril, reduzindo marginalmente a sustentação proporcionada pela paridade teórica entre açúcar e biocombustíveis nas refinarias domésticas. No balanço estrutural, o mercado continua incorporando a revisão da StoneX, que reduziu de 1,7 milhão para 900 mil toneladas sua estimativa de déficit mundial de açúcar no ciclo 2026/27.
Embora a revisão represente uma redução relevante do déficit projetado, o balanço ainda permanece deficitário, mantendo o mercado sensível a novas perdas de produção ou interrupções nos fluxos comerciais. No comércio exterior brasileiro, dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram retração de 9,3% na média diária dos embarques de açúcar em setembro em relação ao mesmo período de 2025. A menor velocidade das exportações ocorre em um ambiente de problemas logísticos, câmbio desfavorável à fixação de vendas externas e menor disponibilidade de açúcar decorrente da redução da moagem e do rendimento de ATR. O conjunto dos fatores mantém o mercado internacional sustentado no curto prazo, com destaque para a menor produção no Centro-Sul do Brasil, os estoques reduzidos na Índia, a revisão para baixo da oferta europeia e as projeções de déficit global. Ao mesmo tempo, a elevada posição comprada dos fundos, a realização de lucros, o comportamento do petróleo e a menor média diária de exportações brasileiras funcionam como fatores de contenção para novas altas.