06/Oct/2026
Os contratos futuros de açúcar demerara encerraram a sessão desta segunda-feira (05/10) em forte alta na Bolsa de Nova York, acelerando os ganhos recentes e superando o patamar de 20,00 centavos de dólar por libra-peso, no maior nível em 19 meses. O vencimento março/27, atualmente o mais líquido e referência do mercado, avançou 80 pontos, equivalente a 4,01%, e fechou a 20,73 centavos de dólar por libra-peso. A valorização foi sustentada por uma combinação de gargalos logísticos no Porto de Santos, forte apreciação do real frente ao dólar, paralisações recorrentes da moagem no Centro-Sul e perspectivas de maior aperto estrutural da oferta global. Esse conjunto de fatores estimulou compras por fundos especulativos e reforçou a sustentação dos preços internacionais. Precipitações atípicas e frequentes interromperam os carregamentos no Porto de Santos (SP) em pelo menos 35 dias entre julho e setembro, em razão da falta de cobertura nos berços.
O problema provocou filas de navios e restrições ao fluxo de exportações, adicionando incerteza à comercialização externa do açúcar brasileiro. A forte valorização do Real reduziu a atratividade das vendas para exportação pelas usinas brasileiras. No Centro-Sul, a ocorrência de temporais recorrentes continua limitando o ritmo de colheita e prejudicando a qualidade da matéria-prima. O rendimento de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) caiu 4,25% na primeira quinzena de setembro, para 149,59 quilos por tonelada de cana, favorecendo o direcionamento de maior parcela da matéria-prima para a produção de etanol. A Hedgepoint projeta sustentação para as cotações em razão da oferta restrita esperada para o quarto trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027. No cenário internacional, a Associação Indiana de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia (ISMA) informou que a Índia iniciou a temporada 2026/27 com estoques de passagem de 3,8 milhões de toneladas, o menor nível em mais de uma década.
O volume reduzido limita a disponibilidade exportável e amplia a possibilidade de necessidade de compras externas, em um contexto de monção mais fraco. O acumulado de chuvas encerrou a temporada 12,6% abaixo da média. Na Tailândia, o clima seco e quente associado ao El Niño representa risco para o potencial produtivo. Na União Europeia, a Hedgepoint reduziu em 17% a estimativa para a produção da safra, para 13,1 milhões de toneladas. Esses fatores reforçam as preocupações com a disponibilidade internacional de açúcar ao longo dos próximos ciclos. Dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) mostraram aumento do saldo líquido comprado dos fundos especulativos na ICE, para 152.117 contratos. O posicionamento financeiro acompanha as projeções de déficit global de diferentes instituições. A Organização Internacional do Açúcar estima déficit de 200 mil toneladas em 2026/27; a Covrig Analytics, de 300 mil toneladas; a Czarnikow projeta déficit de 2,8 milhões de toneladas em 2027/28; e o Rabobank estima déficit de 3,2 milhões de toneladas.
A valorização encontrou limites no recuo do petróleo no exterior, na alta do dólar no mercado internacional e em revisões para baixo das estimativas de déficit global. O petróleo WTI recuou 1,46%, ou US$ 1,49, para US$ 102,25 por barril, reduzindo marginalmente a paridade teórica do biocombustível no mercado doméstico. Os investidores continuam incorporando a previsão da StoneX, que reduziu sua estimativa para o déficit mundial de açúcar no ciclo 2026/27 de 1,7 milhão para 900 mil toneladas. A revisão diminui parcialmente a percepção de escassez, embora permaneça um quadro global de oferta mais ajustada. Dados do Ministério da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) apontam retração de 9,3% na média diária dos embarques de açúcar acumulados em setembro ante igual período do ano anterior. A redução dos embarques, combinada aos gargalos no Porto de Santos e à valorização do Real, adiciona suporte aos preços internacionais ao limitar o fluxo exportador brasileiro em um momento de maior sensibilidade do mercado à disponibilidade global.