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16/Sep/2026

Açúcar: El Niño amplia riscos de oferta em 2027

O mercado global de açúcar entra em 2027 com risco crescente de aperto na oferta, diante da combinação entre os efeitos do El Niño, estoques reduzidos na Índia e problemas climáticos em importantes regiões produtoras. O cenário pode transformar o açúcar em uma das commodities agrícolas de maior potencial de valorização no próximo ano, especialmente se o excesso de chuvas comprometer o processamento da cana no Brasil e se a Índia precisar recorrer novamente ao mercado internacional para recompor sua disponibilidade doméstica. No Brasil, maior produtor e exportador mundial de açúcar, o excesso de chuvas já provoca atrasos no processamento da cana e aumenta a incerteza sobre o volume final da produção. A estimativa é de que o processamento tenha sido afetado em um volume equivalente a aproximadamente 25 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

A previsão de continuidade das chuvas em setembro reduz a possibilidade de recuperação do atraso e pode ampliar o impacto sobre o calendário industrial. O risco é particularmente relevante para o último terço da safra brasileira. Caso as chuvas persistam durante outubro e novembro, a produção de açúcar do Brasil poderá ficar entre 3 milhões e 5 milhões de toneladas abaixo do volume registrado na temporada anterior. A combinação de menor disponibilidade de matéria-prima e redução da eficiência operacional das usinas tende a limitar a oferta exportável justamente em um momento de maior necessidade de abastecimento internacional. A percepção de risco já se refletiu nas cotações. O açúcar acumulou alta de 20% em agosto, mas o movimento de valorização não eliminou os fundamentos altistas. Ao contrário, a avaliação é de que os riscos de escassez aumentaram durante a alta, porque as perdas potenciais de produção no Brasil passaram a se somar à deterioração do balanço de oferta e demanda em outros grandes produtores.

A Índia representa o principal fator adicional de pressão sobre o mercado. A segunda maior produtora mundial teve uma monção considerada mediana e irregular e iniciou o próximo ciclo com estoques muito baixos. O balanço doméstico tende a permanecer deficitário, aumentando a possibilidade de que o país reduza fortemente suas exportações e passe a importar volumes substanciais de açúcar em 2027. O governo indiano já autorizou importações sem impostos em 2026 como medida para melhorar o abastecimento interno e limitar a pressão sobre os preços. Caso a produção não seja suficiente para recompor os estoques, a Índia poderá ampliar essa estratégia e retornar ao mercado internacional de forma mais agressiva em 2027. Uma mudança de exportadora para importadora estrutural teria impacto relevante sobre o balanço global, pois reduziria a disponibilidade para outros grandes consumidores e aumentaria a competição pelo açúcar disponível no mercado internacional.

O quadro de oferta também é desfavorável em outras regiões produtoras. O clima quente e seco prejudicou a produção na Europa e na Indonésia, enquanto a produção da Tailândia, segundo maior exportador mundial, tende a recuar em razão da substituição de áreas de cana por mandioca. A menor disponibilidade desses fornecedores reduz a capacidade do mercado global de compensar eventuais perdas brasileiras e indianas. O El Niño amplia a incerteza porque seus efeitos sobre precipitação e temperatura ocorrem de maneira distinta entre as regiões produtoras. No Brasil, o excesso de chuvas pode atrasar a colheita e o processamento da cana, enquanto em outras regiões o calor e a irregularidade das precipitações podem reduzir o potencial produtivo. A simultaneidade de problemas climáticos em diferentes origens aumenta a sensibilidade dos preços a novas revisões de produção.

O mercado chega a esse período após uma fase de preços elevados que provocou redução do consumo em algumas regiões. A possibilidade de uma nova alta, entretanto, ocorre em condições diferentes. Consumidores e compradores permanecem relativamente pouco protegidos contra uma nova valorização após o vencimento do contrato de outubro, enquanto produtores apresentam maior cobertura comercial. Essa configuração pode aumentar a volatilidade e favorecer movimentos mais rápidos de alta caso surjam novas evidências de redução da oferta. A situação do Oriente Médio representa um fator baixista secundário. A redução esperada do consumo de açúcar na região, em função dos impactos da ação militar sobre a atividade econômica e o consumo, pode limitar parcialmente a pressão de demanda. Esse efeito, contudo, tende a ser insuficiente para neutralizar os riscos associados ao Brasil, à Índia, à Tailândia, à Europa e à Indonésia.

O principal ponto de atenção para 2027 está, portanto, no balanço entre uma oferta mundial potencialmente menor e estoques mais reduzidos em importantes países consumidores e produtores. A eventual redução de 3 milhões a 5 milhões de toneladas na produção brasileira, combinada à possibilidade de importações substanciais pela Índia e à menor oferta de Tailândia, Europa e Indonésia, poderia transformar um mercado atualmente equilibrado em um cenário de déficit mais expressivo. Para o Brasil, o risco climático ganha relevância adicional porque o açúcar disputa a cana com o etanol. Uma redução na disponibilidade de matéria-prima não implica necessariamente queda proporcional da produção de açúcar, já que as usinas podem ajustar o mix industrial de acordo com os preços relativos entre açúcar e etanol.

Assim, a valorização do açúcar pode aumentar a destinação da cana-de-açúcar ao açúcar, enquanto preços mais favoráveis do etanol podem limitar essa transferência. O cenário-base para 2027, portanto, é de maior volatilidade e assimetria de risco para os preços do açúcar. A confirmação de perdas no Brasil, a continuidade de estoques baixos na Índia e novas adversidades climáticas no Hemisfério Norte podem sustentar uma trajetória de alta e provocar novos picos de preços. Por outro lado, uma recuperação climática, uma produção brasileira mais próxima do potencial e menor necessidade de importação indiana poderiam limitar o movimento. Até o momento, contudo, os riscos estão mais concentrados no lado da oferta, o que mantém o açúcar entre as commodities agrícolas com maior potencial de valorização em 2027. Fonte: Reuters. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.