02/Sep/2026
O Citi elevou suas projeções para os preços do açúcar e reforçou a perspectiva de alta para a commodity, considerando a combinação de estoques mais apertados, riscos climáticos e menor flexibilidade da oferta global. O banco passou a projetar o contrato de açúcar demerara na Bolsa de Nova York em 19,00 centavos de dólar por libra-peso em três meses, ante 17,00 centavos de dólar por libra-peso anteriormente, e em 22,00 centavos de dólar por libra-peso em 12 meses. A avaliação é de que o mercado ainda apresenta espaço para novas altas, embora possa ocorrer alguma consolidação no curto prazo. Os riscos de oferta vêm se acumulando em importantes regiões produtoras. Na Índia, a autorização para importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto sem tarifa é considerada um indicativo de estoques domésticos significativamente menores do que apontam as estimativas oficiais.
A medida reduz a disponibilidade de açúcar indiano para exportação e tende a pressionar o comércio regional em um momento de menor conforto nos balanços globais. As condições climáticas ampliam as preocupações com a produção indiana. Chuvas abaixo da média em Karnataka, Marathwada e partes de Maharashtra, regiões responsáveis por quase um terço da produção de açúcar do país, aumentam os riscos para a produtividade da cana na safra 2026/27. A combinação de menor precipitação e fortalecimento do fenômeno El Niño coloca em dúvida as estimativas atuais, próximas de 30,5 milhões de toneladas, consideradas potencialmente otimistas. A situação também é agravada pela forte redução do direcionamento de açúcar para a produção de etanol na Índia. O volume equivalente de açúcar destinado ao etanol cairá para cerca de 800 mil toneladas, muito abaixo dos volumes observados em anos anteriores.
A necessidade simultânea de reduzir o desvio de açúcar para etanol e recorrer a importações reforça a percepção de um déficit estrutural de oferta no mercado indiano. Na Tailândia, chuvas abaixo do normal e pior desenvolvimento da cana representam riscos adicionais para a produtividade e a produção na safra 2026/27. Na União Europeia, calor e seca, redução da área cultivada com beterraba e maior consumo doméstico provocaram revisões negativas da produção e elevaram a necessidade de importações. Com isso, a União Europeia tende a deixar de ser uma fonte de excedente exportável e se tornar um importador maior, retirando mais de 1 milhão de toneladas dos fluxos globais de comércio. Nesse ambiente, o Brasil permanece como principal fornecedor de equilíbrio do mercado mundial, embora também enfrente riscos relacionados à execução da safra. A valorização do açúcar e a desvalorização do real elevaram a remuneração da produção açucareira bem acima da paridade com o etanol, incentivando as usinas a priorizar a produção e as exportações de açúcar.
As chuvas frequentes já vêm atrasando os embarques e o avanço da moagem no Brasil. A ocorrência de novas precipitações durante o período de pico da safra, entre agosto e outubro, pode prejudicar a colheita, reduzir a recuperação de açúcar e postergar as exportações. Dessa forma, embora o Brasil continue exercendo papel central no equilíbrio da oferta global, a margem para eventuais perdas de produtividade ou atrasos na execução da safra tende a ficar mais estreita. O cenário climático global amplia os riscos para o fim de 2026 e o início de 2027. O Citi considera o fortalecimento de um Super El Niño o principal risco agrícola para o período. Atualização da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) citada pelo banco aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um evento muito forte e 69% de chance de que sua intensidade entre outubro e dezembro supere a de todos os episódios de El Niño registrados desde 1950.
O impacto do fenômeno sobre os preços dependerá menos das perdas de produtividade isoladamente e mais da capacidade dos estoques globais de absorver eventuais choques de oferta. Historicamente, os movimentos mais expressivos de alta nas commodities ocorreram quando problemas climáticos coincidiram com níveis reduzidos de estoques. Nesse contexto, o açúcar apresenta maior vulnerabilidade por combinar elevada exposição aos efeitos do El Niño com uma margem de segurança cada vez menor nos estoques. Os estoques e a produtividade ainda não recuaram de forma significativa neste ciclo, o que mantém espaço para novas revisões caso o El Niño se intensifique. Os riscos para a produção global permanecem direcionados para uma trajetória de preços mais elevados, sustentando a revisão das projeções para 19,00 centavos de dólar por libra-peso em três meses e 22,00 centavos de dólar por libra-peso em 12 meses. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.