27/Aug/2026
Segundo a Czarnikow, a forte alta dos preços do açúcar na Índia deve reduzir a atratividade econômica do desvio de cana para a produção de etanol na temporada 2026/27. O governo indiano tende a adotar postura mais cautelosa na autorização da produção de etanol a partir da cana diante das preocupações com a oferta de açúcar nas temporadas 2026/27 e 2027/28. A valorização recente do açúcar aumenta a resistência à política de mistura de etanol. Os preços do açúcar na Índia atingiram níveis recordes após o retorno de um período seco em agosto, depois de chuvas mais favoráveis em julho no centro de Maharashtra. Na semana passada, algumas usinas do Estado comercializaram açúcar por mais de 60 rúpias por quilo, valor 60% superior ao registrado no início de julho e o maior já observado no país.
Diante da disparada das cotações, o governo autorizou a importação, sem tarifa, de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto para abastecimento do mercado doméstico. A medida foi adotada antes de uma sequência de grandes festivais, período em que os estoques devem permanecer apertados até o início da nova temporada de moagem, previsto para a segunda metade de novembro. Porém, a medida terá efeito limitado sobre a demanda indiana por açúcar demerara no mercado internacional devido aos prazos reduzidos para a operação. O impacto sobre o mercado global tende a ocorrer principalmente pela redução das exportações de açúcar refinado pelas refinarias costeiras da Índia, que poderão direcionar parte da produção ao mercado doméstico.
O governo indiano estabeleceu prazo até 28 de agosto para apresentação dos pedidos referentes à cota. Em novas importações, as cartas de crédito precisam ser confirmadas em até 15 dias, o açúcar deve chegar à Índia até 15 de outubro e as refinarias terão dois meses, a partir do registro de entrada, para processar e comercializar o produto. Açúcar já importado com isenção tarifária por refinarias costeiras no âmbito de programas de reexportação também poderá ser utilizado para atender à cota, desde que o pedido seja apresentado até 28 de agosto e a venda seja concluída até 31 de outubro. A valorização do açúcar também altera a relação de retorno entre a produção de açúcar e a fabricação de etanol.
Nesse cenário, caso o governo autorize algum volume de desvio de cana-de-açúcar para etanol na temporada 2026/27, será necessário elevar os preços de aquisição do biocombustível ou ocorrer uma queda das cotações do açúcar após o início da moagem. A decisão não deverá ser determinada exclusivamente pela rentabilidade das usinas. A consultoria considera também fatores políticos e socioeconômicos, além das preocupações com segurança alimentar e hídrica. Consumidores têm demonstrado resistência à ampliação da mistura de etanol na gasolina, sob alegações de redução da quilometragem dos veículos e de possíveis danos a motores antigos que não são compatíveis com concentrações mais elevadas do biocombustível. Há poucos meses, o governo indiano demonstrava interesse em ampliar a utilização da capacidade de produção de etanol do país como forma de reduzir a dependência de energia importada.
A elevação dos preços do açúcar e as perspectivas para as próximas temporadas, contudo, aumentam a pressão para limitar o uso da cana como matéria-prima para o biocombustível. A Índia poderá ampliar a utilização de arroz excedente e milho para cumprir as metas de produção de etanol. O governo já sinalizou que o etanol produzido a partir de arroz excedente terá participação maior na temporada 2026/27. Essas matérias-primas também apresentam riscos. O plantio de arroz está 3% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, enquanto a área de milho recuou 4%. Como parte relevante dessas culturas depende das chuvas, uma monção desfavorável poderia comprometer a produtividade e levar o governo a restringir também o uso de arroz e milho na produção de etanol.
Em contrapartida, a área plantada com cana permanece próxima da registrada no ano passado no conjunto da Índia e teria aumentado nos principais Estados produtores, como Maharashtra, Uttar Pradesh e Karnataka. A disponibilidade de irrigação também torna a produtividade da cana menos vulnerável à falta de chuvas do que as lavouras de arroz e milho. O cenário também envolve fatores políticos. Uttar Pradesh terá eleições estaduais em 2027, logo após o encerramento da temporada de moagem. O governo deverá buscar condições para que os produtores recebam pagamentos elevados e em dia. A melhora do fluxo de caixa das usinas por meio da produção de etanol pode ser uma das alternativas para atingir esse objetivo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.