24/Aug/2026
A Eve Air Mobility, empresa criada pela Embraer em 2020, prepara a implantação de sua primeira linha de produção de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL) em Taubaté, no interior de São Paulo, diante de uma carteira de intenções de compra que chega a US$ 13,5 bilhões. A companhia considera o projeto viável tanto do ponto de vista de engenharia quanto de modelo de negócio e trabalha com a previsão de certificação da aeronave em 2028 e de entrada no ponto de equilíbrio entre dois e três anos depois. A estrutura da Embraer é considerada um diferencial para reduzir os riscos financeiros associados ao desenvolvimento do eVTOL, especialmente diante dos desafios relacionados à segurança operacional e à certificação. Com acesso a engenheiros e recursos da empresa-mãe, além do apoio do BNDES, a Eve avalia ter liquidez suficiente para atravessar o período até a certificação sem necessidade de acelerar a captação de recursos. O eVTOL da Eve terá operação semelhante à de um helicóptero na decolagem, com movimento vertical, e à de um avião durante o deslocamento horizontal.
A aeronave elétrica deverá apresentar custo operacional até 25% inferior ao de um helicóptero e menor nível de ruído, uma característica associada à propulsão elétrica. Cada unidade terá preço estimado em aproximadamente US$ 5 milhões. A unidade de apoio fabril da Embraer em Taubaté deverá começar a ser adaptada nos próximos meses para receber a primeira linha de produção do veículo. O projeto executivo, com investimento previsto de US$ 88 milhões, está concluído e passa pela etapa de validação. A primeira estrutura terá capacidade para produzir até 120 aeronaves por ano. O projeto prevê a possibilidade de instalação de quatro módulos, que poderiam elevar a capacidade total para até 480 unidades anuais, embora ainda não exista previsão para atingir esse volume, que dependerá da evolução da demanda. O cronograma da Eve prevê o primeiro voo do eVTOL com piloto humano no segundo semestre de 2027 e a certificação completa pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Federal Aviation Administration (FAA) em 2028.
Após a certificação, a primeira entrega deverá ocorrer no prazo de uma semana para a empresa brasileira Revo, que possui pedido firme para até 50 aeronaves, além de serviços de pós-venda. A Eve possui atualmente uma carteira de aproximadamente 2,7 mil eVTOLs distribuídos entre 28 clientes de dez países, com valor potencial estimado em cerca de US$ 500 milhões. Considerando o livro de pré-vendas, o valor potencial chega a US$ 13,5 bilhões. O ponto de equilíbrio do negócio deverá ser alcançado quando a produção atingir entre 90 e 100 aeronaves por ano, volume estimado para ser alcançado entre dois e três anos após a certificação. A companhia apresenta queima anual de caixa entre US$ 225 milhões e US$ 275 milhões e liquidez de US$ 531 milhões. A empresa considera que os recursos disponíveis são suficientes para chegar à certificação e mantém a disciplina de gastos como prioridade, sem previsão de novas captações no mercado no curto prazo. A Eve teve como principais fontes de financiamento a própria Embraer, que detém 72% da empresa; o BNDES, com pouco mais de R$ 1 bilhão; e a abertura de capital no exterior, realizada em 2022.
A companhia é listada na Bolsa de Nova York e possui valor de mercado de aproximadamente US$ 900 milhões, equivalente a cerca de R$ 4,6 bilhões, enquanto a Embraer apresenta valor de mercado superior a R$ 70 bilhões na B3. Com a certificação, a Eve deverá entrar em uma nova etapa, na qual a geração de caixa passará a ser sustentada pelas vendas das aeronaves. A empresa também revisa continuamente processos em busca de novas sinergias com a Embraer e com os 22 fornecedores atuais. Entre eles estão a britânica BAE Systems, responsável pelas baterias; a japonesa Nidec Aerospace, fabricante de motores elétricos; e a norte-americana Beta Technologies, fornecedora de sistemas de propulsão. A companhia considera que o principal debate sobre o projeto passou da viabilidade para o ritmo e a escala de desenvolvimento do negócio, condicionados à expansão do ecossistema e da infraestrutura necessários à mobilidade aérea urbana. A Eve utiliza a estrutura e o conhecimento acumulado pela Embraer ao longo de 57 anos de atuação no setor aeronáutico, além da rede global de pós-venda da companhia.
Os contratos da Eve já contemplam a venda das aeronaves, garantia do fornecedor de serviços e atendimento durante toda a vida útil dos veículos. Atualmente, a Eve conta com 176 funcionários próprios e aproximadamente 800 profissionais da Embraer dedicados integralmente ao desenvolvimento do eVTOL por meio de contratos de prestação de serviços. O grupo reúne profissionais das áreas de engenharia, suprimentos, finanças, compliance e pós-venda, ampliando a estrutura disponível para o desenvolvimento do projeto. A Eve estima que a frota mundial de táxis aéreos poderá alcançar 30 mil unidades até 2045, com potencial para transportar 3 bilhões de passageiros no período e gerar receita de aproximadamente US$ 280 bilhões. A projeção considera tendências de crescimento e demanda do segmento de mobilidade aérea urbana, além de fatores sociais, regionais e aplicações relacionadas ao mercado de eVTOLs. O estudo de ‘Perspectivas de Mercado Global de eVTOLs’, elaborado pela Eve, considerou informações de 1.800 cidades do banco World Urbanization Prospects, das Nações Unidas, dados de aproximadamente 1.000 aeroportos e mais de 27 mil helicópteros civis atualmente em operação.
A entrada da Eve no mercado também poderá gerar impacto sobre a Embraer. Relatório do Citi destacou o avanço da companhia no processo regulatório e avalia que pouco ou nada do valor da Eve estaria incorporado à avaliação de mercado da Embraer. O relatório também citou empresas concorrentes listadas na Bolsa de Nova York, como Joby Aviation, com valor de mercado de US$ 7,3 bilhões, e Archer Aviation (Achr), com cerca de US$ 4 bilhões. Na última teleconferência de resultados da Embraer, a companhia destacou a contribuição esperada da Eve para a estratégia de crescimento do grupo, especialmente em 2029 e 2030. A Embraer pretende acompanhar a evolução da demanda antes de decidir sobre a eventual instalação de novas unidades de produção do eVTOL. Como parte da fase de testes do táxi aéreo, a Eve opera atualmente com um protótipo de engenharia em Gavião Peixoto (SP), que já acumula 66 voos realizados, em um total de 2 horas e 46 minutos. O primeiro ocorreu em dezembro, com um teste de decolagem vertical (hover) de 1 minuto, pilotado remotamente por uma equipe de pilotos de teste da Embraer.
Recentemente, o processo entrou na fase de transição, quando, além dos motores de sustentação vertical (lifters), passa a usar o motor de cauda (pusher) para avançar e ganhar velocidade. A meta é concluir até o fim de 2026 a transição completa, em que a aeronave passa a voar como um avião, sustentada pela asa, e volta a pousar verticalmente, como um helicóptero. Hoje, a velocidade máxima atingida nos testes é de 55 Km/h, com expectativa de chegar a 100 Km/h já nas próximas semanas. O próximo passo é a produção de seis aeronaves de conformidade (protótipos de certificação), que serão fabricadas pela Embraer e montadas pela Eve em Gavião Peixoto ao longo de 2027. O modelo final deverá levar quatro passageiros e um piloto e contará com um bagageiro de 500 litros. O alcance máximo estimado é de 85 a 90 quilômetros, embora as rotas típicas devam ficar em torno de 30 quilômetros. Uma vantagem do veículo é que ele decola e aterrissa como um helicóptero e voa em cruzeiro como um avião. Ele se encaixa em uma nova categoria que as autoridades chamam de powerlift.
A previsão é de que a nova aeronave tenha custo operacional até 25% menor do que um helicóptero. Apesar de já serem conhecidos como carros voadores, o CEO da Eve, Johann Bordais, rejeita a definição. Para o executivo, taxi voador define melhor o veículo, já que ele será operado por um "motorista" com treinamento específico, como outras aeronaves. Não será, portanto, um veículo privado que o consumidor poderá comprar em uma loja. Apenas empresas vão operar a aeronave. Em paralelo ao processo de certificação das aeronaves junto aos órgãos reguladores, a Eve trabalha em conjunto com empresas de energia e fornecedores de equipamentos e serviços para o desenho da infraestrutura de abastecimento das aeronaves, que serão elétricas. Os pontos de carregamento serão semelhantes aos postos de eletromobilidade existentes hoje para os carros elétricos. Há várias empresas juntas em um tipo de sandbox fazendo esse trabalho agora pensando no modelo de eletrificação de helipontos ou vertipontos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.