17/Aug/2026
A Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 1,642 bilhão no primeiro trimestre do ano-safra 2026/27 (abril a junho), redução de 11% em relação à perda de R$ 1,844 bilhão em igual período da safra anterior. A receita líquida cresceu 4%, para R$ 51,460 bilhões, enquanto o Ebitda ajustado mais que dobrou, para R$ 3,848 bilhões, ante R$ 1,701 bilhão um ano antes. O desempenho operacional foi sustentado principalmente pela distribuição de combustíveis no Brasil, que compensou a piora do segmento de Etanol, Açúcar e Bioenergia (EAB). O Ebitda ajustado da distribuição de combustíveis Brasil avançou 269%, para R$ 3,541 bilhões, beneficiado pelo crescimento dos volumes comercializados, ganhos de eficiência logística e comercial e maior diluição das despesas operacionais. O volume de vendas aumentou 6,6%, para 7,178 bilhões de litros, com altas de 8% no ciclo Otto e de 6,5% no diesel. A receita operacional líquida do segmento cresceu 16,1%, para R$ 44,714 bilhões, enquanto a margem Ebitda ajustada avançou de R$ 142 para R$ 493 por metro cúbico. No EAB, o Ebitda ajustado caiu 63,1%, para R$ 300,8 milhões, pressionado pela redução dos preços realizados de açúcar, etanol e bioenergia e pelos menores volumes comercializados.
A companhia também registrou menor produção de açúcar, enquanto a produção de etanol cresceu no trimestre. Apesar da melhora operacional, o resultado líquido continuou negativo devido ao aumento de 42,4% das despesas financeiras, para R$ 2,973 bilhões, associado ao maior endividamento e aos efeitos da implementação do plano de recuperação extrajudicial. Nas operações continuadas, o prejuízo líquido foi de R$ 797,9 milhões, ante R$ 1,787 bilhão um ano antes. A operação descontinuada, relacionada à Argentina, também teve impacto negativo de R$ 843,7 milhões no resultado do trimestre, incluindo efeitos contábeis do desinvestimento. Segundo a companhia, esse resultado inclui o desempenho líquido das operações argentinas no trimestre e efeitos contábeis relacionados ao desinvestimento, como baixa de ágios, custos da transação, variação cambial e impactos tributários. Os investimentos consolidados recuaram 32,6%, para R$ 1,053 bilhão no trimestre, em linha com a estratégia de disciplina na alocação de capital, informou a Raízen. A dívida líquida da Raízen encerrou o primeiro trimestre do ano-safra 2026/27 em R$ 56,870 bilhões, alta de 15,5% em relação aos R$ 49,220 bilhões registrados um ano antes, mas queda de 2,3% ante o trimestre imediatamente anterior.
A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado dos últimos 12 meses, recuou para 4,8 vezes, ante 5,2 vezes no quarto trimestre de 2025/26, mas permaneceu acima das 4,5 vezes registradas um ano antes. O Ebitda ajustado dos últimos 12 meses utilizado no cálculo da alavancagem somou R$ 11,853 bilhões, alta de 8,1% na comparação anual e de 5,1% ante o trimestre anterior. A dívida bruta, incluindo derivativos, somou R$ 70,863 bilhões no fim de junho, alta de 9,1% em um ano. Do total, R$ 67,609 bilhões estavam no escopo da recuperação extrajudicial, alta de 14,4% na comparação anual. A dívida fora do escopo da recuperação caiu 47%, para R$ 3,491 bilhões. No detalhamento da dívida, os débitos no escopo da recuperação extrajudicial, sem os efeitos dos derivativos, somavam R$ 65,718 bilhões no fim de junho, alta de 4,7% ante março. Entre os principais instrumentos estavam pré-pagamentos de exportação, de R$ 11,949 bilhões; certificados de recebíveis do agronegócio (CRA), de R$ 7,483 bilhões; e debêntures, de R$ 6,817 bilhões. Segundo a companhia, a redução da dívida líquida em relação ao trimestre anterior refletiu principalmente o desinvestimento da operação argentina, com a reclassificação de R$ 2,2 bilhões em ativos e passivos para a categoria de disponíveis para venda, além do aumento da apropriação de juros sobre as dívidas.
A pressão financeira, porém, aumentou no trimestre. O custo da dívida bruta cresceu 56,4% na comparação anual, para R$ 3,157 bilhões, ante R$ 2,018 bilhões um ano antes. O rendimento das aplicações financeiras caiu 31,5%, para R$ 318,1 milhões, enquanto os juros sobre arrendamentos recuaram 31,4%, para R$ 182,5 milhões. Com isso, o resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 2,973 bilhões, alta de 42,4% ante os R$ 2,087 bilhões negativos do primeiro trimestre da safra anterior. A Raízen informou ainda que a homologação do Plano de Recuperação Extrajudicial, ocorrida em 30 de julho, não produziu impactos financeiros ou contábeis nas demonstrações financeiras de 30 de junho. O resultado financeiro do trimestre, porém, incorporou juros acumulados sobre os passivos abrangidos pela recuperação e a apropriação dos custos de emissão dos instrumentos durante o período de suspensão dos pagamentos, de 180 dias. A Raízen processou 19,7 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no primeiro trimestre do ano-safra 2026/27, queda de 2% ante os 20,1 milhões de toneladas do mesmo período da safra anterior, em comparação que considera o atual portfólio de 24 usinas.
A companhia atribuiu a redução principalmente ao maior volume de chuvas no início da safra, que provocou interrupções nas operações de colheita. A produtividade agrícola caiu 3,2%, para 9 toneladas de ATR por hectare, enquanto o ATR recuou 2,9%, para 118,4 quilos por tonelada. Segundo a companhia, a menor produtividade agrícola refletiu principalmente a colheita de cana imatura, devido ao início antecipado das operações nesta safra, e o déficit hídrico durante o desenvolvimento dos canaviais, especialmente nas regiões de Andradina e Araçatuba, em São Paulo. O TCH da cana própria, por sua vez, caiu 0,9%, para 75,8 toneladas por hectare. A produção de açúcar caiu 13,6%, para 1,031 milhão de toneladas, enquanto a de etanol cresceu 9,4%, para 737 mil metros cúbicos. O mix de produção passou a ter 46% de açúcar e 54% de etanol, ante 51% e 49%, respectivamente, um ano antes. A companhia informou que a maior participação do etanol refletiu a dinâmica de rentabilidade entre os produtos, a estratégia de comercialização e a gestão do capital de giro. A produção de etanol de segunda geração (E2G) permaneceu estável em 22,8 milhões de litros. Nas vendas próprias, o volume de açúcar recuou 10,8%, para 888 mil toneladas, enquanto o preço médio caiu 22,3%, para R$ 2.011 por tonelada.
No etanol, o volume vendido aumentou 24,1%, para 617 mil metros cúbicos, mas o preço médio recuou 12,2%, para R$ 2.629 por metro cúbico. Segundo a companhia, os preços do açúcar acompanharam a retração das cotações de mercado, enquanto no etanol permaneceram pressionados pelo avanço da safra e pela maior produção de etanol de milho no mercado brasileiro. A homologação do plano de recuperação extrajudicial da Raízen encerrou uma etapa importante da reestruturação financeira da companhia e, agora, permite concentrar esforços na implementação das medidas previstas no acordo, segundo o CEO, Nelson Gomes. “Com essa etapa concluída, a gente passa então a focar, cada vez mais, na implementação das medidas previstas no plano de recuperação extrajudicial”, afirmou. Gomes destacou que a transformação financeira da empresa também vem sendo apoiada por maior geração de caixa, redução de despesas operacionais e otimização dos investimentos. “Estamos aprendendo cada vez mais a investir melhor e naquilo que realmente é importante na companhia”, disse. Para o executivo, a conclusão do processo fortalece as bases para a recuperação da estrutura financeira da Raízen.
A Raízen trabalha para que os negócios de distribuição de combustíveis e de açúcar, etanol e bioenergia sejam segregados, ao fim do processo de reestruturação, com a melhor estrutura de capital possível e a menor alavancagem em cada companhia, afirmou o CFO, Lourival Luz. Segundo ele, ainda é cedo para definir como eventuais benefícios da melhora de resultados e da geração de caixa serão distribuídos entre os dois negócios. “O objetivo nosso é entregar as duas companhias com a melhor estrutura de capital possível”, disse Luz. O executivo afirmou que a definição sobre qual negócio ficará relativamente mais alavancado dependerá da evolução dos resultados e das condições financeiras até a segregação. “É muito cedo para dizer se esse benefício vai estar do lado A ou do lado B”, afirmou. A Raízen tem até março de 2027 para concluir as etapas previstas no plano de recuperação extrajudicial (RE) e até dezembro de 2027 para a segregação dos negócios, segundo Luz. Até lá, o cenário pode mudar, com fatores capazes tanto de beneficiar quanto de pressionar os resultados das duas operações O CFO ressaltou que a gestão está concentrada na geração de caixa e na saúde financeira da companhia.
Ao fim do primeiro trimestre, segundo ele, a Raízen apresentava Ebitda e caixa melhores do que os considerados na negociação do plano de RE. “Hoje, encerrado o primeiro trimestre, comparado ao que fizemos quando da negociação do RE, estamos com um Ebitda melhor, com um caixa melhor”, afirmou. Luz disse ainda que a prioridade é manter essa evolução até a separação. “O nosso compromisso é com a saúde financeira e com o melhor resultado possível”, afirmou. As margens da Raízen no negócio de distribuição de combustíveis não devem repetir, nos próximos trimestres, o nível alcançado no primeiro trimestre da safra 2026/27, mas devem permanecer acima das registradas na temporada passada, afirmou o CEO, Nelson Gomes. Segundo ele, parte relevante do ganho observado no período decorreu de um efeito geopolítico temporário. “Eu não vejo, daqui para a frente, a repetição das margens que tivemos neste trimestre. Eu vejo que elas serão melhores do que as margens que vimos no ano passado”, disse Gomes. O executivo explicou que a volatilidade provocada por instabilidades geopolíticas e as dificuldades de suprimento beneficiaram pontualmente as margens da distribuição.
Esse efeito, porém, já começou a perder força em julho e não deve ser considerado recorrente. Por outro lado, Gomes apontou dois fatores que considera estruturais: a melhora do ambiente regulatório e as eficiências obtidas pela própria companhia. Segundo ele, medidas de combate a fraudes e sonegação vêm contribuindo para a recuperação das margens dos agentes regulares do setor. “Tem uma melhoria gradativa do ambiente”, afirmou. A redução de 21,9% nos investimentos (capex) da Raízen em distribuição de combustíveis no primeiro trimestre da safra 2026/27 não está relacionada ao adiamento de renovações de contratos nem a uma postura mais conservadora na expansão da rede, afirmou o CEO, Nelson Gomes. Segundo ele, a companhia segue crescendo em volume e em número de postos e chegou a acelerar algumas renovações. “Não estamos deixando de renovar nenhum tipo de contrato, muito pelo contrário. Aceleramos algumas renovações”, afirmou Gomes, em teleconferência de resultados. O executivo explicou que a queda do capex reflete, principalmente, um novo equilíbrio entre os investimentos feitos no momento da renovação ou assinatura de contratos e aqueles realizados ao longo da vigência dos acordos.
Segundo Gomes, a Raízen mantém a estratégia de expansão seletiva da rede, priorizando pontos considerados mais atrativos. “Nós não vamos fazer embandeiramentos de qualquer posto. Nós vamos fazer os melhores embandeiramentos disponíveis”, afirmou. No trimestre, os investimentos da distribuição de combustíveis somaram R$ 153,1 milhões, queda de 21,9% ante os R$ 196,1 milhões registrados um ano antes. Ainda, a Raízen começou a reduzir a participação do etanol em seu mix de produção e a direcionar maior volume para o açúcar após concentrar a produção no biocombustível no primeiro trimestre da safra 2026/27. A estratégia de produção e formação de estoques é revisada semanalmente, enquanto a companhia ainda não definiu o mix para o restante da safra. No primeiro trimestre, a Raízen destinou 54% da produção ao etanol e 46% ao açúcar, ante 49% e 51%, respectivamente, um ano antes. A maior participação do etanol refletiu a diferença de rentabilidade entre os produtos, a estratégia de comercialização e a gestão do capital de giro.
A escolha pelo etanol no início da safra também foi influenciada por fatores operacionais e climáticos. O início da moagem apresenta naturalmente maior direcionamento para a produção de etanol, enquanto interrupções provocadas pelas chuvas fazem com que a retomada das operações seja inicialmente mais voltada ao biocombustível. Outro fator considerado pela companhia foi o ciclo de conversão dos produtos em caixa. O etanol apresenta prazo menor para transformação em recursos financeiros, enquanto o açúcar demanda período mais longo, aspecto relevante para a gestão do capital de giro da companhia. A Raízen avalia o mix de produção praticamente todos os dias e realiza uma revisão formal semanal. A estratégia também considera a possibilidade de formação de estoques para capturar preços mais favoráveis no mercado. Até o momento, porém, a companhia ainda não tomou decisão sobre o carregamento de estoques para o restante da safra. Fonte: Broadcast Agro.