14/Aug/2026
Os contratos futuros de açúcar demerara fecharam em alta nesta quinta-feira (13/08) na Bolsa de Nova York, retomando o movimento de valorização e aproximando-se das máximas em mais de um ano. O vencimento outubro, referência atual e o mais líquido do mercado, avançou 40 pontos, ou 2,44%, e fechou a 16,82 centavos de dólar por libra-peso. A renovação das preocupações com a oferta global, diante de problemas climáticos na Europa e na Ásia, somada aos alertas sobre a queda do indicador de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) no Brasil, estimulou recompras por fundos especulativos. A São Martinho avalia que as estimativas para a produção de açúcar no Centro-Sul brasileiro deverão ser revisadas para baixo, diante da rápida redução da concentração de ATR provocada pelas chuvas recentes, que limita a conversão de cana em açúcar.
O cenário é reforçado pelos dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), que apontaram queda de 26,3% na produção de açúcar em junho, para 3,903 milhões de toneladas, enquanto o acumulado do ciclo alcançou 10,754 milhões de toneladas, recuo de 12,4%. No mercado internacional, dados da S&P Global Energy indicam que a seca e as temperaturas elevadas na União Europeia e no Reino Unido devem reduzir a produção regional para 14,98 milhões de toneladas, menor volume em 11 anos. Na Ásia, o Departamento Meteorológico da Índia (IMD) informou que o déficit acumulado das monções permanecia em 12% abaixo da média histórica até 13 de agosto, mantendo a perspectiva de precipitações abaixo do normal em agosto e setembro.
O cenário aumenta o risco de que a atual temporada de chuvas seja a mais fraca em 11 anos no segundo maior produtor mundial e pode levar os estoques indianos de passagem para 3,5 milhões de toneladas em 1º de outubro, menor nível em três décadas, segundo a Associação dos Comerciantes de Açúcar de Bombaim. Com isso, aumenta a possibilidade de necessidade de importações pela Índia. O viés comprador também encontra respaldo nas projeções de déficit global para a safra 2026/27. As estimativas apontam déficit de 3,3 milhões de toneladas pela Green Pool Commodity Specialists, 1,85 milhão de toneladas pela Datagro, 1,7 milhão de toneladas pela StoneX, 1,3 milhão de toneladas pelo Citi, 700 mil toneladas pelo Itaú BBA, 300 mil toneladas pela Covrig Analytics, 262 mil toneladas pela Organização Internacional do Açúcar (ISO) e 100 mil toneladas pela Czarnikow.
No Brasil, o setor sucroenergético continua absorvendo os efeitos do início da vigência da mistura obrigatória E32, com 32% de etanol anidro na gasolina, em 1º de agosto. A medida, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), deverá adicionar 633 milhões de litros à demanda por etanol no ciclo atual, segundo o Bradesco, e até 1 bilhão de litros em base anualizada, conforme estimativa do Citi. A valorização, porém, foi limitada pela queda das cotações do petróleo e pela demanda física moderada no mercado internacional. O petróleo WTI recuava 1,24%, ou US$ 1,10, para US$ 88,98 por barril, reduzindo temporariamente o suporte à paridade teórica do biocombustível em relação à gasolina.
Do lado da demanda global, StoneX, Bradesco e Vesper avaliam que grandes compradores, como China e Indonésia, mantêm postura cautelosa em relação a novas aquisições. A programação de embarques nos portos brasileiros, ou line-up, soma 1,495 milhão de toneladas, recuo de 48,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) também apontaram queda de 16,6% nas exportações brasileiras de açúcar em julho, para 2,992 milhões de toneladas. No cenário climático de médio prazo, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e o Centro de Previsão Climática dos EUA (CPC) mantêm em 81% a probabilidade de ocorrência de um evento de El Niño muito forte até setembro, fator que permanece no radar do mercado diante dos possíveis impactos sobre a oferta global de açúcar.