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05/Aug/2026

Petróleo: entrevista com Carolyn Kissane - NYU

Talvez o legado mais importante do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio não esteja no campo militar, mas no mercado global de energia. Por causa das ameaças a rotas marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, e o Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, o mundo iniciou uma guinada em busca de maior segurança energética, afirma Carolyn Kissane, professora do Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York (NYU) e especialista em geopolítica da energia. Segundo ela, a prioridade deixou de ser apenas garantir acesso à energia e passou a ser aumentar a resiliência dos sistemas energéticos. Nesse cenário, o Brasil, grande produtor de petróleo e detentor de uma matriz elétrica predominantemente renovável, pode sair fortalecido. Segue a entrevista:

O conflito mudou definitivamente o mercado global de energia?

Carolyn Kissane: os últimos quatro meses provaram ser extraordinariamente disruptivos, com o estrangulamento do Estreito de Ormuz, o que tornou o trânsito de petroleiros extremamente perigoso na região com as maiores reservas de petróleo do mundo. Isso forçou os países do Golfo Pérsico a repensarem sua dependência da rota do Estreito de Ormuz para o trânsito do petróleo que produzem. Estamos observando a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos buscando rotas alternativas, utilizando e planejando novos oleodutos para contornar o estreito. Diria que esse é um processo já em consolidação. Há, porém, algo ainda mais importante do que essa questão logística. Esse cenário expôs uma profunda insegurança energética para países altamente dependentes do Oriente Médio, especialmente na Ásia. Países do Sudeste Asiático, por exemplo, tiveram de racionar sua demanda por petróleo e gás natural. Isso causou uma reavaliação forçada das dependências de importação, com a compreensão de que certas vulnerabilidades não desaparecerão. Há outros gargalos, como o Estreito de Taiwan e o Estreito de Malaca (entre a Malásia e a Indonésia), com potencial para interrupções futuras. O que observamos é uma guinada estratégica dos países com foco na segurança - uma transição em que nações estão realizando uma reestruturação profunda de suas estratégias de segurança energética.

Como essa mudança afeta o Brasil?

Carolyn Kissane: Nunca é apropriado falar em vencedores quando um conflito provoca perdas humanas, mas, estrategicamente, o Brasil ganha relevância. O País é um produtor confiável de petróleo e possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Costumo comparar o Brasil à Noruega. Os noruegueses se beneficiaram após a invasão da Ucrânia porque produzem petróleo e gás, mas contam com uma base energética doméstica de baixo risco. O Brasil apresenta características semelhantes: exporta hidrocarbonetos enquanto consome majoritariamente energia renovável. Essa combinação se tornou muito valiosa.

A sra. fala em 'pico de demanda' por petróleo. O que sustenta essa avaliação?

Carolyn Kissane: A principal razão é a China. Nos últimos meses, o país mostrou que pode reduzir significativamente suas importações de petróleo graças à eletrificação dos transportes e às mudanças na indústria petroquímica. A China continua sendo o maior importador mundial de petróleo, mas sua capacidade de reduzir a demanda ajudou a limitar os impactos da guerra sobre os preços globais. Isso também envia um sinal para países emergentes, como a Índia, de que existem alternativas viáveis. Não significa que o petróleo desaparecerá. A questão é que o crescimento da demanda será menor do que se imaginava. Em vez de avançar para patamares de 110 milhões ou 115 milhões de barris por dia, o consumo global tende a se estabilizar próximo de 100 milhões.

Nesse contexto, vale a pena explorar novas reservas na foz do Rio Amazonas?

Carolyn Kissane: É uma questão complexa e difícil. Entendo o desejo da Petrobras, que é uma empresa produtora, de extrair o recurso enquanto ainda existe mercado. Mas é preciso pesar custos e benefícios. Existem custos ambientais significativos associados a áreas vulneráveis que, se causarem danos irreparáveis, podem não compensar o retorno financeiro. A experiência norte-americana pode ser um bom guia aqui: empresas dos EUA poderiam explorar o Ártico, mas avaliaram que o risco reputacional e ambiental era excessivo. A Shell tentou explorar o Ártico entre 2010 e 2012, e enfrentou protestos massivos e custos técnicos proibitivos. Se o governo brasileiro e a Petrobras avançarem na exploração na foz do Amazonas e houver um acidente grave, o dano à reputação do setor petrolífero brasileiro pode superar qualquer benefício econômico de curto prazo. O risco de um vazamento de óleo em uma região sensível como a Amazônia é algo que precisa ser considerado com seriedade, principalmente quando a comunidade internacional observa cada movimento.

A liderança chinesa em tecnologias renováveis foi uma estratégia de segurança energética?

Carolyn Kissane: Sem dúvida. Há cerca de duas décadas, a China concluiu que sua dependência de hidrocarbonetos importados era uma vulnerabilidade estratégica. A resposta foi investir pesadamente em painéis solares, baterias, turbinas eólicas e energia nuclear. Hoje, a China não apenas reduziu parte de suas vulnerabilidades como se tornou a principal fornecedora global dessas tecnologias. Foi uma estratégia de longo prazo para fortalecer a segurança nacional e conquistar liderança industrial.

A inteligência artificial pode transformar o mercado de energia?

Carolyn Kissane: A questão central da IA é a demanda por energia. As previsões apontam para um aumento de 2% a 5% na demanda global de energia apenas pela construção de novos data centers. Para quem desenvolve esses centros, é preciso acesso à energia confiável, acessível e, idealmente, responsável. O Brasil é um local excelente para isso, dada a sua matriz hidrelétrica robusta, que é considerada mais limpa. Curiosamente, a corrida pela IA colocou as metas de descarbonização em segundo plano. As empresas estão focadas em garantir acesso à energia, independentemente da fonte, mesmo que isso signifique um aumento temporário nas emissões por algumas grandes empresas de tecnologia que, até pouco tempo atrás, eram líderes na defesa do clima. O Brasil tem uma vantagem competitiva clara: se você tem um sistema de energia robusto e acesso à energia limpa, isso é um grande valor para atrair investimento internacional em IA.

Fonte: Broadcast Agro.