22/Jul/2026
A intensificação do fenômeno El Niño nos próximos meses mantém o mercado internacional de açúcar em estado de atenção devido ao risco de redução da produção em importantes países produtores da Ásia. Entretanto, a ampla disponibilidade de açúcar brasileiro, a demanda internacional enfraquecida e o aumento das fixações de preços pelas usinas do Centro-Sul têm impedido uma reação mais consistente das cotações internacionais. Os efeitos climáticos deverão ser refletidos de forma mais significativa nos preços apenas em 2027, quando a oferta brasileira tende a diminuir durante a entressafra e os impactos do fenômeno sobre os principais produtores asiáticos estarão mais consolidados. As maiores preocupações concentram-se na Índia e na Tailândia, dois dos principais produtores e exportadores mundiais de açúcar.
Em anos de El Niño, a redução das chuvas de monções costuma comprometer o desenvolvimento dos canaviais nesses países, reduzindo a disponibilidade exportável e afetando o abastecimento de mercados importadores do Sudeste Asiático, especialmente a Indonésia. Apesar desse cenário de risco, a produção brasileira continua exercendo papel decisivo no equilíbrio do mercado global. As perspectivas para a safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul permanecem favoráveis, sustentadas pelas boas condições climáticas registradas até o momento. O volume elevado de produção esperado para a atual temporada amplia a disponibilidade de açúcar no mercado internacional e reduz, no curto prazo, a sensibilidade das cotações aos riscos climáticos no Hemisfério Norte. Outro fator que limita a recuperação dos preços é o enfraquecimento da demanda mundial.
A taxa de crescimento do consumo global de açúcar, que historicamente se situava entre 2,2% e 2,3% ao ano, deverá permanecer próxima da estabilidade em 2026. Além disso, importantes importadores reduziram suas compras externas. A China ampliou sua produção doméstica e diminuiu as importações, enquanto a Indonésia mantém uma política de redução gradual da dependência do mercado externo, contribuindo para um ambiente de demanda mais moderada. Esse conjunto de fatores explica a dificuldade das cotações na Bolsa de Nova York em superar de forma consistente níveis mais elevados, mesmo diante das crescentes preocupações com o clima. Ainda assim, o mercado permanece altamente sensível às mudanças nas previsões meteorológicas.
Episódios de paralisação da moagem provocados por chuvas costumam oferecer sustentação temporária às cotações, movimento que perde força quando as condições climáticas permitem a retomada das operações industriais. Na avaliação dos analistas, ainda não há um fator estrutural capaz de romper de maneira consistente a faixa entre 15,00 e 16,00 centavos de dólar por libra-peso. A estratégia comercial das usinas brasileiras também contribui para limitar a valorização do açúcar. Após adiarem parte das fixações aguardando preços mais elevados, muitas empresas passaram a aproveitar os momentos de recuperação das cotações para ampliar as vendas futuras, elevando a oferta de contratos no mercado internacional e restringindo movimentos mais prolongados de alta. As perspectivas de maior valorização concentram-se em 2027.
Nesse período, a oferta brasileira tende a recuar sazonalmente durante a entressafra do Centro-Sul, enquanto os efeitos do El Niño poderão reduzir a produção na Tailândia e aumentar as incertezas em relação à safra da Índia. Paralelamente, a Europa também passou a representar um fator adicional de atenção em razão das ondas de calor registradas durante o verão, que podem comprometer a produtividade da beterraba. A redução da área cultivada na região, estimulada pelos baixos preços internacionais, também poderá ampliar a necessidade de importações de açúcar. Ainda assim, parte das perdas potenciais na Índia poderá ser compensada pela maior produção de etanol a partir de milho e arroz, reduzindo a necessidade de direcionar açúcar para a fabricação de biocombustíveis. Esse fator tende a suavizar parte dos impactos sobre a oferta global da commodity. No horizonte de médio e longo prazo, uma mudança estrutural no equilíbrio do mercado dependerá principalmente da expansão da demanda por etanol.
O crescimento da produção de combustível sustentável de aviação (SAF), dos combustíveis marítimos renováveis e da ampliação das misturas obrigatórias de biocombustíveis em diferentes países poderá aumentar de forma permanente a demanda por etanol, reduzindo a disponibilidade de cana destinada à produção de açúcar e oferecendo suporte adicional às cotações internacionais. Dessa forma, o mercado permanece dividido entre dois cenários. No curto prazo, a elevada oferta brasileira, a demanda internacional moderada e a intensificação das fixações de preços pelas usinas continuam limitando a valorização do açúcar. No médio prazo, entretanto, o fortalecimento do El Niño sobre importantes regiões produtoras do Hemisfério Norte mantém a perspectiva de maior aperto na oferta global e de recuperação mais consistente das cotações a partir de 2027. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.