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06/May/2026

Cana: queda do ATR comprime margens no setor

Queda nas commodities, custos em alta e margens comprimidas pressionam o produtor de cana-de-açúcar em plena largada de safra A sequência de meses com preços pressionados nas principais commodities agrícolas começa a cobrar uma fatura pesada no campo. Depois de um ciclo de valorização, culturas como soja, milho e agora a cana-de-açúcar enfrentam um cenário de recuo nas cotações, ao mesmo tempo em que os custos de produção permanecem elevados. O resultado é uma equação perigosa: receita em queda e despesas ainda altas, um ambiente que reduz drasticamente a margem e amplia o risco de descapitalização do produtor. Na cana-de-açúcar, o sinal de alerta é ainda mais intenso. O indicador central da remuneração do setor, o ATR (Açúcares Totais Recuperáveis), sofreu uma queda acentuada no início da safra, surpreendendo o mercado e preocupando principalmente o fornecedor independente.

O ATR é a unidade que mede a quantidade de açúcar recuperável presente na cana-de-açúcar. Em termos práticos, ele determina quanto açúcar ou etanol pode ser produzido a partir da matéria-prima entregue pelo produtor à usina. O pagamento da cana-de-açúcar é feito com base na quantidade de ATR por tonelada e no preço desse ATR no mercado. Ou seja, quanto maior o ATR e seu valor, maior a remuneração do produtor. Quando esse preço cai, toda a rentabilidade da atividade é impactada diretamente. ATR a R$ 0,93 é muito baixo. O nível atual do ATR é incompatível com a estrutura de custos da atividade. O preço do ATR desabou e isso vai quebrar o produtor de cana-de-açúcar, se essa situação se estender por muito tempo. A expectativa era de um ATR entre R$ 1,03 e R$ 1,05 no início da safra, mas o patamar atual é considerado crítico. Os custos pressionam e inviabilizam a conta.

O problema não está apenas na queda do ATR, mas no descompasso com os custos de produção, que seguem elevados. Insumos e despesas operacionais continuam pesando no caixa do produtor: o diesel próximo de R$ 8,00 por litro. adubação chegando a R$ 5,2 mil no plantio e R$ 4,9 mil na cobertura; juros elevados encarecendo o crédito. Diante desse cenário, a pergunta é direta: como o produtor de cana-de-açúcar hoje vai pagar o alto custo do canavial? Conta básica mostra risco de prejuízo. Considerando uma produtividade média de 100 toneladas por hectare ao longo de cinco anos, com 110 Kg de ATR livre, a receita anual gira em torno de R$ 5 mil por alqueire, cerca de R$ 416 por mês. Com custos estimados em R$ 40 mil por alqueire no plantio e mais R$ 10 mil ao longo das socas, o retorno se torna extremamente apertado.

Em um cenário ainda mais crítico, com 100 Kg de ATR, vai sobrar R$ 300,00 por mês ou R$ 3.600,00 por alqueire ano. Praticamente está pagando para trabalhar. Abaixo de 100 Kg de ATR nesses níveis de preço, o prejuízo é praticamente inevitável. Os produtores relatam cenário “insustentável”. A percepção no campo confirma o diagnóstico técnico. Comentários de produtores e profissionais do setor mostram um ambiente de forte apreensão: mais um ano-safra muito desafiador para o setor. A conta não fecha com ATR abaixo de R$ 1,00. Se continuar a cair, produzir qualquer cultura não será viável. Há também críticas à falta de políticas estruturantes para o setor, especialmente no estímulo ao consumo de etanol e na previsibilidade econômica. Ainda há regiões com alguma margem, mas ela encolheu. Na região de Catanduva (SP), onde se paga cerca de 140 Kg de ATR livre, ainda existe rentabilidade. No entanto, mesmo nesses casos, a margem caiu significativamente.

A agricultura é cíclica e já enfrentou outras fases difíceis, mas agora a intensidade da compressão de margens, causada pela combinação de preços mais baixos com custos persistentemente elevados, é muito preocupante. O cenário da cana-de-açúcar não é isolado. Relatos indicam dificuldades também em outras cadeias produtivas, como soja e limão. A leitura que ganha força entre produtores é de uma crise mais ampla no agronegócio, com perda de rentabilidade generalizada e aumento da incerteza sobre o futuro da atividade rural no Brasil. Se o movimento de queda persistir e não houver recomposição de preços ou alívio nos custos, o risco é claro: descapitalização, redução de investimentos e, em casos mais extremos, a saída de produtores da atividade, um efeito em cadeia que pode impactar toda a estrutura do setor sucroenergético. Fonte: CompreRural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.