13/Mar/2026
A recente volatilidade das cotações internacionais do petróleo reacendeu o debate sobre a capacidade do etanol de atuar como mecanismo de amortecimento para choques de preços no mercado brasileiro de combustíveis. Embora a presença de um biocombustível produzido internamente reduza, em teoria, a dependência de derivados fósseis importados, a dinâmica observada no mercado indica que esse efeito tende a ser limitado devido à forte correlação entre os preços do etanol hidratado e da gasolina.
Séries históricas divulgadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que ambos os combustíveis apresentam trajetória de preços semelhante ao longo do tempo. Em geral, movimentos de alta na gasolina são acompanhados por elevação no preço do etanol, enquanto recuos no combustível fóssil costumam ser seguidos por quedas no biocombustível. Essa co-movimentação decorre do fato de que os dois produtos competem diretamente na decisão de abastecimento do consumidor.
Desde a liberalização do mercado brasileiro de combustíveis no início dos anos 2000, os preços são livres em toda a cadeia, da produção à revenda. O valor final pago pelo consumidor resulta da combinação entre custos de produção, logística, margens comerciais e tributos. Nesse ambiente, o preço do etanol não é definido apenas com base nos custos de produção das usinas, mas também pela competitividade relativa em relação à gasolina.
Um dos parâmetros mais utilizados para avaliar essa relação é a chamada regra dos 70%. Em termos econômicos, o etanol tende a ser competitivo quando seu preço corresponde a aproximadamente 70% do valor da gasolina, refletindo o menor conteúdo energético por litro do biocombustível. Essa comparação tornou-se referência para consumidores e analistas e funciona como uma âncora de mercado que conecta a formação de preços dos dois combustíveis.
Esse mecanismo explica por que o etanol frequentemente acompanha movimentos da gasolina mesmo quando os fundamentos agrícolas permanecem relativamente estáveis. Em cenários de elevação do preço da gasolina, como ocorre quando as cotações internacionais do petróleo sobem ou quando há valorização do dólar, abre-se espaço para que o etanol também registre altas sem comprometer sua competitividade.
Essa dinâmica ganha relevância em períodos de valorização do Brent crude oil, referência global para o mercado de petróleo. Como a gasolina no Brasil é influenciada pelos preços internacionais do petróleo e pela taxa de câmbio, aumentos nessas variáveis tendem a se refletir nas bombas.
Em teoria, o etanol poderia amortecer parte desse choque externo, já que sua produção está vinculada principalmente à cadeia da cana-de-açúcar e, em expansão, ao etanol de milho, o que lhe confere fundamentos parcialmente distintos do mercado global de petróleo. Ainda assim, fatores agrícolas também exercem influência relevante sobre a formação de preços.
A recente ampliação da oferta de açúcar no mercado internacional tem pressionado as cotações da commodity, incentivando parte das usinas a direcionar maior volume de cana para a produção de etanol, atualmente mais rentável em determinados momentos. Com o avanço da colheita da nova safra de cana-de-açúcar, essa mudança de mix produtivo tende a ampliar a disponibilidade do biocombustível no mercado doméstico, o que poderia contribuir para moderar os preços ao consumidor.
Entretanto, a forte interdependência de preços observada no varejo indica que esse efeito tende a ser apenas parcial. Mesmo com aumento da oferta, a lógica competitiva do mercado costuma manter o etanol próximo do limite econômico em relação à gasolina. Na prática, isso significa que eventuais quedas de preço do biocombustível dificilmente se afastam de forma significativa da faixa que preserva a paridade econômica entre os combustíveis.
Estudos conduzidos pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) indicam que o varejo de combustíveis apresenta níveis relevantes de concentração em diversos mercados locais. Em ambientes com menor concorrência, a formação de preços pode refletir não apenas os custos, mas também a dinâmica competitiva entre distribuidores e postos.
No curto prazo, a trajetória dos preços nas bombas tende a permanecer fortemente condicionada ao comportamento do petróleo. Caso as cotações internacionais permaneçam elevadas, o etanol continuará sendo relevante para a segurança energética do Brasil, porém seu impacto sobre a inflação de combustíveis dependerá principalmente da distância de preço que conseguir manter em relação à gasolina, e não apenas do volume produzido na safra. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.