13/Mar/2026
O plano de recuperação extrajudicial da Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, atribui a deterioração da situação financeira do grupo a uma combinação de fatores macroeconômicos e setoriais, incluindo menor produtividade agrícola, juros altos e aumento do custo do endividamento. Com o pedido, a empresa pretende renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas, o que torna o processo o maior caso de reestruturação extrajudicial do País. A medida protege a Raízen na busca por acordo com credores por 90 dias. Segundo o documento, mudanças no ambiente econômico e no próprio setor sucroenergético prejudicaram o desempenho do grupo nos últimos anos e acabaram pressionando toda a estrutura financeira das empresas envolvidas. "A alteração do cenário macroeconômico e setorial, decorrente de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro - prejudicou a atividade das companhias operacionais e, por consequência, toda a operação estruturada pelas devedoras ao longo de anos de atuação no segmento", afirma.
O texto também destaca o impacto do forte aumento das taxas de juros no Brasil no período recente. De acordo com o documento, houve uma "alta expressiva da taxa básica de juros no mercado doméstico", com a Selic passando de cerca de 2% em 2020 para 15% em 2026. Esse movimento, segundo o plano, elevou significativamente o custo do endividamento das empresas do grupo e contribuiu para o agravamento da situação financeira. Diante desse cenário, a companhia afirma que a reestruturação tem por objetivo criar condições para renegociar o passivo financeiro e readequar a estrutura de capital. O plano afirma que a recuperação extrajudicial tem como objetivo "criar as condições e a estrutura necessárias" para que as empresas e seus credores negociem os termos da reestruturação das dívidas. Credores e acionistas da Raízen estão negociando uma conversão de R$ 16 bilhões de dívida em capital e, se chegarem a um acordo, devem se tornar sócios da empresa, conforme pessoas próximas às conversas.
Os controladores também vão fazer um aporte de capital: R$ 3,5 bilhões virão da Shell e R$ 500 milhões de Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta. Caso o plano de reestruturação vingue, a expectativa é de que a dívida da Raízen seja cortada expressivamente. Segundo o documento, o plano de recuperação extrajudicial pretende preservar a continuidade das operações do grupo e garantir estabilidade às atividades das companhias envolvidas no processo. O plano envolve nove empresas do grupo, incluindo subsidiárias operacionais no Brasil e no exterior ligadas às atividades de produção de açúcar, etanol e comercialização de combustíveis. Além da própria Raízen S.A., figuram como devedoras no plano as empresas: Raízen Energia S.A., Raízen Fuels Finance S.A., Raízen Trading S.A., Raízen North America Inc., Raízen Caarapó Açúcar e Álcool Ltda., Raízen Centro-Sul Paulista S.A., Raízen Centro-Sul S.A. e Blueway Trading Importação e Exportação S.A.
Segundo o documento, essas companhias integram a estrutura operacional e financeira do conglomerado e participaram da emissão ou garantia das dívidas financeiras que agora serão renegociadas no processo de recuperação extrajudicial. A inclusão dessas empresas no processo busca consolidar a renegociação das obrigações financeiras emitidas ou garantidas pelas diferentes companhias do grupo ao longo dos últimos anos. Segundo o plano, o objetivo é permitir que a reestruturação do passivo financeiro seja conduzida de forma coordenada entre as empresas envolvidas. Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa afirma que a recuperação extrajudicial foi consensualmente estruturada com seus principais credores financeiros quirografários (que não têm garantias). Segundo a empresa, o plano conta com adesão expressa dos credores signatários titulares de mais de 47% das dívidas financeiras quirografárias, porcentual suficiente para o ajuizamento da recuperação extrajudicial e que demonstra apoio relevante aos esforços para viabilizar a reestruturação das obrigações financeiras do Grupo Raízen.
A companhia lembra que, nos termos da legislação aplicável, o Grupo Raízen dispõe do prazo de 90 dias, a contar do processamento da recuperação extrajudicial, para obter o porcentual mínimo necessário à homologação de seu plano de recuperação extrajudicial, assegurando, assim, a vinculação de 100% dos créditos sujeitos aos novos termos e condições de pagamento a serem definidos no plano. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de 50% mais um dos credores. A Raízen esclarece que a recuperação extrajudicial não abrangerá as dívidas e obrigações do Grupo Raízen com seus clientes, fornecedores, revendedores e outros parceiros de negócios, essenciais para a sua operação e continuidade de suas atividades. O passivo de R$ 65,14 bilhões inclui obrigações em Reais, dólares e euros e envolve bancos globais, instituições financeiras brasileiras e investidores do mercado de capitais.
Do total consolidado, cerca de R$ 22,04 bilhões estão denominados em Reais, US$ 7,68 bilhões estão em dólares e € 506,2 milhões em euros, convertidos para Reais segundo a cotação PTAX (taxa de câmbio oficial de referência do dólar) de 9 de março de 2026. Entre os principais credores aparecem instituições financeiras internacionais como BNP Paribas, Rabobank, Bank of America, MUFG, JPMorgan, HSBC, Sumitomo Mitsui Banking Corporation. Dos bancos brasileiros, constam Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil. Parte relevante do passivo também está vinculada a títulos emitidos no mercado internacional. Diversos bonds da Raízen têm o Bank of New York Mellon como agente fiduciário. No mercado doméstico, o grupo possui ainda debêntures incentivadas e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) estruturados por securitizadoras como True e Opea. Ontem, as ações da Raízen chegaram a cair 11% e fecharam em queda de 5,77%. Fonte: Broadcast Agro.