12/Mar/2026
A Raízen, joint venture entre a Shell e a Cosan, protocolou, nesta quarta-feira (11/03), um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas não operacionais. O pedido já conta com adesão de cerca de 40% dos credores. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de 50% mais um dos credores. O plano abrange obrigações financeiras e não constitui compromissos correntes ou operacionais da companhia, como dívidas com fornecedores. A Raízen detinha R$ 17,3 bilhões em caixa no final de dezembro. A empresa tem US$ 5 bilhões em dívidas com detentores de bonds no exterior, outros US$ 5 bilhões com bancos e US$ 3 bilhões com títulos no mercado local. Segundo fato relevante divulgado pela Raízen no dia 4 de março, a proposta dos acionistas controladores em análise prevê, além dos R$ 3,5 bilhões da Shell, mais R$ 500 milhões vindos do sócio fundador da Cosan, Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta.
Com o plano, a Raizen passa a ficar protegida para buscar um acordo com os credores pelos próximos 90 dias, preservando o seu caixa. Trata-se de um dos maiores processos de reestruturação de dívidas do Brasil, ao lado das propostas pela Oi e pela antiga Odebrecht, atual Novonor. A Raízen é representada pelo escritório E.Munhoz Advogados e tem assessoria financeira de Rothschild & Co. Nas últimas semanas, representantes de Shell, Cosan, Raízen e BTG Pactual (acionista da Cosan) fizeram uma série de reuniões, buscando chegar a um acordo sobre quanto dinheiro deveriam aportar na empresa, que não evoluiu além dos R$ 4 bilhões decididos. As conversas incluíram um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O plano de recuperação extrajudicial protocolado no dia 11 de março pela Raízen atribui a deterioração da situação financeira do grupo a uma combinação de fatores macroeconômicos e setoriais, incluindo ciclos recentes de menor produtividade agrícola, compressão de margens e aumento do custo do endividamento.
Mudanças no ambiente econômico e no próprio setor sucroenergético prejudicaram o desempenho das companhias operacionais do grupo nos últimos anos e acabaram pressionando toda a estrutura financeira das empresas envolvidas. A alteração do cenário macroeconômico e setorial, decorrentes de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro, prejudicou a atividade das companhias operacionais e, por consequência, toda a operação estruturada pelas Devedoras ao longo de anos de atuação no segmento. O texto também destaca o impacto do forte aumento das taxas de juros no Brasil no período recente. De acordo com o documento, houve uma "alta expressiva da taxa básica de juros no mercado doméstico", com a Selic passando de cerca de 2% em 2020 para aproximadamente 15% em 2026. Esse movimento, segundo o plano, elevou significativamente o custo do endividamento das empresas do grupo e contribuiu para o agravamento da situação financeira.
Diante desse cenário, a companhia afirma que a reestruturação tem por objetivo criar condições para renegociar o passivo financeiro e readequar a estrutura de capital. O plano afirma que a recuperação extrajudicial tem como objetivo "criar as condições e a estrutura necessários" para que as empresas e seus credores negociem os termos da reestruturação das dívidas. Segundo o documento, a iniciativa também pretende preservar a continuidade das operações do grupo e garantir estabilidade às atividades das companhias envolvidas no processo. O plano de recuperação extrajudicial envolve nove empresas do grupo, incluindo subsidiárias operacionais no Brasil e no exterior ligadas às atividades de produção de açúcar, etanol e comercialização de combustíveis. Além da própria Raízen S.A., figuram como devedoras no plano as empresas Raízen Energia S.A., Raízen Fuels Finance S.A., Raízen Trading S.A., Raízen North America Inc., Raízen Caarapó Açúcar e Álcool Ltda., Raízen Centro-Sul Paulista S.A., Raízen Centro-Sul S.A. e Blueway Trading Importação e Exportação S.A.
Segundo o documento, essas companhias integram a estrutura operacional e financeira do conglomerado e participaram da emissão ou garantia das dívidas financeiras que agora serão renegociadas no processo de recuperação extrajudicial. O plano afirma que essas empresas fazem parte do “Grupo Raízen”, definido como o conjunto de companhias controladas direta ou indiretamente pela Raízen. O documento descreve o grupo como formado por "sociedades holding e sociedades operacionais atuantes no segmento de produção de etanol e açúcar e distribuição de combustíveis, produtos e serviços, em todo território nacional e em outros países". A inclusão dessas empresas no processo busca consolidar a renegociação das obrigações financeiras emitidas ou garantidas pelas diferentes companhias do grupo ao longo dos últimos anos. Segundo o plano, o objetivo é permitir que a reestruturação do passivo financeiro seja conduzida de forma coordenada entre as empresas envolvidas.
O plano de recuperação extrajudicial da Raízen prevê a reestruturação das dívidas financeiras sem garantia do grupo, conhecidas como créditos quirografários. De acordo com o documento, esses créditos correspondem a obrigações financeiras emitidas ou garantidas pelas empresas envolvidas no processo e incluem valores de principal, juros, juros de mora e outros encargos associados aos títulos existentes. O plano estabelece que serão abrangidos “todos os créditos financeiros quirografários contra as devedoras relacionados ou resultantes dos Títulos Existentes, incluindo principal, juros, juros de mora e quaisquer outras obrigações das devedoras”. Além das dívidas com credores externos, o documento também menciona a existência de créditos intercompany, resultantes de operações financeiras realizadas entre empresas do próprio grupo ao longo do tempo. Segundo o plano, as companhias “realizaram diversos contratos de financiamento e transferência de recursos financeiros entre si”, atuando reciprocamente como credoras e devedoras.
A renegociação dessas obrigações faz parte da estratégia de reestruturação do passivo financeiro do grupo. O documento afirma que as empresas vêm mantendo tratativas com credores para “renegociação do seu passivo financeiro quirografário”, buscando alternativas para readequar sua estrutura de capital. O plano estabelece que determinados tipos de obrigações financeiras permanecerão fora do processo de reestruturação. Entre os principais itens excluídos estão créditos decorrentes de contratos de Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACCs) e dívidas garantidas por alienação fiduciária, que não se submetem à recuperação extrajudicial de acordo com as regras da legislação brasileira. O documento também exclui operações realizadas em câmaras de compensação e liquidação, que incluem instrumentos financeiros como derivativos, swaps e contratos futuros. Segundo o plano, esses instrumentos permanecem regidos pelos respectivos contratos e pelos regulamentos das instituições que operam os sistemas de compensação.
O texto afirma que ficam de fora créditos decorrentes de operações em câmaras de compensação ou liquidação, bem como outras obrigações excluídas pela Lei de Recuperação e Falências. O plano prevê diferentes alternativas para a reestruturação financeira do grupo, incluindo a possibilidade de venda de ativos e outras medidas destinadas à redução da alavancagem. Segundo o documento apresentado à Justiça, a companhia busca alternativas para reorganizar sua estrutura financeira e reduzir o nível de endividamento. O plano afirma que as empresas vêm conduzindo esforços de redução da alavancagem "por meio da venda de ativos não essenciais" e da renegociação do passivo financeiro. O texto também menciona que a companhia avalia "alternativas possíveis para readequação da estrutura de capital das devedoras", incluindo a renegociação e repactuação do endividamento financeiro e outras medidas estruturais.
Em Fato Relevante divulgado nesta quarta-feira (11/03) pela empresa, em que confirmou a recuperação extrajudicial, a empresa também detalhou instrumentos adicionais que poderão ser utilizados no processo de reestruturação. Segundo o comunicado, a proposta poderá envolver capitalização da companhia pelos acionistas, conversão de parte dos créditos sujeitos em participação acionária e substituição de parte das dívidas por novos instrumentos financeiros. O Fato Relevante também menciona que a reestruturação pode incluir reorganizações societárias dentro do grupo e eventuais vendas de ativos como parte da estratégia de reorganização financeira. Essas alternativas deverão ser discutidas com os credores no âmbito da recuperação extrajudicial e poderão integrar o plano atualizado que será submetido posteriormente à homologação judicial. O plano de recuperação extrajudicial da Raízen prevê a possibilidade de reconhecimento internacional do processo, incluindo eventual pedido de reconhecimento da recuperação nos Estados Unidos.
O documento faz referência ao Chapter 15 do U.S. Bankruptcy Code, mecanismo jurídico utilizado para reconhecer processos de insolvência estrangeiros perante cortes norte-americanas. Segundo o plano, o processo pode resultar em decisões de uma corte de falências nos Estados Unidos voltadas ao reconhecimento e à execução da recuperação extrajudicial conduzida no Brasil. O texto menciona a possibilidade de obtenção de decisões conhecidas como "Decisão Norte-Americana de Reconhecimento da RE" e "Decisão de Confirmação Chapter 15". De acordo com o documento, essas medidas podem ser adotadas para assegurar que os efeitos do processo brasileiro sejam reconhecidos em outras jurisdições, especialmente em casos que envolvam credores ou operações financeiras no exterior. O plano também menciona a "Corte Norte-Americana de Falências", indicando que eventuais decisões poderão ser tomadas por tribunais dos Estados Unidos no âmbito do procedimento previsto no Chapter 15.
A Cosan informou, diante do pedido de recuperação extrajudicial do Grupo Raízen, que o processo possui escopo restrito às obrigações financeiras específicas dessas empresas, não envolvendo, afetando ou gerando qualquer repercussão sobre as obrigações, operações, estrutura de capital ou posição financeira da Cosan e de suas controladas. Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa afirma que as atividades, compromissos e relações comerciais do Grupo Cosan permanecem inalterados e seguirão sendo conduzidos regularmente, não havendo qualquer impacto direto decorrente do referido pedido. O pedido de recuperação extrajudicial foi protocolado na Comarca da Capital de São Paulo para renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas. A Raízen listou R$ 65,14 bilhões em dívidas sujeitas ao plano de recuperação extrajudicial pela companhia, segundo a relação de credores apresentada no documento.
O passivo inclui obrigações em Reais, dólares e euros e envolve bancos globais, instituições financeiras brasileiras e investidores do mercado de capitais. Do total consolidado, cerca de R$ 22,04 bilhões estão denominados em reais, enquanto aproximadamente US$ 7,68 bilhões estão em dólares e 506,2 milhões em euros, convertidos para Reais segundo a cotação PTAX de 9 de março de 2026. Entre os principais credores aparecem instituições financeiras internacionais como BNP Paribas, Rabobank, Bank of America, MUFG, JPMorgan, HSBC e Sumitomo Mitsui Banking Corporation, além de bancos brasileiros como Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Banco do Brasil. Parte relevante do passivo também está vinculada a títulos emitidos no mercado internacional. Diversos bonds da Raízen têm o Bank of New York Mellon como agente fiduciário, incluindo emissões com vencimentos em 2032, 2034, 2035, 2037 e até 2054. No mercado doméstico, o grupo possui ainda debêntures incentivadas e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) estruturados por securitizadoras como True e Opea.
A relação de credores mostra também a presença de diversas linhas de financiamento estruturado, como operações de pré-exportação e crédito corporativo de longo prazo, além de contratos de garantia ligados à comercialização de energia e operações de derivativos com instituições financeiras. O documento inclui ainda dívidas internas entre empresas do próprio grupo, as chamadas operações intercompany, que somam cerca de R$ 33,49 bilhões. As obrigações estão distribuídas entre diferentes empresas da estrutura corporativa da companhia, incluindo Raízen S.A., Raízen Energia, Raízen Fuels Finance, Raízen Centro-Sul Paulista e Raízen Trading, refletindo o modelo de captação financeira descentralizado do grupo. Instrumentos do mercado de capitais brasileiro, como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e debêntures incentivadas, respondem por cerca de R$ 13,7 bilhões da dívida da Raízen incluída no plano de recuperação extrajudicial, segundo a relação de credores apresentada pela companhia.
Os CRAs estruturados pela True Securitizadora somam aproximadamente R$ 6,43 bilhões, enquanto as debêntures incentivadas com Pentágono DTVM como agente fiduciário alcançam cerca de R$ 6,35 bilhões. Além disso, a Opea Securitizadora aparece com um CRA adicional de aproximadamente R$ 905 milhões. Esses instrumentos representam uma parcela relevante da estrutura de financiamento da companhia no mercado doméstico, ao lado de emissões de dívida no exterior e de financiamentos bancários. Entre os bancos, o BNP Paribas aparece com cerca de R$ 3,06 bilhões em financiamentos, enquanto o Rabobank tem exposição próxima de R$ 2,24 bilhões. O Bradesco reúne aproximadamente R$ 2,08 bilhões em operações de crédito e CPR financeiras. Outras instituições financeiras relevantes incluem o Sumitomo Mitsui Banking Corporation (SMBC), com cerca de R$ 1,95 bilhão, e o Scotiabank, com aproximadamente R$ 1,59 bilhão em empréstimos ao grupo.
A lista de credores também inclui instituições como Santander, Itaú BBA, MUFG, BBVA e Banco do Brasil, além de securitizadoras, trustees de emissões internacionais e contrapartes de operações de derivativos. No total, o plano de recuperação extrajudicial da companhia reúne R$ 65,14 bilhões em dívidas, considerando valores convertidos para reais pela PTAX de compra de 9 de março de 2026. A dívida incluída no plano de recuperação extrajudicial da Raízen está concentrada principalmente em investidores do mercado de capitais e grandes bancos internacionais. Levantamento com base na relação de credores do plano mostra que BNY Mellon, bondholders e securitizadoras lideram o ranking dos principais credores do grupo, responsável por um passivo total de R$ 65,14 bilhões. No topo da lista aparece o Bank of New York Mellon, que atua como agente fiduciário (trustee) de seis séries de bonds internacionais emitidos pela Raízen Fuels Finance.
Os títulos, com vencimentos entre 2032 e 2054, somam cerca de R$ 18,78 bilhões quando convertidos para reais pela PTAX de compra de 9 de março de 2026. Em seguida figura um grupo ad hoc de bondholders, formado por investidores que detêm títulos da companhia e que aderiram ao plano, com cerca de R$ 7,49 bilhões em exposição. Juntos, os dois primeiros itens do ranking evidenciam o peso do financiamento via mercado internacional de capitais na estrutura de dívida da empresa. Entre os instrumentos do mercado doméstico, destacam-se os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA). As emissões estruturadas pela True Securitizadora somam aproximadamente R$ 6,43 bilhões, enquanto as debêntures incentivadas com Pentágono DTVM como agente fiduciário alcançam cerca de R$ 6,35 bilhões. Entre os demais credores figuram ainda o Santander, com cerca de R$ 1,27 bilhão em crédito e pré-financiamentos de exportação; o Itaú BBA, com cerca de R$ 1,24 bilhão em CPR financeiras; o MUFG Bank, com aproximadamente R$ 1,18 bilhão; o BBVA, com cerca de R$ 1,05 bilhão; e o Banco do Brasil, com aproximadamente R$ 1,03 bilhão em exposição.
Também aparecem na lista instituições ligadas a garantias e securitizações, como a Santander Corretora, com cerca de R$ 978 milhões em avais relacionados à comercialização de energia elétrica, e a Opea Securitizadora, com aproximadamente R$ 906 milhões em CRA. Outros credores incluem US Bank National Association, Bank of China, JPMorgan, HSBC, Citibank, Bank of America e Crédit Agricole, além de posições em derivativos com instituições como BNP Paribas Brasil, Morgan Stanley e Bank of America Merrill Lynch. Os valores foram convertidos para reais utilizando a PTAX de compra de 9 de março de 2026, equivalente a R$ 5,2133 por dólar e R$ 6,0433 por euro, conforme indicado na relação de credores apresentada no plano. Confira a lista dos 30 maiores credores da Raízen:
1) Bank of New York Mellon - R$ 18,78 bilhões
2) Grupo ad hoc de bondholders - R$ 7,49 bi
3) True Securitizadora - R$ 6,43 bi
4) Pentágono DTVM - R$ 6,35 bi
5) BNP Paribas - R$ 3,06 bi
6) Rabobank - R$ 2,24 bi
7) Bradesco - R$ 2,08 bi
8) SMBC - R$ 1,95 bi
9) Scotiabank - R$ 1,59 bi
10) Santander - R$ 1,27 bi
11) Itaú BBA - R$ 1,24 bi
12) MUFG - R$ 1,18 bi
13) BBVA - R$ 1,05 bi
14) Banco do Brasil - R$ 1,03 bi
15) Santander Corretora - R$ 978 milhões
16) Bank of America - R$ 912 mi
17) Opea Securitizadora - R$ 906 mi
18) US Bank National Association - R$ 902 mi
19) Bank of China - R$ 795 mi
20) JPMorgan - R$ 789 mi
21) BNP Paribas Brasil - R$ 606 mi
22) Morgan Stanley - R$ 584 mi
23) HSBC - R$ 448 mi
24) Citibank - R$ 433 mi
25) Bank of America Merrill Lynch - R$ 389 mi
26) Crédit Agricole CIB - R$ 271 mi
27) XP Comercializadora - R$ 170 mi
28) Itaú Unibanco (derivativos) - R$ 38 mi
29) Citibank N.A. - R$ 33 mi
30) Rabobank (derivativos) - R$ 11 mi
*Bank of New York Mellon e US Bank atuam como trustees das emissões de bonds e representam os investidores detentores dos títulos
Fonte: Broadcast Agro.