27/Feb/2026
Credores da Raízen estimam que a empresa precisa de um aporte de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões para equilibrar suas contas, de acordo com cartas enviadas aos controladores da companhia, a Cosan e a Shell, pedindo uma capitalização "substancial" na empresa. Com uma dívida líquida de R$ 55 bilhões, uma capitalização nesse nível reduziria o montante quase pela metade e o nível de alavancagem da companhia cairia de forma substancial, para um nível mais sustentável, abaixo de 3 vezes. A ideia de parte dos credores é de que o aporte da Cosan e da Shell chegasse a até R$ 12 bilhões, com uma oferta de ações para levantar mais R$ 6 bilhões a R$ 8 bilhões. A visão é de que se os controladores ancorarem a oferta de ações em montante relevante, a operação pode atrair demanda de mercado. O objetivo maior é evitar uma recuperação judicial, que na visão de um interlocutor seria o pior cenário para uma companhia desse porte.
Para mostrar a urgência de uma definição, uma fonte conta que o grupo de bancos estrangeiros enviou a carta para a Cosan e a Shell falando da necessidade de capitalização em pleno domingo, no último dia 22. Uma carta anterior já havia sido enviada, e com teor semelhante, por credores brasileiros, principalmente bancos. "O clima está tenso entre credores, e muita informação desencontrada", disse uma fonte. Há, no entanto, desafios claros para essa proposta de capitalização. A Shell não tem apetite para entrar no negócio caso a Cosan não acompanhe o aporte da sócia na mesma medida. A Cosan, por sua vez, que acabou de receber novos sócios para adequar sua estrutura de capital, não está em condições de fazer uma capitalização tão elevada na controlada.
Apesar do discurso inicial da Cosan, controladora da Raízen ao lado da Shell, de que os recursos de seu próprio aumento de capital, realizado no ano passado, não seriam utilizados na Raízen, o texto da segunda oferta de ações feita na ocasião tem uma cláusula que permite a destinação de recursos para a subsidiária, o que daria à holding a liberdade de colocar R$ 1,4 bilhão (US$ 265 milhões) na investida. Valor ainda distante dos R$ 6 bilhões pedidos pelos credores. Há ainda um terceiro nome que participa das negociações, o BTG Pactual, que injetou recursos e se tornou sócio da Cosan. O banco fez uma proposta que chegaria a até R$ 8 bilhões de aporte com R$ 3 bilhões divididos entre Shell, Cosan e Rubens Ometto, fundador e controlador da Cosan e uma oferta com fundos de private equity geridos pelo BTG aportando R$ 5,3 bilhões. No entanto, fontes afirmam que o BTG só aceitaria entrar nessa composição, caso houvesse uma separação entre o negócio de usinas e a distribuição de combustíveis, solução que não agrada a todos na mesa.
O governo está monitorando a situação de perto, por a Raízen ser uma empresa grande e atuar em área importante estrategicamente para o País, a energia. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é credor do grupo e está acompanhando as conversas. Neste momento, com esse nível de indefinição, não há como o BNDES entrar em uma eventual capitalização, disse um interlocutor na condição de anonimato. Para esta fonte, o maior temor agora é forçar credores, como os detentores de títulos de dívida, a virarem acionistas, como aconteceu com a Light e mais recentemente com a Azul e Casas Bahia. As negociações, a todo vapor, acontecem no Brasil e em Londres, com credores in loco pedindo que a empresa britânica de combustíveis aloque mais recursos na controlada. Enquanto se colocam opções na mesa, uma que ainda não saiu do radar, é a de atrair mais um sócio para o negócio, para além do BTG Pactual, para ampliar os recursos ou reduzir o aporte dos atuais controladores.
No geral, o que quase todos têm em comum é a leitura de que uma recuperação judicial seria o pior cenário para os envolvidos. A tendência é seguir buscando uma renegociação amigável. Ainda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou pessoalmente, nas últimas semanas, uma reunião com executivos de importantes empresas envolvidas nas negociações para resgatar a Raízen, produtora de açúcar e etanol em dificuldades. O encontro contou com representantes dos co-controladores da Raízen, Cosan e Shell Plc, além de Banco BTG Pactual, e com integrantes do governo. O objetivo, na prática, foi destravar caminhos para reduzir a pressão sobre o balanço da companhia, que enfrenta um quadro de alavancagem elevada e aperto de liquidez, após um novo trimestre ruim e sucessivos rebaixamentos de rating. Ainda, a Shell tenta trazer mais uma empresa para compor o aporte na Raízen em conjunto com a Cosan, de acordo com fontes.
A companhia já conversou com potenciais interessados, entre eles o grupo japonês Mitsui, que preferiu não avançar com as conversas. A razão para a busca de um novo participante é que a Shell não quer ter mais de 50% do capital da Raízen, o que obrigaria o grupo holandês a consolidar a dívida bilionária da companhia em seu balanço internacional. Por isso, com um sócio, haveria uma diluição. Hoje a Raízen é dividida entre Shell com 44% e a Cosan com 44%, mas esta última não tem os recursos necessários para um aporte mais firme. O restante das ações está distribuído no mercado. A Shell tem dito a interlocutores que não quer o pior cenário para a Raízen, como um calote ou uma recuperação judicial. A empresa estaria disposta a fazer uma injeção de R$ 3,5 bilhões no negócio. O aporte, porém, está vinculado à capitalização por parte do parceiro brasileiro: a previsão é de que a Cosan injetaria R$ 1 bilhão e o fundador do grupo, Rubens Ometto, colocaria mais R$ 500 milhões.
O clima ficou mais tenso entre os credores nos últimos dias. Bancos, locais e estrangeiros, e detentores de bônus dizem que não vêm sendo chamados para participar das negociações sobre a capitalização em conjunto com os controladores. "Há uma conversa para capitalizar a empresa, mas os bancos não estão sendo chamados para sentar nessa mesa", diz uma fonte. Nos últimos dias, cresceu entre os bancos credores o temor de que a Cosan fosse anunciar alguma estrutura de capitalização sem que eles estivessem sendo chamados para as rodadas de conversas. "A sensação era de estar sendo deixado de lado", disso o diretor de um banco. Bancos estrangeiros, por exemplo, precisam mandar informações para suas matrizes, mas sem participar das negociações, as notícias estavam desencontradas. Por isso, os bancos, primeiro os locais, depois os estrangeiros, resolveram mandar cartas para a Cosan e a Shell falando da necessidade urgente de capitalização, em um montante estimado de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões.
De acordo com fontes, a última carta foi enviada no domingo (22/02), e até agora não houve uma resposta formal do grupo ao documento. A Raízen vem marcando algumas reuniões bilaterais com os bancos credores, mas não ainda como um grupo. "Essa não é a situação ideal." "Os bancos querem uma solução negociada", disse uma fonte. Esta fonte ressalta que a ideia de dividir a Raízen em duas pode até ser aceita pelos credores, mas desde que seja negociada. O BTG Pactual, que se tornou sócio da Cosan no ano passado, tem conduzido as iniciativas em torno de uma solução para o grupo e Raízen. Pelo plano que foi inicialmente ventilado na mídia, a cisão da Raízen levaria o banco de André Esteves a ficar com os negócios de distribuição. Entre os bancos e os detentores de títulos de dívida, essa proposta causou desconforto. Até o fechamento do segundo trimestre do ano-safra 2025/2026, a dívida líquida da Raízen somava R$ 53,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 27 bilhões em bonds com vencimentos entre 2027 e 2054. Fontes: Broadcast Agro e Bloomberg.