27/Feb/2026
A aversão dos investidores estrangeiros a novas emissões de empresas brasileiras se aprofundou com a materialização da crise na Raízen, companhia do Grupo Cosan que tem cerca de R$ 27 bilhões em dívidas vindas de captações nesse mercado. Fontes comentam que os estrangeiros estão reticentes em adquirir papéis de companhias brasileiras e que algumas empresas postergaram planos de acessar o mercado externo, especialmente aquelas com certo grau de alavancagem em seus balanços. O problema é a soma recente de eventos envolvendo as companhias brasileiras, seja por supostas fraudes, como Americanas e Ambipar, ou má gestão, e faz o estrangeiro pensar que há algo errado no Brasil ou quais seriam as próximas empresas a trazer surpresas. Somente entre Raízen, Ambipar e Braskem, que deve proceder com uma reestruturação de seu passivo após a transferência do controle para a IG4, a exposição em bonds, títulos de dívida emitidos no exterior, alcança R$ 68 bilhões.
Incluindo a Braskem Idesa, subsidiária da Braskem no México que está em reestruturação, o montante chega a R$ 78 bilhões. "Uma coisa é um investimento em ações, onde o risco é dobrar ou cair à metade a alocação, outra coisa é a renda fixa, onde a alocação em empresas com grau de investimento, em Braskem e Raízen, é para não errar", disse uma fonte à frente de um grande banco brasileiro. Ele diz que a percepção de um de seus grandes clientes estrangeiros que compram títulos de dívida do Brasil é de que está pagando um preço errado por empresas no Brasil. "Não consigo colocar mais dinheiro no Brasil, ao contrário, estou sendo pressionado para sair", afirmou o investidor ao executivo do banco. A tensão entre os estrangeiros chegou a chamar a atenção inclusive do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou o comando de Cosan e Raízen para conversar.
Isso já é um sinal claro da preocupação do governo brasileiro com os impactos no mercado de um eventual problema com a companhia, que afeta também a percepção do Brasil lá fora, na visão de um banqueiro. Bancos estrangeiros e locais têm clientes pessoas físicas que compraram títulos de dívida dessas companhias, sejam bonds no exterior ou debêntures no Brasil. "Essa indefinição sobre uma solução para a Raízen acaba congelando, ou afetando de alguma forma outras operações que iriam a mercado agora, no doméstico e no exterior", comenta um diretor de um banco estrangeiro. No ano passado, as companhias brasileiras e o Tesouro levantaram US$ 35 bilhões, um volume não captado desde antes da pandemia, em 2020, e acima da média de vários anos anteriores, de US$ 20 bilhões a US$ 25 bilhões. A impressão para este ano é a de que o volume deverá cair.
"Acho que há um grupo de empresas um pouco mais alavancadas, um pouco mais arriscadas, que vão ter dificuldade de captar no mercado externo agora", afirmou a fonte do grande banco brasileiro. Ele acrescenta que empresas de primeiríssima linha, como Suzano, não terão qualquer dificuldade para levantar recursos, mas que são justamente as mais alavancadas que precisam captar. "Elas terão de buscar alternativas", disse. Uma terceira fonte avalia que o mercado pode seguir neste clima de três a seis meses. Ele entende que com a resolução do caso da Raízen sem uma recuperação judicial, somada a emissões de empresas muito confiáveis, o caminho para outras empresas pode ser reaberto. No entanto, essa demora dificulta a situação de empresas como a CSN, que buscava rolar seus vencimentos de 2028, sem sucesso. Nesta quinta-feira (26/02), os bonds da Raízen tiveram outro dia de forte queda no mercado secundário. Fonte: Broadcast Agro.