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25/Feb/2026

Cana: produtores preocupados com crise na Raízen

A poucas semanas do início da safra 2026/2027, os produtores independentes de cana-de-açúcar convivem com a incerteza sobre o futuro da Raízen, maior processadora de cana-de-açúcar do mundo, um desafio que se soma a outras pressões: preços de açúcar em queda nos mercados futuros e juros elevados. Para o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, o momento exige cautela, ainda que sem ruptura, colocando o produtor em estado de atenção. "Não tem um pânico generalizado. O produtor está num momento de atenção", disse Nogueira. "A palavra hoje do produtor com a Raízen é 'atenção'. O produtor quer ver o plano da Raízen, um plano verdadeiro de que ela vai resolver o problema dela", acrescentou. Os números da Raízen falam por si. Ao fim do terceiro trimestre da safra 2025/2026, em 31 de dezembro, a companhia controlada pela Cosan e pela Shell acumulava dívida líquida de R$ 55,3 bilhões, com alavancagem de 5,3 vezes o Ebitda, e prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões no período.

Diante disso, para os fornecedores independentes, representados pela Orplana por meio de suas 35 associações, a palavra de ordem é cautela nos investimentos. Nogueira observa que produtores com exposição a linhas de crédito e juros elevados, estão priorizando a redução de endividamento e adiando expansões. "O produtor está num momento de pisar no freio em termos de investimentos. Em vez de adubar com 100 quilos, ele vai adubar com 70 quilos", exemplificou. As consequências, porém, não devem aparecer imediatamente. "Para 2026, não. Mas para 2027/2028, sim. Porque você reduz a adubação neste ano, e ela vai refletir para 2027/2028." A moagem da Raízen no acumulado de abril a dezembro caiu para 70,3 milhões de toneladas, recuo de 9,3%, enquanto o TCH (Toneladas de Cana por Hectare) próprio caiu 6,3% na comparação anual, segundo o resultado financeiro da companhia no terceiro trimestre.

O mix de produção também revela um movimento estratégico relevante: a fatia direcionada ao açúcar passou de 50% para 53% nos nove meses, reflexo da qualidade da cana disponível e da busca por maximizar a cristalização. Ainda assim, os volumes vendidos de açúcar recuaram 5,2% e os de etanol, 17,7%. A empresa atribui o desempenho a queimadas, padrão errático de chuvas e geadas que reduziram a disponibilidade de cana em cerca de 900 mil toneladas. O cenário de preços agrava tudo. Os contratos futuros de açúcar demerara fecharam a última sexta-feira (20/02) cotados a 13,87 centavos de dólar por libra-peso na Bolsa de Nova York, nível que Nogueira classifica como insustentável para o setor. "Os preços recuaram para menos de R$ 1.400,00 por tonelada, que é abaixo do custo de produção. Então é muito preocupante para nós, produtores", afirmou. Os dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) confirmam o ambiente de safra difícil, mas com números proporcionalmente melhores do que os da Raízen.

Até 1º de fevereiro de 2026, a moagem acumulada do Centro-Sul recuava 2,16% na comparação com a safra anterior, para 601,6 milhões de toneladas. A produção de açúcar, por sua vez, tinha alta de 0,86%, reflexo de um mix mais favorável à cristalização. A inadimplência da Raízen com fornecedores de cana-de-açúcar, até o momento, não é uma realidade. "Até o momento que a gente sabe, não houve nenhum atraso de pagamento de fornecedor de cana-de-açúcar", garantiu Nogueira. Mas ele ressalvou que o cenário poderia mudar caso a companhia eventualmente buscasse uma recuperação judicial no meio da safra, quando os contratos de fornecimento estariam ativos. Com a nova temporada se aproximando, o tempo para a Raízen apresentar respostas concretas aos produtores diminui. Contratos vencem, e renovações podem não ser automáticas. "Todo ano os contratos vencem. O produtor pensa duas, três vezes em fazer a renovação do contrato", disse Nogueira.

"Ou ele fala: não vou renovar o contrato, vamos fazer spot. Eu entrego, você paga." Se o produtor decidir não renovar contratos, operar no spot ou reduzir investimentos nos canaviais, a Raízen enfrenta um risco operacional nas safras seguintes: a usina precisará dele para garantir o volume de cana-de-açúcar que a mantém funcionando. "Já vi isso no passado: usinas que deixaram de pagar ou fizeram atrasos. Depois, o produtor não fornece mais cana. E aí, para o ano seguinte, é um desastre", alertou Nogueira. Por ora, o clima é de observação, não de ruptura. "Ainda não é um momento de pânico generalizado. Mas, se não se resolver até o meio do ano, certamente que o cenário vai mudar", disse. O CEO da Orplana reconhece que a companhia tem ativos e escala para enfrentar o momento, mas cobra celeridade. "Os juros não vão cair de 15% para 10% num piscar de olhos. Eles vão demorar um pouco, e isso pode drenar a Raízen." Um ponto adicional de atenção para os produtores é a mudança no uso do risco sacado.

Nas safras anteriores, os pagamentos aos fornecedores de cana-de-açúcar eram intermediados por bancos; nesta safra, a Raízen assumiu diretamente essa obrigação, abrindo mão da modalidade, segundo explicou em seu balanço. A mudança, por si só, não representa risco enquanto os pagamentos estiverem em dia, mas eleva a exposição do produtor em um eventual cenário de recuperação judicial durante a moagem. Na visão da Orplana, uma das saídas para a Raízen reduzir seu endividamento e aliviar a estrutura de custos seria acelerar a transferência de áreas de cana-de-açúcar própria para produtores independentes. Hoje, a companhia divide sua matéria-prima em proporção aproximada de 50% de cana própria e 50% de fornecedores externos. "A cana-de-açúcar da usina, na nossa visão aqui, é mais cara que a cana-de-açúcar de produtor", afirmou Nogueira, citando o exemplo da Usina Santa Elisa, hibernada pela Raízen em julho de 2025, que operava com produtividade de 53 toneladas por hectare, enquanto produtores independentes registravam 77 a 78 toneladas por hectare na mesma região.

O argumento encontra respaldo nos próprios dados operacionais da Raízen: a companhia registrou ganhos de eficiência de R$ 269 milhões no período com a simplificação da estrutura operacional, em parte justamente pela hibernação de usinas com baixa produtividade agrícola. O movimento de repasse de áreas já existe, mas o CEO da Orplana considera o ritmo insuficiente, com termos pouco atrativos. "A Raízen coloca preços que são considerados altos na soqueira e preços baixos no valor de cana-de-açúcar que ela vai comprar depois", criticou. A entidade defende uma migração para uma estrutura de 70% de cana de produtores e 30% de cana-de-açúcar própria. "Isso tiraria da Raízen a obrigação e dá a ela condições de tocar as outras atividades." Para que a transição ocorra, Nogueira cobra uma mudança de postura. "A Raízen precisa dar um aceno a esses produtores de que ele não é um simples fornecedor de cana-de-açúcar, mas sim um parceiro estratégico para ela." Fonte: Broadcast Agro.