19/Feb/2026
A Índia praticamente antecipou sua meta de 20% de mistura de etanol na gasolina (E20) e, com isso, redesenhou não apenas sua matriz de combustíveis, mas a própria lógica de funcionamento do setor sucroenergético e do mercado de grãos. O que começou como uma política de diversificação energética evoluiu para uma estratégia macroeconômica de substituição de importações, redução da vulnerabilidade externa e estabilização de renda no campo, com efeitos que extrapolam as fronteiras indianas e abrem espaço para cooperação internacional, inclusive com o Brasil. O programa EBP (Ethanol Blended Petrol), acelerado a partir de 2020, elevou a taxa média de mistura de níveis inferiores a 5% há poucos anos para o patamar atual próximo de 20%. Em um país que importa mais de 80% do petróleo que consome, a conta é direta: cada ponto percentual adicional de mistura reduz a exposição cambial, alivia o déficit energético e cria demanda doméstica previsível para produtores agrícolas. A espinha dorsal da produção continua sendo a cana-de-açúcar.
No entanto, diante de episódios recentes de restrição hídrica e preocupação com a oferta de açúcar, o governo ampliou incentivos para o etanol de grãos, sobretudo o milho. O movimento não é marginal: ele funciona como mecanismo de estabilização do sistema, reduzindo a dependência exclusiva da cana e permitindo maior flexibilidade em anos de safra mais curta ou preços internacionais elevados do açúcar. A capacidade instalada de produção se aproxima de 20 bilhões de litros anuais, resultado de um ciclo acelerado de investimentos em destilarias anexas a usinas de açúcar e em plantas dedicadas ao processamento de grãos. O modelo indiano, porém, não é de livre mercado pleno. O governo estabelece preços diferenciados de aquisição conforme a matéria-prima (melaço, caldo de cana ou milho), garantindo margem mínima aos produtores e assegurando previsibilidade de oferta às distribuidoras. Trata-se de uma política industrial explícita, com forte coordenação estatal. Os efeitos macroeconômicos são evidentes. A redução potencial da conta de importação de combustíveis fósseis melhora o balanço externo e reduz a exposição a choques geopolíticos.
Ao mesmo tempo, o programa transfere renda para regiões agrícolas e suaviza ciclos de inadimplência no setor sucroenergético, historicamente pressionado por volatilidade de preços. É nesse ponto que o Brasil entra na equação estratégica. A Índia não pretende se tornar dependente de importações estruturais de etanol, mas pode se beneficiar da experiência brasileira acumulada ao longo de décadas de mistura elevada e motores flex. O Brasil domina tecnologias de produção integrada de etanol de cana-de-açúcar, cogeração de bioeletricidade e, mais recentemente, etanol de segunda geração. Essa expertise pode ser exportada na forma de engenharia industrial, equipamentos, certificação de sustentabilidade e desenho regulatório. Há, contudo, tensões estruturais no mercado indiano. Monções irregulares e ondas de calor têm afetado a produtividade da cana-de-açúcar, pressionando custos. Em anos de preços internacionais elevados do açúcar, cresce o incentivo para exportação, o que pode competir com a produção de etanol.
E, embora montadoras tenham adaptado motores ao E20, persistem questionamentos de parte dos consumidores sobre eficiência e autonomia. Soma-se a isso o dilema clássico dos biocombustíveis: o equilíbrio entre segurança energética e segurança alimentar. O cenário prospectivo aponta para consolidação, não para expansão explosiva. O E20 tende a se firmar como novo padrão estrutural do mercado indiano, com ajustes graduais na participação do milho e aperfeiçoamentos no sistema de preços administrados. A Índia não replica o modelo brasileiro nem o norte-americano; constrói uma arquitetura própria, fortemente coordenada pelo Estado e orientada à redução de vulnerabilidades externas. Justamente por isso, o espaço para o Brasil não está em substituir a produção local, mas em agregar eficiência ao sistema. No fim, o etanol indiano deixou de ser apenas política ambiental. Tornou-se instrumento de gestão macroeconômica e, ao mesmo tempo, oportunidade estratégica para um Brasil que detém a tecnologia mais madura do mundo em biocombustíveis. Fonte: CNN. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.