07/Jan/2026
Segundo o ex-presidente da Petrobras e ex-senador, Jean Paul Prates, a Petrobras deve começar a dialogar com calma com a China para suprir uma eventual redução de envio de petróleo pela Venezuela. Na gestão de Prates, a Petrobras chegou a enviar uma missão técnica ao país vizinho, dentro de um plano de internacionalização da estatal, que englobou outros países da América do Sul e África, com uma visão para os próximos 50 anos. Mais de 80% do petróleo da Venezuela vai para China, e uma das razões dessa ação dos Estados Unidos é justamente ter o controle da torneira de petróleo. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode até não quebrar os contratos atuais, mas pode, pelo menos, impedir novos contratos e novos investimentos. De forma discreta e sem divulgação, cerca de 20 técnicos da estatal brasileira estiveram em março de 2024 na Venezuela, Uruguai, Argentina, Colômbia, Guiana, Suriname, Mauritânia, Namíbia, Angola, São Tomé & Príncipe e África do Sul. O objetivo foi conhecer as possibilidades de negócios nesses locais.
A missão previa levantamentos preliminares ("retratos" descritivos, não analíticos) sobre reservas, infraestrutura de exploração, refino e logística em províncias petrolíferas consideradas estratégicas para a substituição futura do pré-sal brasileiro. Não foi uma missão institucional, mas para coletar informações. Era um plano de longo prazo, de recuperação da Petrobras como conhecedora de regiões onde ela sabe operar e possibilidades de reposição de reservas em áreas que operacionalmente conhece, tem familiaridade técnica, tecnológica, operacional, e até política. A viagem não tinha objetivo de anunciar investimentos imediatos, nem de firmar acordos com o governo Nicolás Maduro, atitude que poderia alimentar especulações políticas no Brasil. A ideia era reunir dados técnicos sobre reservas, estado de equipamentos, gargalos logísticos e passivos socioambientais, etapa inicial de um método que previa, somente num segundo momento, análises de viabilidade econômica. Sem poder dar detalhes do relatório final sobre a Venezuela, Prates conta o que é de conhecimento público, como a situação de uma infraestrutura deteriorada e com a produção dividida entre o oeste e leste do país.
No oeste é um petróleo mais leve, de terra, mais ou menos a situação como no Rio Grande do Norte e na Bahia. São campos que estão no final do seu perfil de produção. No entanto, tem o Lago Maracaibo, que realmente está cheio de problemas operacionais e muitos passivos ambientais. Isso também é público e notório. E o leste, que é onde tem as grandes reservas, as decantadas grandes, enormes reservas da Venezuela, onde tem um problema de fluidez do óleo extra pesado. As pequenas refinarias venezuelanas estão completamente defasadas, mas o país possui uma das maiores refinarias do mundo, o Complexo de Paraguaná, na costa noroeste da capital Caracas, com capacidade para processar 1 milhão de barris de petróleo, hoje subutilizada, refinando cerca de 300 mil barris diários. A produção global de petróleo da Venezuela, que já poderia chegar a 3 milhões de barris/dia, gira em torno de 700 mil a 900 mil barris. Para produzir o óleo pesado é necessário utilizar diluentes (óleo condensado, nafta), trabalho que é feito pela Chevron, que traz diluentes do Texas, nos Estados Unidos, para depois exportar o petróleo para os Estados Unidos.
A Chevron leva óleo dos Estados Unidos para a Venezuela, dilui o óleo da Venezuela e traz de volta óleo, muito mais volumes evidentemente, mas óleo diluído com óleo norte-americano. Então, a Chevron não por acaso ficou admitida na Venezuela porque ela é uma das empresas que tinha essa habilidade em grandes escalas, ela podia fazer essa troca. Uma possível reabertura da Venezuela no setor de petróleo pode atrair outras empresas, inclusive Petrobras, mas de maneira nenhuma colocaria em risco o apetite pela Margem Equatorial. Na Venezuela, está se configurando uma província offshore, onde vai ter interesse norte-americano, chinês e brasileiro. Ou seja, a possível reabertura da Venezuela não interfere em nada na exploração da Margem Equatorial e nem tira interesse de outras empresas. A exploração da Margem Equatorial brasileira tem mais chances de entrar com maior velocidade, mesmo sendo daqui a 5, 7 anos, além de ser uma produção mais consistente, com óleo de melhor qualidade em um país não embargado e sem problemas políticos como a Venezuela, que além do mais tem um problema tecnológico.
O presidente norte-americano vai dar uma chance para a atual presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, organizar o país sem maiores traumas, já que a mandante não vai querer ter o mesmo fim de Nicolás Maduro. Trump quer que as empresas norte-americanas entrem no país. Para o Brasil, a oportunidade no curto e médio prazo é o aumento de fornecimento de petróleo para a China, que deve estar apreensiva com os acontecimentos na Venezuela. É preciso começar um diálogo com calma, com tranquilidade, e descrição principalmente, com os parceiros, principalmente chineses. Eles podem estar com medo de perder esse suprimento de petróleo. Portanto, eles podem se voltar para o Brasil com um pouco mais de entusiasmo em relação a nos ter como parceiro importante para fornecimento de petróleo. Essa relação não deve irritar os Estados Unidos. Atualmente, a China já é o principal destino da exportação de petróleo pela Petrobras, tendo atingido 53% do total exportado pela estatal no terceiro trimestre do ano passado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.