08/Aug/2025
As mudanças climáticas impõem desafios ao agronegócio, como a crescente escassez hídrica e a maior volatilidade das chuvas ao longo dos últimos 25 anos em regiões como o Centro-Oeste, Sul e Sudeste, diz o diretor de sustentabilidade da Tereos, Felipe Mendes. O executivo do grupo francês destaca que a produtividade da empresa, que cultiva 300 mil hectares, depende muito das curvas regulares. Nesse cenário, a gigante do setor sucroenergético tem trabalhado para mitigar emissões e fornecer soluções de baixo carbono: etanol, biometano, energia elétrica, SAF (combustível sustentável de aviação). Também tem estudado agricultura regenerativa e variedades de cana-de-açúcar mais resilientes. No Brasil, a Tereos opera sete usinas de cana e uma de cereais, todas em São Paulo, produzindo principalmente açúcar, etanol e energia de biomassa. Mendes vê na COP-30, que ocorrerá no Brasil, uma chance de o País mostrar seu papel de liderança climática. Segue a entrevista:
Como as mudanças climáticas têm afetado o setor?
Felipe Mendes: No nosso caso, a gente vem observando nesses últimos 25 anos no Brasil que a volatilidade das chuvas aumentou drasticamente. Vemos uma escassez hídrica crescente. E isso não é uma realidade só do Estado de São Paulo, observamos isso em diferentes regiões produtoras, como o Centro-Oeste, o próprio Sul. Operamos 300 mil hectares, com pouquíssima irrigação. As chuvas regulares entre outubro e fevereiro são produtividade na veia para a gente.
E o que pode ser feito?
Felipe Mendes: Mitigar emissões e fornecer soluções de baixo carbono: etanol, biometano, energia elétrica, SAF. Também temos estudado agricultura regenerativa e variedades de cana mais resilientes. Estamos também investindo em agricultura regenerativa para cuidar melhor do solo.
Qual é a importância de o Brasil sediar a COP-30?
Felipe Mendes: É uma oportunidade única de mostrar o que o Brasil tem de bom, práticas agrícolas de baixo carbono, energia renovável, produtividade. É também uma chance de o Brasil liderar coalizões, fomentar diálogo e mostrar que é parte da solução climática, que somos um país aberto, diplomático, em um momento turbulento como esse em que os Estados Unidos estão saindo da mesa, mas que, por outro lado, a Europa continua muito sólida nos seus compromissos. E a China vem investindo como nunca nas fazendas solares. Vai haver diálogo, é uma oportunidade para a gente efetivamente comunicar e dar espaço também para a sociedade falar.
Quais os compromissos com metas de carbono já assumidos por vocês?
Felipe Mendes: Até 2032/33, vamos reduzir 50% das emissões de escopos 1 e 2; 36% das de escopo 3 na agricultura; e ser net zero até 2050. Temos uma série de iniciativas: uso de biometano, biofertilizantes, etanol nos tratores, corredores verdes, entre outras.
O agronegócio está preparado para a COP-30?
Felipe Mendes: Vejo o agro mobilizado. O setor quer mostrar suas boas práticas e enfrentar os desafios com transparência. É preciso reconhecer que há arestas. Mas temos muita coisa positiva. A restauração de áreas degradadas, o ganho de produtividade, o uso intensivo do solo com rotação de culturas - tudo isso é exemplo do que só o Brasil faz com essa escala.
Onde a sustentabilidade está inserida na Tereos?
Felipe Mendes: A sustentabilidade está no core do nosso negócio. É parte da estratégia.
Como isso se manifesta na operação?
Felipe Mendes: Nosso modelo é baseado em economia circular. Aproveitamos 99% da cana-de-açúcar. O caldo vira açúcar ou etanol. O bagaço vira energia elétrica. Os subprodutos, como vinhaça e torta, são usados como fertilizantes orgânicos. E agora estamos indo para a produção de biogás e biometano.
Hoje, o etanol e o açúcar da Tereos são mais para exportação ou mercado interno?
Felipe Mendes: Historicamente, atuávamos mais no mercado doméstico, como na Europa. Mas nos últimos anos migramos para a exportação. Hoje, 80% do nosso açúcar é exportado - principalmente para África e Ásia.
As guerras comerciais e tarifas afetam esse fluxo?
Felipe Mendes: No açúcar, não muito. O Brasil tem 50% do mercado global e é competitivo. No etanol, há mais incertezas, principalmente com o IRA (Inflation Reduction Act) nos EUA. Mas, mesmo com mudanças de governo, somos moderadamente otimistas quanto à manutenção dos fluxos e novas oportunidades. Talvez a gente até tire um ângulo positivo disso.
Fonte: Broadcast Agro.