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06/Jun/2025

Carro Elétrico: entrevista com Wei Haigang - GAC

A GAC Motor, primeira montadora estatal chinesa a desembarcar no Brasil, quer fazer do País um hub para sua operação na América Latina. É o que diz o CEO da GAC International, Wei Haigang, em entrevista. Controlada pelo governo da província de Guangdong, também vinculado ao Partido Comunista Chinês, a GAC está sediada na cidade de Guangzhou, sul da China, onde concentra a produção e o centro de pesquisa e desenvolvimento. Na primeira quinzena de maio, Dr. Wei, como é conhecido, foi o primeiro executivo chinês a ser recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante sua visita de Estado à China. Na ocasião, ele atualizou Lula sobre investimentos que a empresa pretende fazer no País, da ordem de US$ 1,3 bilhão.

Nesta entrevista, o CEO da GAC Internacional detalha os planos da operação, lançada oficialmente com cinco carros, inicialmente importados, no mês passado, em São Paulo. A empresa quer se posicionar no País como uma marca premium e pretende começar ainda neste ano a montar três modelos no Brasil. Wei Haigang fala sobre a meta inicial de vender 7 mil carros trazidos da China. A estimativa da empresa é gerar cerca de 7 mil empregos diretos e indiretos. A empresa planeja produzir ainda neste ano carros em solo brasileiro, e tenta parceria com a HPE (que produz veículos da Mitsubishi), em Catalão (GO). Também estuda estabelecer um centro de pesquisa e desenvolvimento na Região Nordeste. O executivo diz que a guerra tarifária entre Estados Unidos e China os aproximou do Brasil e que vai lidar com o lobby da indústria instalada no País pela taxação antecipada dos carros importados em 35%. Segue a entrevista:

Por que vocês decidiram fazer uma parceria, provavelmente com a HPE em Goiás, em vez de construir fábrica no Brasil? A decisão teve algo a ver com os problemas da BYD, a investigação sobre violação de direitos de trabalhadores nas obras da fábrica na Bahia?

Wei Haigang: Excelente questão. O presidente Lula também fez essa mesma pergunta e se preocupa muito com nosso plano de produção local. Estamos cientes sobre a produção local de automóveis brasileiros. Sabemos que, se queremos ter um bom desenvolvimento e de longo prazo no Brasil, temos de investir na produção local. Para alcançar esses aspectos, conduzimos muitas pesquisas a respeito dos recursos no País. Quando fizemos os planos para nossa produção local, tivemos de considerar esses recursos e queremos fazer o CKD (montagem com peças importadas) dos carros. Atualmente, Goiás é uma de nossas escolhas, mas ainda estamos em discussões.

Estamos assistindo no Brasil ao que muitos chamam de invasão dos carros chineses, com a entrada recente da BYD e da GWM. Por que demorou tanto para a GAC chegar? Haverá competição direta no País entre montadoras da China?

Wei Haigang: Vamos recuperar nossa história: a GAC iniciou uma cooperação com a Honda, em 1997, e com a Toyota, em 2004. Construímos um inventário conjunto com essas duas empresas há mais de 20 anos. E, desde 2006, passamos a planejar nossa própria marca. Em 2010, tivemos o primeiro lançamento da marca GAC. Por isso, ao longo dos últimos anos, dedicamos atenção ao mercado chinês. Iniciamos nossa jornada no mercado internacional em 2022, e naquela época já pensávamos no mercado brasileiro. Descobrimos que o mercado brasileiro tinha algumas exigências. E queremos fazer as coisas corretas e estrear com sucesso e suavemente. Em maio de 2024, estabelecemos nossa subsidiária no Brasil para as preparações para o lançamento e já temos mais de 30 empregados e homologação de cinco carros, sendo quatro elétricos e um híbrido. Para o mercado brasileiro, não nos limitamos a focar apenas nas marcas chinesas. Queremos nos comparar com as principais marcas e empresas do mundo, incluindo japonesas e coreanas. Queremos oferecer melhores produtos, melhores serviços e experiências aos clientes brasileiros. Em fevereiro, inauguramos nosso depósito de peças de reposição em São Paulo, o que significa que nossas autopeças chegaram ao Brasil antes dos nossos veículos. Essa é a nossa prática, mantendo o compromisso de serviço em primeiro lugar e o cliente em primeiro lugar, e também estamos fazendo benchmarking nesse aspecto com as principais marcas do mundo.

Que participação vocês almejam no mercado brasileiro e quando pretendem atingi-la?

Wei Haigang: As vendas não são nossa prioridade no Brasil, não estamos buscando volume de vendas. Estamos com uma visão de longo prazo para o mercado brasileiro; por isso, nos preparamos e temos parcerias com concessionárias muito fortes e capazes. Já assinamos com mais de 60 concessionárias, e até o fim do mês teremos construído 30 showrooms. Neste ano, não temos uma meta muito alta, ela é de cerca de 7 mil unidades.

Como a guerra comercial e tarifária com os EUA afeta a indústria automotiva? Seria essa uma das razões que explicam por que tantas marcas chinesas estão desembarcando no Brasil?

Wei Haigang: A guerra comercial não é positiva para o desenvolvimento global. Mas ela levou o Brasil e a China, e também países da cooperação Sul-Sul, a se aproximarem e trabalharem juntos.

As montadoras chinesas enfrentam resistência da indústria já estabelecida no Brasil. A Anfavea pressiona o governo a antecipar a taxação de 35% sobre automóveis importados em um ano - para que comece em julho de 2025, em vez de julho de 2026. Como isso afetará seus negócios?

Wei Haigang: Sabemos que as fabricantes de automóveis tradicionais estão fazendo lobby para que o governo aumente o imposto. Como novatos no mercado brasileiro, vamos primeiro cuidar do nosso próprio negócio. Separamos nosso plano em algumas fases. O primeiro passo é começar com importados, para abrir o mercado e fazer com que os consumidores nos conheçam. E, ao mesmo tempo, vamos estabelecer nossa produção local para lidar com o impacto do imposto. Na conversa com Lula, dissemos a ele que, a longo prazo, queremos que o Brasil seja a nossa base para a América Latina. Quando tivermos com nossa produção local, os carros não serão montados apenas para o mercado brasileiro, mas também serão exportados. Estamos cientes de que, a curto prazo, o imposto impactará nosso custo. Mas, a longo prazo, faremos o que for preciso e tomaremos medidas ativas para lidar com o impacto e também com a concorrência.

A ausência de infraestrutura de recarga ainda é um obstáculo no Brasil. A GAC tem alguma iniciativa para mudar essa realidade e tornar os veículos elétricos uma opção competitiva no mercado brasileiro?

Wei Haigang: Já temos algumas iniciativas de sucesso no exterior com a infraestrutura de recarga. Na Tailândia, a GAC Energia construiu estações de recarga. Vamos considerar as condições reais e a situação no Brasil e pretendemos trabalhar nos dois lados. Primeiro, vamos construir pontos de recarga rápida em frente às concessionárias. Depois, trabalharemos com as empresas locais de energia ou de carregamento. Sabemos que o mercado brasileiro valoriza a industrialização verde e também seguiremos a iniciativa do Mover (programa do governo de incentivo à descarbonização de veículos) e forneceremos soluções mais verdes e inteligentes nesse sentido.

Fonte: Broadcast Agro.