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23/Oct/2026

Potencial de crescimento do café no mercado chinês

O mercado de café na China apresenta potencial significativo de crescimento no longo prazo, sustentado pelo baixo consumo per capita em comparação com a média global e com mercados asiáticos mais maduros, como o Japão. O Rabobank avalia que essa diferença indica espaço para expansão à medida que o café se torne mais acessível, barato e integrado à rotina dos consumidores. Com a formação gradual de hábitos de consumo e o aumento da frequência, o mercado chinês tende a crescer ao longo da próxima década. Paralelamente, as redes chinesas de cafeterias e bebidas ampliam o interesse pelo Sudeste Asiático como próxima fronteira de expansão, apoiadas por preços competitivos e modelos operacionais eficientes. A indústria chinesa de café passou por três etapas de desenvolvimento. Inicialmente, predominou o café solúvel, associado a necessidades funcionais, como reposição de energia e manutenção do estado de alerta.

Na segunda fase, o café fresco se disseminou rapidamente, impulsionado pela maior disponibilidade, pela melhoria da qualidade e pela expansão das redes de varejo, que ampliaram o acesso ao produto. Atualmente, o setor avança para uma terceira etapa, caracterizada pela diversificação das ocasiões de consumo. O café deixa de estar concentrado no ambiente de trabalho e passa a integrar atividades sociais e de lazer, refeições fora de casa, compras de conveniência e pedidos por delivery. Nesse contexto, denominado coffee+, a tendência é de consumo mais frequente e diversificado, menos dependente de uma única finalidade. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima o consumo interno de café na China em 6,75 milhões de sacas de 60 Kg no ano cafeeiro 2026/27, alta de 5,14% em relação a 2025/26. A produção doméstica concentra-se na província de Yunnan, tradicional região produtora de arábica, com volume anual entre 1,5 milhão e 2,0 milhões de sacas de 60 Kg.

Como a oferta local é limitada, a China depende das importações para atender à demanda. Cerca de 60% do consumo total é suprido por café verde importado e produtos de maior valor agregado, principalmente provenientes do Brasil, da Etiópia e do Vietnã. A expansão do consumo interno tende a ampliar a relevância chinesa no mercado internacional, mantendo a demanda por importações como indicador central para acompanhar a evolução do setor. Nesse cenário, o Rabobank identifica as cafeterias com consumo no local como potenciais beneficiárias do crescimento gradual, à medida que o café passa de uma compra ocasional para um hábito recorrente. A expansão das lojas, a infraestrutura de delivery já desenvolvida, as plataformas digitais de pedidos e a inovação contínua de produtos ampliam a acessibilidade e favorecem a frequência de consumo. Ao mesmo tempo, o avanço do mercado atrai novos concorrentes e modelos de negócio, intensificando a disputa tanto nos segmentos de valor quanto no premium.

A convergência entre categorias de bebidas amplia a concorrência para além das redes tradicionais de cafeterias. A expansão das ocasiões de consumo também incorpora ao ambiente competitivo as redes de chá e bebidas frescas, os operadores de restaurantes de serviço rápido, os varejistas de conveniência e empresas orientadas por tecnologia. O relatório destaca a aproximação entre os mercados de chá e café como uma tendência estrutural. Para as redes chinesas de bebidas frescas, a oferta das duas categorias representa uma evolução natural, considerando a sobreposição de públicos, localizações comerciais e modelos operacionais. O setor de chá, por sua vez, entra em uma fase mais madura, marcada pela desaceleração do crescimento baseado na abertura de novas unidades e pela maior pressão sobre a produtividade.

Como evidência, o Rabobank registra que seis redes listadas (Mixue, por meio da Lucky Cup, Guming Holdings, responsável pela Goodme, Chagee, ChaPanda, Auntea Jenny e Nayuki) apresentaram crescimento combinado de receita de aproximadamente 9% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado ficou abaixo das taxas superiores a 30% de crescimento anual composto registradas entre 2022 e 2025. A Luckin Coffee, por sua vez, registrou crescimento de 28,50% na receita líquida no segundo trimestre de 2026, na comparação anual, para US$ 2,33 bilhões. No período, a rede abriu 2.668 novas lojas na China, elevando o total para 36.310 unidades. A expansão evidencia a escala alcançada pelas principais empresas do setor e a intensidade da concorrência no mercado chinês. Para buscar novas fontes de crescimento, operadores de chá ampliam a atuação no segmento de café. A Mixue vem expandindo a oferta de café moído na hora, com cerca de 6 mil lojas equipadas até agosto de 2026 e meta de alcançar 14 mil unidades até o fim do ano.

A Guming, por sua vez, chegou a aproximadamente 13,5 mil lojas com presença relevante de café até junho de 2026, com desempenho de produtividade superior ao de concorrentes. A entrada no segmento de café oferece vantagens estratégicas às redes de bebidas, ao ampliar as ocasiões de consumo, elevar a frequência de compra e melhorar a utilização dos ativos existentes. A introdução de produtos também pode exigir investimentos limitados quando apoiada na estrutura de lojas, no fluxo de clientes e nas cadeias de suprimentos já estabelecidas. Nesse processo, o relatório identifica dois modelos operacionais em consolidação. O primeiro prioriza a premiumização, a padronização, a herança de marca e a experiência do consumidor. A Starbucks exemplifica essa estratégia, com competição baseada na qualidade dos produtos, na força da marca, na consistência do serviço e nos atributos sociais e experienciais associados ao consumo.

O segundo modelo privilegia conveniência, preço, digitalização e eficiência operacional, tendo como exemplos Luckin Coffee e Lucky Cup. A Luckin adota uma estratégia orientada pelo digital e pelo valor, com foco em café fresco de qualidade e lojas direcionadas à retirada de pedidos. A Lucky Cup combina a cadeia de suprimentos, a marca e a estrutura operacional da Mixue com uma estratégia digital e orientada a preços competitivos, oferecendo café e bebidas inovadoras. Embora os dois modelos coexistam, a competição tende a migrar das características dos produtos para as capacidades operacionais das empresas. A tecnologia e a Inteligência Artificial (IA) assumem importância crescente nessa disputa. Pedidos on-line, retirada por celular, automação, decisões apoiadas por IA e ferramentas de engajamento digital contribuem para elevar a produtividade e ampliar a escala. Um dos exemplos é a 7Fresh Coffee, apoiada pela JD.com, que opera uma loja automatizada 24 horas em Beijing.

A unidade integra desenvolvimento de produtos com apoio de IA, produção robótica e entrega, com capacidade de preparar bebidas padronizadas em menos de 30 segundos. Essas soluções indicam potencial para ampliar a inovação, a eficiência, a consistência e a personalização em escala. A vantagem competitiva passa, assim, a depender da capacidade de integrar tecnologia, conhecimento sobre o consumidor e cadeia de suprimentos em um sistema operacional coordenado. Com o aumento da concorrência no mercado doméstico, a expansão internacional surge como um segundo vetor de crescimento para as empresas chinesas que alcançaram escala. As redes podem aproveitar no exterior as capacidades desenvolvidas durante a transformação do mercado interno. A economia digital chinesa estruturou um ecossistema que conecta dados de consumo, desenvolvimento de produtos, comércio móvel, infraestrutura de delivery e execução operacional.

Essa integração permitiu ampliar o acesso, reduzir preços, acelerar lançamentos e incorporar o café a mais momentos da rotina dos consumidores. Essas capacidades podem ser aplicadas a mercados com expansão da classe média, especialmente em economias emergentes nas quais os consumidores utilizam intensamente ferramentas digitais, valorizam conveniência e variedade e mantêm atenção aos preços. Nesse contexto, o Sudeste Asiático aparece como o primeiro destino lógico para a internacionalização das marcas chinesas, por reunir potencial de demanda, necessidade de produtos acessíveis e mercados ainda fragmentados. A região combina crescimento da classe média, urbanização, adoção digital e mudanças nos hábitos de consumo, além de proximidade geográfica e relações comerciais com a China. Esses fatores podem facilitar a coordenação das cadeias de suprimentos, a logística e a transferência de conhecimento operacional.

A fragmentação do mercado cria oportunidades de entrada, mas não significa ausência de concorrência. A internacionalização das redes chinesas de chá e café permanece em estágio inicial, com a maior parte da receita e das lojas ainda concentrada na China. O Sudeste Asiático também tem relevância estratégica na cadeia global do café. O Vietnã é um importante produtor e exportador de robusta, enquanto a Indonésia se destaca nos segmentos de café comercial e especial. A região é uma plataforma para testar modelos de negócio antes de ampliá-los. Singapura pode servir como mercado de experimentação de conceitos e sistemas operacionais, enquanto países de maior dimensão, como Vietnã e Indonésia, oferecem condições para avaliar a localização e o desenvolvimento de redes de lojas em escala. A expansão, contudo, exige adaptação às características de cada mercado. Entre os diferenciais que as marcas chinesas podem levar ao Sudeste Asiático estão a automação, a previsão de demanda com IA, o marketing personalizado, o uso de análises de dados e modelos de negócio que combinam acessibilidade, inovação e eficiência operacional.

Parcerias locais e franquias tendem a desempenhar papel central nesse processo. Empresas como Mixue, Chagee e Luckin buscam parceiros para apoiar a entrada em novos mercados, enquanto a integração com fornecedores locais, incluindo produtores, torrefadores, distribuidores e operadores logísticos, pode melhorar a eficiência, o controle de qualidade e a resiliência das cadeias de suprimentos. Porém, o Sudeste Asiático não constitui um mercado homogêneo. Diferenças nas preferências dos consumidores, nas estruturas competitivas e nos ambientes regulatórios exigem estratégias específicas para cada país. O desafio para as marcas chinesas passa, portanto, menos pela decisão de se internacionalizar e mais pela capacidade de adaptar os modelos operacionais e as competências desenvolvidas na China às condições particulares dos mercados da região. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.