03/Mar/2026
A escalada das tensões no Oriente Médio passa a influenciar o mercado internacional de café, com maior impacto potencial sobre o robusta, diante do aumento do risco logístico e dos custos de frete e seguro, o que pode alterar a competitividade entre origens e favorecer o Brasil. No curto prazo, o principal vetor é logístico. Em conflito anterior envolvendo Israel e o Hamas, houve instabilidade no Mar Vermelho após ataques do grupo Houthi, levando embarcações provenientes do Sudeste Asiático a contornarem o continente africano para alcançar Europa e Estados Unidos, o que elevou de forma relevante os custos de transporte.
A rota pelo Mar Vermelho é estratégica para o escoamento do robusta produzido no Vietnã e na Indonésia, principais fornecedores asiáticos da variedade. O encarecimento do frete naquele contexto foi repassado aos preços internacionais, afetando sobretudo o robusta. No cenário atual, embora as ameaças estejam concentradas no Estreito de Ormuz, a proximidade geográfica com o Mar Vermelho mantém o mercado em estado de atenção. Os principais vetores de pressão são a alta do petróleo, que encarece o combustível das embarcações, e o aumento do custo do seguro de frete. Eventual bloqueio ou nova ameaça no Mar Vermelho, com necessidade de desvio de rotas, tende a ampliar os custos logísticos e gerar repasse ao preço final do produto.
Os reflexos já se manifestam nas bolsas internacionais. O contrato mais negociado de arábica em Nova York avançou cerca de 1,4%, enquanto o robusta em Londres registrou alta próxima de 4%, indicando maior precificação do risco na variedade mais exposta às rotas asiáticas. Embora o arábica também acompanhe o movimento, dado o uso conjunto em blends, o impacto tende a ser mais intenso no robusta. No episódio anterior de elevação dos custos logísticos, o encarecimento do café asiático ampliou a competitividade do Brasil, resultando em forte crescimento das exportações brasileiras de robusta, com redirecionamento da demanda internacional diante da perda de atratividade do Sudeste Asiático. Caso as restrições logísticas persistam, o Brasil pode voltar a ampliar participação no mercado global.
Em horizonte mais longo, o foco se desloca para a macroeconomia. A manutenção de preços elevados do petróleo pode gerar pressão inflacionária global, com impacto sobre renda disponível e consumo. Nesse contexto, a recuperação da demanda mundial de café observada desde o fim de 2025 pode desacelerar. Ainda assim, o café tende a apresentar demanda relativamente mais resiliente em comparação a outras commodities agrícolas, como o cacau, por menor sensibilidade às oscilações de preço. Para o produtor brasileiro, o cenário combina riscos e oportunidades.
O petróleo mais caro pode pressionar custos de insumos, enquanto a valorização do dólar tende a sustentar a formação do preço interno, dado que a referência do café está atrelada às bolsas internacionais e à taxa de câmbio. A alta da moeda norte-americana é incorporada rapidamente às cotações em reais, podendo compensar parte dos efeitos adversos. Persistindo dificuldades logísticas para o café asiático, o Brasil pode ganhar espaço adicional no comércio internacional, oferecendo suporte em um ambiente recente de queda das cotações e perspectivas de oferta elevada no Brasil, Vietnã e Indonésia. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.