ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

16/Oct/2026

Supermercados: escala 5x2 e falta de mão de obra

A adoção da escala de trabalho 5x2, com cinco dias trabalhados e dois de descanso, poderá agravar a escassez de mão de obra nos supermercados nos próximos 12 meses. O setor, intensivo em trabalhadores e já pressionado pela dificuldade de preencher vagas, poderá enfrentar aumento dos custos de contratação e necessidade de reorganização das operações. O Senado aprovou em 14 de outubro a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. O texto seguiu para promulgação. Em São Paulo, principal mercado de trabalho do País, os supermercados tinham 35 mil vagas em aberto em maio. A perspectiva é de que a necessidade de novas contratações aumente com a redução das horas disponíveis de trabalho, elevando as despesas das empresas em um cenário de oferta limitada de profissionais. Para manter o mesmo nível de produtividade com a redução da jornada, seria teoricamente necessário ampliar em 16,7% o número de trabalhadores nos setores que atualmente operam na escala 6x1, segundo a Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).

A estimativa considera a necessidade de compensar a redução das horas trabalhadas, mas não significa que a ampliação das contratações ocorrerá necessariamente. O aumento do custo da mão de obra pode levar as empresas a rever planos de contratação, reduzir a atividade ou recorrer à informalidade para equilibrar as contas. Dessa forma, uma mudança que, em princípio, exigiria mais trabalhadores para manter a produção e o atendimento poderia resultar em menor expansão do emprego formal e da oferta de bens e serviços. O custo da mão de obra que passar da escala 6x1 para a 5x2 deverá aumentar 9% por hora trabalhada, segundo estimativa da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O encarecimento, contudo, não deverá ser integralmente repassado aos preços dos produtos e serviços. A capacidade de absorver os custos dependerá das margens das empresas, da produtividade e das condições de concorrência de cada segmento. A redução da jornada pode produzir um efeito contrário ao esperado sobre o emprego caso o aumento dos custos desestimule novas contratações. Nesse cenário, as empresas poderiam diminuir a produção ou limitar o funcionamento para adequar as operações à disponibilidade de trabalhadores.

O impacto inicial seria um choque sobre custos e decisões empresariais, seguido por um período de adaptação até a estabilização da atividade econômica, dinâmica observada em outros países que reduziram a jornada de trabalho. A intensidade dos efeitos dependerá do número de empregados, do porte das empresas, da organização das escalas, dos ganhos de produtividade e da possibilidade de repassar custos aos preços. Setores com maior capacidade de reorganização e investimento poderão absorver parte da mudança, enquanto empresas com margens reduzidas e operações dependentes de atendimento contínuo tendem a enfrentar maiores dificuldades. Levantamento da consultoria 4intelligence, com base em dados do Ministério do Trabalho, indica que quase 30% dos trabalhadores formais brasileiros cumprem a escala 6x1. As atividades de comércio e serviços concentram parte importante desse contingente, por dependerem de mão de obra e manterem operações em funcionamento contínuo. Por isso, supermercados e outros segmentos do varejo estão entre os mais sensíveis à alteração da jornada.

Uma das alternativas para compensar a redução das horas trabalhadas é elevar a produtividade por meio da automação de tarefas e da reorganização dos processos. Entretanto, a adoção dessas soluções ainda está distante da realidade de grande parte das empresas brasileiras. Na indústria, segmentos como móveis, madeira e calçados também enfrentam limitações por dependerem de atividades manuais e apresentarem baixo nível de automação em determinados processos. A dificuldade de ampliar a produtividade constitui um obstáculo estrutural para o crescimento sustentável do Brasil. Nesse contexto, a redução da jornada exigirá ganhos de eficiência para limitar a necessidade de novas contratações e evitar que o aumento dos custos comprometa a competitividade das empresas. A escassez de trabalhadores também poderá pressionar os salários, ampliando o custo total da mudança. Nos supermercados, a necessidade de contratar mais funcionários e manter o atendimento poderá resultar em repasses parciais das despesas trabalhistas aos preços. No varejo, as empresas poderão reduzir o horário de funcionamento ou reorganizar as escalas para garantir dois dias de descanso semanal.

Assim, o aumento do custo por trabalhador poderá gerar efeitos tanto sobre a oferta de empregos quanto sobre o nível de atividade dos setores. A sazonalidade também representa um desafio adicional. Com a aproximação do fim do ano, o comércio costuma ampliar as contratações para atender ao aumento da demanda. A coincidência entre esse período de maior atividade e a adaptação à nova escala poderá elevar as despesas com pessoal e dificultar o preenchimento das vagas temporárias. Para os trabalhadores, a redução da jornada poderá diminuir o estresse e os casos de adoecimento mental, em um contexto de recorde de afastamentos por problemas de saúde mental no País nos últimos anos. Esses efeitos podem contribuir para elevar a produtividade em torno de 3%. O ganho, entretanto, não seria suficiente para compensar integralmente o aumento dos custos empresariais estimado em decorrência da mudança. Como alternativa para reduzir os efeitos negativos sobre o emprego e a atividade econômica, o ideal seria uma transição gradual. No Chile, a redução da jornada semanal de 45 para 40 horas foi estruturada em um período de cinco anos, previsto em lei aprovada em 2023.

Para o Brasil, uma adaptação semelhante permitiria às empresas reorganizar escalas, rever processos e realizar investimentos ao longo do tempo. Outra possibilidade seria iniciar a mudança pelas empresas de maior porte ou pelos setores com maior capacidade de absorver os custos. A automação poderá ganhar importância como resposta ao encarecimento da mão de obra, mas a substituição de trabalhadores por máquinas varia conforme a atividade. Embora determinados processos industriais possam ser automatizados, os segmentos mais dependentes de trabalho manual continuarão exigindo presença de profissionais. Os efeitos da mudança, portanto, não deverão ser uniformes. Grandes empresas tendem a ter maior capacidade para investir em tecnologia e reorganizar a produção, enquanto negócios com margens financeiras menores poderão reagir reduzindo a atividade, limitando contratações ou ampliando o uso de mão de obra informal. A capacidade de adaptação, os ganhos de produtividade e a disponibilidade de trabalhadores serão determinantes para definir os impactos da escala 5x2 sobre custos, preços, emprego e crescimento econômico. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.