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01/Jun/2026

Entrevista: Pablo Lorenzo - CEO do Grupo Carrefour

Há quase um ano no cargo, o argentino Pablo Lorenzo, CEO do grupo Carrefour Brasil e América Latina, assumiu a companhia com a missão de simplificar e unificar a operação brasileira para cortar custos e ter preços competitivos nos produtos em suas lojas. O Carrefour lidera o varejo de supermercados no Brasil. No ano passado, as vendas no País somaram R$ 123,5 bilhões e a empresa tem cerca de mil lojas, com todas as bandeiras. O Brasil é um dos principais mercados onde a companhia francesa quer crescer nos próximos anos, ao lado da França e da Espanha, segundo o plano traçado pela corporação até 2030. "O desafio é como fazer para acelerar mais nosso modelo de atacarejo", afirmou o CEO. Hoje o grupo é um dos maiores empregadores do País, com cerca de 125 mil funcionários. Quanto à proposta que está no Congresso de mudança da escala de trabalho de 6x1 para 5x2 com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, o grupo avalia que o sistema trabalhista brasileiro é um pouco rígido e antigo. Por isso, defende uma modernização que dê mais flexibilidade nos contratos de trabalho no País. Segue a entrevista:

Quais são os planos para o Brasil?

Pablo Lorenzo: Fizemos uma comunicação para o mercado focada em 2030, e o Brasil é um dos países-chave para o grupo. França, Espanha e Brasil são os três onde o grupo quer desenvolver mais suas atividades. O Brasil é o país onde temos mais funcionários. São cerca de 125 mil colaboradores, e o País tem um peso bem importante em nossas atividades em nível global. Também é onde queremos continuar a expandir os nossos negócios, especialmente o Atacadão. Temos um plano de expansão muito ambicioso para o ano de 2030, com a abertura de 70 lojas do Atacadão.

Hoje a participação do Brasil nas vendas é acima de 20%. Para quanto vocês querem ampliar essa fatia?

Pablo Lorenzo: Na verdade, não é um tema de participação. Todo o grupo quer crescer com distintos modelos. Na Europa, queremos crescer com lojas de proximidade. E no Brasil, com lojas de atacarejo, basicamente com lojas do Atacadão.

O peso do Brasil vai ser maior no futuro?

Pablo Lorenzo: Sim, porque o crescimento que temos no Brasil é mais expressivo do que o que vamos ter na Espanha ou na França.

Quanto será investido no Brasil?

Pablo Lorenzo: Não posso falar quanto ao Brasil, mas sim em nível global. No global, os investimentos que queremos fazer variam entre € 1,8 e € 2 bilhões por ano até 2030. Uma parte importante será no Brasil para abertura de lojas e manutenção das existentes. Temos 500 lojas de grande tamanho. O investimento no Brasil vai ser bem expressivo.

Neste ano serão abertas quantas das 70 lojas do Atacadão?

Pablo Lorenzo: Acho que vamos ficar com entre 8 e 12 lojas, dependendo um pouco da velocidade das obras.

Em alguma região específica do País?

Pablo Lorenzo: Muito no Estado de São Paulo, mas não somente. Também no restante do País temos o objetivo de continuar a abrir lojas, algumas no Nordeste, também no Rio de Janeiro.

No primeiro trimestre deste ano, o desempenho do Brasil, mesmas lojas, caiu 0,8%. Foi um dos piores entre os sete países onde o grupo está. Enquanto isso, o grupo como um todo cresceu. Mesmo o Atacadão, que responde por 70% das vendas no País, caiu 1%. Como o sr. vai virar esse jogo?

Pablo Lorenzo: Estamos comparando o Brasil com a Europa. Mas, quando comparamos Brasil contra Brasil, com menos 1% de vendas no Atacadão, ganhamos participação de mercado comparável. Ou seja, já tivemos mais velocidade que todos os players juntos, no atacarejo. O mercado brasileiro teve um primeiro trimestre negativo no seu conjunto. Foi por isso que fizemos uma progressão de vendas menor do que tivemos na Europa. O desafio é como fazer para acelerar mais nosso modelo de atacarejo com lojas comparáveis.

Estamos no momento em que se discute a mudança de escala de trabalho 6x1 para 5x2 e com redução de jornada de 44 horas para 40 horas semanais. Como o Carrefour avalia essa mudança e como está se preparando, se a PEC passar?

Pablo Lorenzo: Acho que o desafio não é a escala 5x1 ou 6x1. O desafio é como modernizar todo o sistema trabalhista no Brasil. Qual é o método de trabalho, qual é a flexibilidade que o trabalhador quer ter? O sistema do Brasil é um pouco rígido e antigo, onde o trabalhador trabalha tantas horas por semana ou tantas horas por dia e não tem flexibilidade. Se somente olharmos que as pessoas vão trabalhar menos horas e vão receber o mesmo salário, vai ter impacto na inflação. Não tem mágica. Agora, se formos capazes de otimizar todo o sistema trabalhista no Brasil e fizermos algo que seja mais flexível para os trabalhadores, faz mais sentido.

Mas o que está posto no momento seria a mudança para a escala 5x2. Como o Carrefour está se preparando?

Pablo Lorenzo: Depende, porque estamos tendo distintas discussões nesse sentido. Não é simplesmente a jornada. É isso mais a possibilidade de ter pessoal por hora, que justamente daria muito mais flexibilidade para o colaborador, que é o que estamos buscando. Ao final, vamos ter de reorganizar os times, não tenho dúvida disso. Mas depende muito de como vão terminar as discussões. Ainda não está claro isso.

Hoje há dificuldade para contratar mão de obra...

Pablo Lorenzo: Porque muitas vezes há uma falta de flexibilidade do sistema. Isso faz com que seja pouco atrativo para os colaboradores que trabalham no varejo. Tem cada vez mais no Brasil trabalhos nos quais as pessoas decidem quantas horas querem trabalhar: Uber, iFood e outros. Isso mostra que as pessoas estão buscando flexibilidade.

Seria aplicável um "uber dos supermercados" dentro de uma organização como o Carrefour?

Pablo Lorenzo: Pode ser uma inspiração para os trabalhadores. Não quer dizer que seja um copiar e colar. Não é isso. Mas sim, distintas escalas com distintas jornadas de trabalho, nas quais o colaborador pode adaptar melhor a sua vida pessoal. Ao final, o que as pessoas buscam é como adaptar melhor a sua vida pessoal.

O Carrefour já estaria desenhando algo nesse sentido?

Pablo Lorenzo: Depende mais da lei do que do Carrefour. O Carrefour não pode ir contra a lei. O que nós pensamos como setor supermercadista é que tem de ter toda uma transformação. E não é algo que vai passar de um dia para outro. Transformar o sistema trabalhista não é algo que vai se resolver em duas ou três semanas. Requer uma análise profunda porque tomar uma medida que não esteja bem planejada vai impactar nos custos e na inflação. E o efeito pode ser pior, porque atrapalha a todos. E a quem mais vai atrapalhar? O pequeno comerciante. Os vários setores do pequeno comércio podem ter mais dificuldades do que o grande comércio. Então, tem de ter muito cuidado com as medidas tomadas, conversando não apenas com o comércio, mas com os (prestadores de) serviços, os fornecedores, com toda a cadeia de valor, não só com o supermercado. Temos de ter uma discussão completa de todo o mercado trabalhista de como fazer para dar mais flexibilidade para as pessoas de forma que seja mais eficiente e que não gere impactos na inflação.

O sr. está otimista com o Brasil?

Pablo Lorenzo: Sim, sempre. Estou otimista porque temos o negócio certo no país certo. E não falo se a economia vai ser melhor ou vai ser pior. Temos marcas que têm muito contato, que falam muito para o brasileiro. O Atacadão tem 63 anos de história, o Carrefour tem 50 anos de história, o Sam’s também. Já passamos por vários ciclos diferentes da economia e sempre continuamos aqui. Porque não dependemos dos ciclos da economia. Dependemos mais do consumidor. Isto é, ter a oferta certa para o que ele quer. Estou otimista porque estamos adaptando o nosso sortimento ao que o cliente está buscando no Brasil.

Fonte: Broadcast Agro.