23/Feb/2026
A diversificação de usos do arroz ganha novo impulso com o desenvolvimento de cultivares específicas para produção de etanol, ampliando o potencial econômico da orizicultura, especialmente em regiões com vocação para cultivo irrigado. A cultivar BRS AG, desenvolvida especificamente para fins energéticos, apresenta características agronômicas e industriais que a diferenciam do arroz destinado ao consumo humano e a posicionam como matéria-prima altamente eficiente para a produção de biocombustível.
O material possui grãos maiores, maior concentração de amido e elevado teor de carboidratos, atributos que favorecem o processo de fermentação e aumentam a eficiência na conversão em etanol. O rendimento estimado é de aproximadamente 430 litros de etanol por tonelada de grãos, desempenho superior ao de matérias-primas amplamente utilizadas. O milho apresenta potencial médio em torno de 360 litros por tonelada, enquanto a cana-de-açúcar gera cerca de 70 litros por tonelada.
A cultivar é classificada como desclassificada para consumo humano, o que elimina competição direta com o mercado alimentício. Ainda assim, pode ser utilizada na alimentação animal e cultivada dentro da mesma estrutura produtiva já existente nas regiões arrozeiras, sem necessidade de investimentos adicionais em sistemas de produção. O potencial produtivo pode atingir cerca de 10 toneladas de grãos por hectare.
Viabilidade econômica associada ao contexto do setor
O interesse renovado por essa alternativa ocorre em um cenário de pressão sobre a rentabilidade da orizicultura, caracterizado por consumo estagnado e preços frequentemente abaixo do custo de produção. Nesse ambiente, o uso energético do arroz representa uma possibilidade de agregação de valor e diversificação de renda para o produtor.
A expansão depende principalmente da instalação e operação de biorrefinarias capazes de absorver o grão como matéria-prima. A retomada do interesse acompanha o avanço de investimentos em biocombustíveis, especialmente em plantas de etanol de milho e biodiesel, que podem ampliar a demanda por matérias-primas alternativas.
A disponibilidade comercial do material exige recomposição de estoques de sementes e organização da produção em escala. Em condições normais de multiplicação, o volume necessário para abastecimento industrial poderia ser alcançado em poucas safras.
Adequação regional e integração produtiva
Regiões com tradição no cultivo de arroz irrigado apresentam vantagem competitiva para adoção do sistema, especialmente áreas onde outras culturas energéticas enfrentam limitações agronômicas. A substituição parcial da área destinada ao arroz convencional por cultivares energéticas pode, simultaneamente, criar nova fonte de receita e reduzir a oferta do grão alimentar, contribuindo para equilíbrio de mercado.
Além do uso energético, estudos avaliam o potencial do arroz convencional como matéria-prima complementar para produção de etanol, ampliando as possibilidades de aproveitamento industrial do cereal.
Diversificação genética e abertura de nichos de mercado
O desenvolvimento de cultivares diferenciadas também inclui materiais voltados a segmentos específicos de consumo e valor agregado, como arroz para culinária especializada, variedades com maior teor de compostos bioativos e grãos com propriedades funcionais. Essas alternativas contribuem para ampliar o leque de produtos da cadeia orizícola e reduzir a dependência do mercado tradicional de arroz branco longo fino.
Perspectiva estrutural
A utilização do arroz como fonte de bioenergia insere a cultura no processo de transição energética e amplia sua relevância estratégica. A viabilidade econômica dependerá da integração entre produção agrícola, capacidade industrial e demanda por combustíveis renováveis.
O desenvolvimento de cultivares específicas, aliado à expansão do parque de biorrefinarias, pode transformar parte da produção arrozeira em insumo energético, criando um novo eixo de crescimento para a cadeia produtiva e fortalecendo a resiliência econômica das regiões produtoras.