19/Jun/2024
O ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura Neri Geller afirmou que ficou "chateado" com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, quanto à forma da sua saída do governo. Ele foi exonerado do cargo no dia 12 de junho, após denúncias de irregularidades no leilão de compra pública de arroz importado pelo governo federal e suspeitas de tráfico de influência e conflito de interesses. “Não devia e não devo nada. Saí chateado porque poderia ter me afastado para esclarecer todos os pontos, item por item. Não tenho uma vírgula para esconder", disse Geller nesta terça-feira (18/06), durante audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados sobre a decisão do Executivo de importar até 1 milhão de toneladas de arroz beneficiado.
O leilão é contestado pelo setor produtivo e parlamentares da oposição, após indícios de irregularidades. A demissão de Geller ocorreu após vir a público sua ligação com um dos principais intermediários do certame público de compra de 263,6 mil toneladas de arroz importado, Robson Luiz de Almeida França, presidente da Bolsa de Mercadorias de Mato Grosso (BMT) e sócio proprietário da Foco Corretora. Além de ex-assessor de Geller na Câmara dos Deputados, França é sócio em outra empresa do filho de Geller, Marcello Geller. O ex-secretário e ex-deputado federal nega qualquer favorecimento a França, que, segundo ele, foi seu assessor até 2020 ou envolvimento do filho no certame público. Ele diz que a empresa Marcello com França está inativa e nunca operou.
"Tenho contratos de prestação de contas. França participou de 12 a 18 leilões e ganhou 2. É uma corretora que presta serviço para empresas e não para a Conab. Além disso, estoque público e leilões são de responsabilidade do MDA”, explicou Geller. O ex-secretário esclareceu que foi exonerado pelo governo, que foi comunicado por Fávaro da decisão e que não pediu demissão após a crise do arroz. "Não pedi demissão porque não era justo e pedi correção para exoneração, sem a pedido", comentou. O ex-secretário relatou, contudo, que esperava uma nova conversa com o ministro, após Favaro ter ligado para ele do Palácio do Planalto e informado sobre sua saída. Ele destacou que tem uma relação de 30 anos com Fávaro.
"Eu disse ao Fávaro que ele conhece Robson e sabe como funciona o leilão de licitação pública. O leilão é público e cada corretora precisa estar credenciada para participar dentro das normas rigorosas da Conab", disse Geller. Ele negou também ligação com as empresas vencedoras do leilão e qualquer participação de seu filho, Marcello Geller, no certame. A compra pública de 263 mil toneladas de arroz importado pelo governo por meio de leilão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foi anulada após suspeitas de irregularidades e atuação de empresas desconhecidas do setor no certame. "O edital é claro: quem não apresentar os documentos e a garantia de 5% de recursos não participa do leilão. O compliance da Conab é extremamente rigoroso". Segundo Geller, após o cancelamento do primeiro edital de compra de 100 mil toneladas, ele não teria mais acompanhado as discussões ministeriais sobre a importação pública do arroz.
"Era um tema espinhoso e o ministro (Fávaro) chamou o tema para o gabinete dele e o conduziu com a Casa Civil. É legítimo do ministro e do governo essa preocupação com abastecimento de arroz e com a inflação que era puxada pelo arroz", disse. Geller negou também uma eventual retaliação ao governo após sua demissão. "Não é meu perfil sair atirando no governo. Não sou injusto, mas jamais poderia sair do Ministério pela porta dos fundos. Não caio atirando e sim caio colocando os fatos como são", afirmou o ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura. Parlamentares presentes na comissão afirmaram que as respostas de Geller foram evasivas e cobraram a presença de diretores da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) na audiência do colegiado. Fonte: Broadcast Agro.