22/Oct/2026
O mercado de algodão chega à segunda metade de outubro sob pressão no curto prazo, diante da revisão para cima das estimativas de produção e estoques nos Estados Unidos e no mercado global, além da demanda doméstica brasileira ainda enfraquecida. O relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trouxe números baixistas para a cadeia, reforçando a perspectiva de manutenção das cotações em níveis pressionados no curto prazo. No Brasil, a comercialização da pluma permanece pontual. Os agentes priorizam o cumprimento de contratos a termo, enquanto as divergências entre compradores e vendedores limitam a realização de novos negócios. A maior disponibilidade de pluma e a cautela dos compradores pressionaram as cotações em alguns momentos. Por outro lado, a resistência dos vendedores em aceitar preços menores e a procura por lotes de qualidades específicas sustentaram leves altas, insuficientes para compensar as perdas anteriores.
As incertezas sobre o cenário político também levam parte dos agentes a aguardar maior clareza antes de definir os próximos movimentos comerciais. O Indicador Cepea/Esalq, com pagamento em 8 dias, registra recuo de 2,29% no mês. Apesar da desvalorização recente, a cotação doméstica permaneceu, em média, 3,5% acima da paridade de exportação em outubro. Na ponta do consumo, o mercado de produtos têxteis ainda não apresenta recuperação consistente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as vendas do varejo de tecidos, vestuário e calçados cresceram apenas 0,6% em agosto ante julho, mas recuaram 3,9% na comparação com agosto de 2025. No acumulado de 2026, a queda é de 1,4%. A cautela dos consumidores e as condições financeiras restritivas limitam a recuperação do consumo e, consequentemente, a demanda da indústria têxtil por matéria-prima. As exportações brasileiras representam um fator de sustentação.
Conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a média diária dos embarques nos 11 primeiros dias úteis de outubro foi de 14,36 mil toneladas, aumento de 7,51% em relação ao mesmo período de 2025. O volume exportado na parcial do mês alcançou 158 mil toneladas e, caso o ritmo atual seja mantido, os embarques poderão chegar a aproximadamente 300 mil toneladas em outubro. Para a safra 2026/27, as projeções indicam expansão da área cultivada no Brasil, mas divergem quanto ao volume de produção. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra recorde de 4,16 milhões de toneladas de pluma. A expansão de 3,7% da área, para 2,093 milhões de hectares, deverá compensar a redução de 3,3% na produtividade. A Conab atribui o aumento da área à rentabilidade do algodão em relação às demais culturas e projeta consumo doméstico de 745 mil toneladas e exportações de 3,41 milhões de toneladas. A StoneX trabalha com uma estimativa mais conservadora, de 3,89 milhões de toneladas, queda de 5,3% ante a safra anterior.
Embora a área deva crescer 5,9%, a produtividade poderá recuar 10,6%, após os rendimentos elevados registrados no último ciclo. O plantio da safra 2026/27 ainda não começou, uma vez que os Estados brasileiros atravessam o período de vazio sanitário, intervalo em que não pode haver plantas de algodão no campo para interromper o ciclo de pragas. Segundo Marcos Leira, as consultorias projetam aumento de aproximadamente 3% na área cultivada. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) elevou em 1,8% a estimativa de produção de algodão para 2026/27, para 2,92 milhões de toneladas de pluma, e manteve a projeção de exportações. Com isso, os estoques finais norte-americanos foram revisados para cima em 5,5%, para 824 mil toneladas. No balanço global, as estimativas de produção e estoques finais também aumentaram em relação ao relatório anterior, com altas de 0,5% e 1,17%, respectivamente. A revisão para cima da oferta, somada à realização de lucros por fundos de investimento em setembro, reforça a pressão sobre os preços no curto prazo.
A pluma dos Estados Unidos está mais competitiva para compradores estrangeiros. Até 18 de outubro, 41% da área de algodão dos Estados Unidos estava colhida, ante média de 37% nos últimos cinco anos. As lavouras classificadas em condições boas ou excelentes correspondiam a 35% da área, aumento de 1% em uma semana. Os sinais de enfraquecimento das exportações norte-americanas também contribuem para o cenário de pressão sobre as cotações. Em 16 de outubro, o USDA anunciou novas medidas no âmbito do Great American Cotton Plan, programa de apoio ao setor lançado em maio. As iniciativas incluem alterações no seguro agrícola a partir da safra 2027 e a implementação de um mecanismo de cotas tarifárias, também previsto para 2027, que concederá tratamento preferencial a Bangladesh, Indonésia, Camboja e Malásia em contrapartida à compra de algodão norte-americano. Apesar das pressões de curto prazo, há fatores podem sustentar o mercado. As cotações chegam ao último trimestre no maior nível desde janeiro de 2024, em um contexto de oferta mais restrita em importantes países produtores, como Estados Unidos, Austrália e China, petróleo mais caro e atuação de fundos especulativos.
Bangladesh, Paquistão e Vietnã, responsáveis por aproximadamente 47% das importações globais de algodão, deverão elevar as compras em 4,9% na safra 2026/27. Nesse cenário, o Brasil tende a manter posição relevante como fornecedor internacional, especialmente diante dos problemas climáticos e produtivos enfrentados por outros grandes exportadores. A perspectiva, contudo, depende da evolução da economia mundial. A inflação e o risco de desaceleração econômica podem limitar o consumo global de algodão. Além disso, como parte da valorização recente está associada às tensões geopolíticas, uma eventual redução desses riscos poderá retirar parte do prêmio incorporado às cotações no mercado de commodities. Assim, a evolução da oferta global, o comportamento da demanda têxtil e as condições macroeconômicas continuarão determinantes para a trajetória dos preços. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.