24/Sep/2026
A área plantada com algodão no Brasil deve crescer 7% na safra 2026/27, para 2,22 milhões de hectares, mas a conversão desse aumento em produção dependerá do comportamento do clima ao longo do ciclo. A Agroconsult projeta um El Niño forte, com possibilidade de temperaturas elevadas e ocorrência de veranicos no início do desenvolvimento das lavouras, além de antecipação do fim das chuvas em regiões onde o algodão é cultivado em 2ª safra. A intensidade do fenômeno aumenta os riscos para a produtividade, principalmente em áreas dependentes do regime de precipitações. A expansão prevista representa recuperação após a redução de 6,3% da área na safra 2025/26, para 2,07 milhões de hectares. Na temporada anterior, a retração da área foi compensada por produtividade elevada. A Agroconsult estima a produção de Mato Grosso em 2,99 milhões de toneladas de pluma em 2025/26, volume superior aos 2,79 milhões de toneladas projetados para os Estados Unidos em 2026/27.
Na Bahia, a produção estimada é de 980 mil toneladas, em patamar próximo ao da Austrália. Os números evidenciam o avanço da produção brasileira em relação a importantes concorrentes no mercado internacional. Em 2026/27, Mato Grosso deverá concentrar a maior parte da expansão da área, com crescimento de 8,5%, para 1,54 milhão de hectares. Na Bahia, o avanço projetado é de 2,1%, para 435 mil hectares. No Mapito, formado por Maranhão, Piauí e Tocantins, a área deverá aumentar 11,7%, para 91 mil hectares. A estimativa nacional da Agroconsult, de 2,22 milhões de hectares, supera a projeção preliminar da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de aproximadamente 2,09 milhões de hectares. A expansão poderia ser ainda maior, mas a disponibilidade de crédito constitui um limitador para o crescimento da área. A restrição de recursos reduz a capacidade de ampliação mais acelerada do plantio, especialmente diante das necessidades de capital associadas à implantação e condução das lavouras de algodão.
Além do crédito, a janela de plantio será determinante para o desempenho da safra. Em Mato Grosso, uma parcela relevante do algodão é cultivada após a soja, fazendo com que o calendário da oleaginosa determine o período disponível para a 2ª safra. A avaliação da Agroconsult é de que as condições iniciais de chuva devem favorecer o plantio da soja, permitindo a implantação do algodão dentro da janela inicialmente projetada. O principal risco passa a ser a duração das chuvas ao longo do ciclo. A expectativa é de condições adequadas para o plantio do algodão em janeiro, mas permanece a incerteza sobre a manutenção das precipitações até o fim de abril e o início de maio. Uma interrupção antecipada das chuvas poderia reduzir a produtividade em áreas que ainda necessitam de umidade nesse período. Os modelos meteorológicos apresentados pela consultoria indicam possibilidade de persistência dos efeitos do El Niño durante abril, maio e junho, caracterizando um fenômeno com maior duração em relação a episódios recentes.
As projeções têm como base em dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), apontam para um El Niño mais intenso do que os registrados nos últimos episódios. A anomalia da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial pode alcançar aproximadamente 2,9°C no pico de 2026/27, ante 2,3°C no episódio de 2015/16 e 1,4°C em 2023/24. A maior intensidade amplia a necessidade de monitoramento das condições de temperatura e precipitação durante o desenvolvimento das lavouras. Na Bahia, onde o El Niño tende a elevar o risco de chuvas abaixo da média, a expansão da irrigação reduz parte da exposição das lavouras ao clima. A área irrigada de algodão no Estado aumentou de 100 mil hectares em 2023/24 para 186 mil hectares em 2025/26, equivalente a 44% da área total cultivada com a fibra. Considerando todas as culturas, a Bahia já possui cerca de 500 mil hectares irrigados.
Para a próxima safra, a expectativa é de uma composição próxima de metade da área de algodão irrigada e metade em sequeiro. O comportamento das chuvas na fase final do ciclo também se mostrou relevante para a produtividade da safra atual. As precipitações ocorridas no período contribuíram positivamente para o rendimento das lavouras. Com a retomada da expansão da área em 2026/27, a distribuição e a duração das chuvas serão determinantes para definir quanto do crescimento de 7% no plantio poderá ser convertido em aumento efetivo da produção. Assim, crédito, janela de implantação da 2ª safra e persistência do El Niño formam os principais fatores de risco para o desempenho do algodão brasileiro na próxima temporada.
Segundo a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), os produtores de algodão da Bahia chegam à safra 2026/27 mais preparados para os efeitos do El Niño, incorporando aprendizados do ciclo 2015/16 e ampliando investimentos em irrigação e em áreas de maior potencial produtivo. A mudança de estratégia ganhou força nos últimos dois anos e indica que a irrigação passou a exercer papel não apenas de proteção contra períodos de menor precipitação, mas também de elevação e estabilização da produtividade das lavouras. As dificuldades observadas na safra 2015/16 contribuíram para mudanças no manejo do algodão baiano, com avanços na construção do perfil do solo e maior atenção à capacidade de armazenar e aproveitar a água disponível.
Os produtores passaram a concentrar recursos em áreas com melhores condições produtivas, reduzindo investimentos em regiões menos favoráveis. Dados mostram a evolução da irrigação. Na safra 2025/26, a área cultivada com algodão irrigado na Bahia cresceu 12%, enquanto a área de sequeiro recuou 7%. Com esse movimento, a participação da irrigação passou de 39% para 44% da área cultivada no Estado. A produtividade do algodão em caroço foi estimada em 368 arrobas por hectare, recorde para a Bahia. A estimativa é de que a Bahia já tenha cerca de 500 mil hectares irrigados considerando todas as culturas, dos quais quase 200 mil hectares são ocupados pelo algodão. Para a safra 2026/27, a expectativa apresentada no congresso é de que a cultura se aproxime de uma divisão equilibrada entre áreas irrigadas e de sequeiro.
A maior estrutura de irrigação reduz parte da exposição da cotonicultura baiana aos riscos climáticos associados ao El Niño. A Agroconsult avalia que o fenômeno tende a elevar o risco de chuvas abaixo da média no Nordeste, cenário que reforça a importância da disponibilidade de água e da capacidade de armazenamento e aproveitamento da umidade do solo. Mesmo com a evolução da estrutura produtiva, o setor mantém atenção sobre o comportamento do clima nas próximas semanas e sobre as atualizações das previsões meteorológicas. A combinação entre irrigação, manejo do solo e concentração dos investimentos em áreas de maior potencial passa a constituir uma estratégia de mitigação dos riscos para a produção de algodão da Bahia na safra 2026/27. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.