24/Sep/2026
Segundo a Agroconsult, o Brasil consolidou a liderança mundial nas exportações de algodão no ciclo comercial encerrado em julho de 2026, com embarques 27% superiores aos dos Estados Unidos. O País exportou 3,37 milhões de toneladas entre agosto de 2025 e julho de 2026, ante cerca de 2,65 milhões de toneladas dos Estados Unidos e 1,14 milhão de toneladas da Austrália. O Brasil superou os Estados Unidos pelo segundo ciclo consecutivo e mantém perspectiva de repetir a liderança no terceiro. A mudança na participação brasileira no comércio internacional ocorreu em poucos anos. No período anterior analisado pela Agroconsult, o Brasil respondia, em média, por 15% das exportações mundiais de algodão, enquanto os Estados Unidos representavam 37% e a Austrália, 7%. No período mais recente, a participação média brasileira aumentou para 35%, ante 27% dos Estados Unidos e 12% da Austrália.
Os embarques brasileiros no ciclo comercial 2025/26 correspondem à pluma produzida na safra 2024/25. O avanço das exportações também ampliou a presença brasileira nos principais mercados consumidores. A China permaneceu como maior destino, com 770 mil toneladas adquiridas do Brasil em 2025/26, equivalentes a 49% das importações chinesas de algodão no período. Bangladesh comprou 583 mil toneladas, correspondentes a 37% de suas importações; a Turquia adquiriu 442 mil toneladas, ou 44%; e o Paquistão, 414 mil toneladas, equivalentes a 45%. A participação brasileira também alcançou 33% das importações da Índia, com vendas de 345 mil toneladas, e 45% das compras da Indonésia, com 202 mil toneladas. Dessa forma, a fibra brasileira passou a estar presente nos principais mercados consumidores mundiais e ocupa posição relevante em diferentes destinos.
O Vietnã constitui a principal exceção entre os grandes compradores. Os Estados Unidos exportaram 878 mil toneladas para o país no ciclo, correspondentes a 49% das importações vietnamitas, enquanto o Brasil embarcou 393 mil toneladas, com participação de 22%. A Austrália respondeu por 12%. A recuperação da participação norte-americana no mercado vietnamita no último ano esteve relacionada a ações comerciais e geopolíticas, mantendo os Estados Unidos como principal fornecedor do país. Outro fator associado ao ganho de participação brasileira é a regularidade da oferta. Enquanto Estados Unidos e Austrália ainda apresentam maior concentração dos embarques em determinados períodos, o Brasil passou a exportar volumes elevados durante praticamente todo o ano. Os embarques superam 200 mil toneladas em quase todos os meses e já ultrapassaram 400 mil toneladas em alguns períodos.
A constância no fornecimento constitui um fator relevante para os compradores internacionais, especialmente para a indústria têxtil. A regularidade dos embarques acompanhou a ampliação da capacidade logística brasileira. O crescimento da produção de algodão havia levantado dúvidas sobre a capacidade de escoamento de volumes maiores, mas a expansão da infraestrutura e dos fluxos de exportação permitiu ao País atender à demanda externa com volumes crescentes. A liderança em volume, contudo, ainda convive com uma percepção historicamente menos favorável sobre a qualidade da fibra brasileira em comparação com concorrentes tradicionais. Pesquisas realizadas pela Cotton USA em 2017, 2019 e 2021 avaliaram a percepção da indústria têxtil sobre diferentes origens.
No levantamento de 2021, realizado com representantes do setor de 17 países, o Brasil figurava entre as cinco melhores origens para 18% a 26% dos entrevistados, dependendo do critério analisado, incluindo confiabilidade, baixa contaminação e qualidade. Estados Unidos e Austrália registravam percentuais superiores, entre 47% e 63%. O setor brasileiro avançou desde então em programas de qualidade, certificação e rastreabilidade. O número de unidades certificadas pelo programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), mais que dobrou desde a safra 2013/14. Diante dessa evolução, a realização de uma nova pesquisa com a mesma metodologia dos levantamentos anteriores permitiria avaliar a mudança na percepção dos compradores internacionais sobre a fibra brasileira. Apesar dos avanços, o algodão brasileiro ainda apresenta diferencial de preço em relação aos concorrentes.
Dados da FOB Brokers apresentados pela Agroconsult mostram que o basis do algodão brasileiro na China permaneceu abaixo dos níveis registrados para as fibras australiana e norte-americana nas posições comparadas no início de setembro de 2024, 2025 e 2026. O diferencial de preço, contudo, não está relacionado exclusivamente à qualidade, envolvendo também fatores logísticos e a disponibilidade de algodão. A ampliação da oferta brasileira e a melhora da logística e da qualidade levantam questionamentos sobre a manutenção da diferença de basis em relação aos concorrentes. A evolução desses fundamentos poderá determinar uma redução do diferencial de preço caso os compradores passem a atribuir maior valor à regularidade de fornecimento e aos avanços obtidos pela cadeia brasileira. No mercado internacional, a relação entre oferta e demanda também oferece suporte às cotações.
A Agroconsult estima a produção mundial de algodão em aproximadamente 26 milhões de toneladas em 2026/27, enquanto o consumo deverá superar esse volume em cerca de 500 mil a 600 mil toneladas. Dificuldades produtivas em grandes países produtores contrastam com a expansão da produção brasileira, aumentando a participação do Brasil no atendimento da demanda global. A mudança no balanço mundial também alterou as perspectivas de preços. Há cerca de um ano, as projeções indicavam possibilidade de cotações abaixo de 70 centavos de dólar por libra-peso, antes das frustrações de safra registradas em países como Austrália, Estados Unidos, China e Índia. Para 2026/27, a Agroconsult trabalha com preço médio próximo de 84,00 centavos de dólar por libra-peso, em um cenário de consumo superior à produção e de ampliação da participação brasileira no comércio internacional. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.