16/Jul/2026
Neste mês de julho, o Indicador do Algodão em Pluma CEPEA/ESALQ do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, completa 30 anos de divulgação diária ininterrupta – de 1996 para cá, são quase 7,5 mil dias de dados publicados. Há três décadas, portanto, o setor cotonicultor nacional conta com um parâmetro de preços confiável, elaborado com métodos cientificamente recomendados, que contribui para a tomada de decisões. O Indicador CEPEA/ESALQ da pluma (produto posto na mesorregião de São Paulo) conta com o apoio direto da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) há 23 anos. Ao longo desses 30 anos, outras entidades também prestaram apoio institucional e financeiro ao Indicador, como a BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros), a B3 S.A. (Brasil, Bolsa Balcão), a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e a Cooperserv (Cooperativa Agrícola Nacional Sudeste Centro-Oeste).
Independentemente do parceiro, os mesmos procedimentos metodológicos têm sido mantidos no cálculo do Indicador, o que assegura sua ampla aceitação pelos agentes do setor. Atualmente, além do Indicador da pluma posta em São Paulo, o Cepea acompanha os preços do algodão do tipo 41-4 em 13 praças distribuídas em seis Estados: Mato Grosso, Bahia, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Paraná. A Equipe também levanta os preços de caroço, torta, farelo, óleo e fios de algodão e a paridade de exportação da pluma por Santos (SP) e Paranaguá (PR). O Centro monitora, ainda, a situação financeira dos produtores (custos de produção e receita) e os indicadores econômicos da cadeia, como emprego, renda e PIB setorial. Cotonicultores, algodoeiras, cooperativas, corretores, comerciantes e indústrias têxteis são consultados diariamente por pesquisadores do Centro de Pesquisas. Passadas três décadas, fica evidente que os agentes de mercado que, desde o começo, se dispuseram a fornecer dados ao Cepea, reconhecem a importância, para si próprios, da informação construída com rigor científico.
A trajetória do Indicador se confunde com a própria reestruturação da cotonicultura brasileira. Lucilio Alves, pesquisador responsável pelo levantamento da pluma no Cepea, lembra que “o setor atravessou uma crise entre o final da década de 1980 e o fim dos anos 1990, quando a área cultivada e a produção nacional registraram fortes retrações, mas a demanda da indústria têxtil permaneceu relativamente estável, o que resultou na intensificação das importações”. A crise, no entanto, impulsionou uma importante reestruturação da atividade, marcada pela migração da produção para novas fronteiras agrícolas, especialmente no Centro-Oeste e no oeste da Bahia”. Consolidou-se, então, uma cotonicultura empresarial, caracterizada por grandes áreas cultivadas, elevado grau de mecanização, uso intensivo de tecnologia e maior capacidade de investimento.
“Essa transformação alterou significativamente a geografia da produção nacional, reduzindo a participação dos estados tradicionalmente produtores e ampliando o protagonismo de Mato Grosso, Bahia e Goiás”, destaca Alves. A partir da safra 1998/99, o setor iniciou um processo de recuperação sustentado principalmente por expressivos ganhos de produtividade, decorrentes da adoção de tecnologias modernas, da profissionalização da gestão e da maior eficiência dos sistemas produtivos. Com isso, a cotonicultura brasileira deixou de depender de importações para abastecer o mercado interno e consolidou-se como atividade altamente competitiva no cenário internacional. Os últimos anos vêm sendo marcados por recordes. Em 2025, a produção nacional de pluma superou, pela primeira vez na história, a marca de 4 milhões de toneladas, e a safra 2025/26 deve seguir elevada, estimada em 4,06 milhões de toneladas, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
No cenário mundial, o Brasil é o terceiro maior produtor e lidera as exportações, posição historicamente ocupada até então pelos Estados Unidos. Em 2025 (de janeiro a dezembro), os embarques atingiram o recorde de 3 milhões de toneladas, de acordo com a Secex; na parcial da temporada 2025/26 (de agosto/25 a junho/26), a um mês do encerramento, os envios externos já somam 3,22 milhões de toneladas, novo recorde. A série de 30 anos do Indicador também conta a história dos preços, e de suas fortes oscilações. Em termos reais (valores deflacionados pelo IGP-DI), o patamar máximo da série foi registrado em março de 2011, quando choques de oferta e a forte demanda internacional levaram as cotações mundiais a patamares inéditos. Na direção oposta, as mínimas históricas ocorreram entre o fim de 2008 e o início de 2009, em meio à crise financeira global.
O momento atual é de um novo período de preços baixos. Pressionadas pela oferta global elevada, as médias reais do Indicador entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026 estiveram entre as menores de toda a série, muito próximas das mínimas de 2008/09. Ao longo do primeiro semestre de 2026, observou-se recuperação parcial das cotações, mas os valores seguem em patamar historicamente baixo: em termos reais, correspondem a cerca da metade dos vigentes em meados da década de 1990, o que reflete tanto o crescimento da oferta mundial quanto os ganhos de eficiência da produção ao longo dessas três décadas. Em um ambiente de margens pressionadas, a informação de qualidade ganha ainda mais relevância – compromisso que o Cepea renova ao completar 30 anos de acompanhamento diário do mercado de algodão. Fonte: Cepea.