05/Jan/2026
O mercado de algodão encerrou 2025 sem perspectiva clara de recuperação no curto prazo. Preços pressionados, estoques elevados no Brasil e no exterior, demanda global estagnada e área de plantio menor compõem o cenário que deve marcar este início de 2026. Para produtores, indústrias e exportadores, o ambiente exige disciplina comercial, gestão de risco e maior atenção às margens, em um ciclo que se aprofundou ao longo do ano e ainda não encontrou seu ponto de inflexão. A área cultivada com algodão no Brasil deve recuar na safra 2025/2026. Em Mato Grosso, principal estado produtor, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima retração de 7,3, para 1,43 milhão de hectares, interrompendo pela primeira vez desde 2020/2021 o movimento de expansão. O ponto de atenção para a temporada futura está na rentabilidade. A combinação de custos mais altos, os preços baixos e comercialização mais lenta deve permear o próximo ano, visto que ainda não há fatores que levem à valorização da pluma no mercado.
A expectativa inicial do setor era de expansão próxima de 100 mil hectares, mas a dificuldade de fixar grandes volumes a prazos longos reduziu o ímpeto de plantio. A consultoria observa que a mudança da liquidez e a dificuldade de fixar grandes volumes num prazo distante seguraram o ímpeto. A relação de rentabilidade entre milho 2ª safra e algodão de 2ª safra também pesam na decisão, com o milho oferecendo maior facilidade para travar volumes em usinas, enquanto o algodão enfrenta liquidez mais limitada no mercado. O recuo de área ocorre apesar de o Brasil ter consolidado a liderança nas exportações globais de algodão pelo segundo ano consecutivo. O País deve responder por 31% das exportações mundiais em 2025/2026, ultrapassando os Estados Unidos, que ficarão com 28% de participação. A inversão é significativa. Em 2018, os norte-americanos detinham 39% do comércio mundial, enquanto o Brasil representava apenas 10%.
O Brasil ganhou espaço porque entregou volume, regularidade e qualidade em um período em que outros países tiveram dificuldades. O mercado deve iniciar 2026 ainda pressionado pela combinação entre estoques elevados e demanda global fraca, sem sinais de gatilhos capazes de reverter a trajetória de preços no curto prazo. Os estoques finais devem ser recordes de 3 milhões de toneladas no Brasil ao término da safra 2025/2026, mesmo com exportações previstas para superar 3 milhões de toneladas. A conclusão da colheita e o aumento do volume beneficiado, somados à demanda interna e externa ainda fraca, continuam pressionando as cotações. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta produção de 3,96 milhões de toneladas na safra 2025/2026, queda de 2,9% em relação à temporada anterior. Com estoques iniciais elevados de janeiro de 2026, a disponibilidade interna deve ficar 6,5% acima da registrada em 2025, para 6,8 milhões de toneladas.
A Conab estima consumo interno de 730 mil toneladas e exportações de 3,06 milhões de toneladas. Mesmo assim, os estoques finais devem superar 3 milhões de toneladas em dezembro de 2026, um recorde. No mercado internacional, os Estados Unidos também enfrentam dificuldades. A demanda doméstica americana está projetada em 12,7 milhões de fardos, a menor desde 2015. Os estoques finais americanos devem atingir 4,5 milhões de fardos, com relação estoque-consumo de 39%, acima dos 23% do ano anterior. A área plantada nos EUA deve ficar entre 9,6 e 9,9 milhões de acres, com produção entre 14 e 15 milhões de fardos. O consumo mundial de algodão permanece estável em torno de 25 milhões de toneladas por safra há pelo menos uma década, sem perspectiva de crescimento significativo. A China, maior produtora e consumidora global, encerra em 2025 um ciclo de subsídios plurianual de cinco anos, e ainda não há clareza sobre como será a política para 2026.
Há muitos anos se fala de uma priorização de alimentos nesses ciclos, com a China plantando menos algodão e mais alimentos, mas isso, no momento, permanece apenas como especulação. Outro fator que pressiona os preços é a queda de 15% no valor do petróleo nos últimos 12 meses. A redução no custo da commodity energética torna a fibra sintética mais competitiva em relação à pluma natural, limitando o espaço para valorização do algodão. Isso tende a aumentar a competitividade da fibra sintética e reduzir a competitividade da fibra natural. No comércio internacional, Bangladesh registrou em dezembro um dos menores volumes de importação dos últimos dois anos, de 110 mil toneladas. O país atravessa uma situação política e macroeconômica delicada desde o ano passado. Vietnã, Turquia, Paquistão e China seguem como principais destinos da pluma brasileira, respondendo por mais de 80% das exportações do País. Um dos pontos de atenção são os acordos bilaterais que os Estados Unidos estão costurando com países asiáticos, especialmente Vietnã e Paquistão, para ampliar suas vendas e recuperar mercado.
A política americana tem adotado a incerteza e a volatilidade como estratégia, com a impressão de que os Estados Unidos estão usando a incerteza e a volatilidade a seu favor, o que pode significar mais três anos de arritmia nos mercados. Na Ásia, as monções fortes têm causado preocupação, especialmente na Índia e no Paquistão, países que concentram produção e consumo significativos de algodão. Esses dois países são os que saem da intersecção de três critérios: produzem, consomem algodão e têm chuvas, monções, inundações de tempos em tempos e instabilidades políticas. Analistas observam que tragédias climáticas na região podem mudar o preço do algodão do dia para a noite. Apesar do ambiente desafiador, há sinais positivos no longo prazo. Índia, Vietnã e Bangladesh têm aumentado o consumo de algodão, e o algodão americano e brasileiro continuam se destacando pela qualidade e consistência. Há também pressão crescente nos mercados de moda global para reduzir o uso de sintéticos devido a preocupações com microplásticos, o que pode dar uma vantagem de sustentabilidade ao algodão natural em futuros ciclos comerciais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.