10/Dez/2019
A retaliação de países como China, México, Canadá e Europa às tarifas impostas pela administração Donald Trump é um dos fatores para a queda na renda total da agricultura nos Estados Unidos. Em 2017, a China importou US$ 19,5 bilhões em produtos agrícolas norte-americanos. No ano seguinte, o valor caiu para US$ 9,2 bilhões com a escalada da guerra comercial. Para 2019, a expectativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é de que a renda dos agricultores continue em queda, 12% menor do que em 2018. A despeito de o governo ter lançado mão de programas de auxílio aos fazendeiros, as declarações de falência no campo cresceram 13% em junho, na comparação com o ano anterior, segundo a organização não governamental Farm Bureau. Muitos produtores estão insatisfeitos e afirmam que tudo piorou desde o início da disputa comercial com a China. O anúncio de que os Estados Unidos vão impor tarifas ao aço e alumínio do Brasil e da Argentina, uma medida que gerou perplexidade até mesmo dentro do governo americano, Donald Trump disse que os fazendeiros do país estão sofrendo com a desvalorização da moeda dos sul-americanos.
Mas, essa não é a maior preocupação do Meio Oeste dos Estados Unidos. A guerra comercial com a China é muito mais preocupante. A menos de um ano das eleições, o governo monta uma ofensiva para manter o voto republicano em estados predominantemente agrícolas, nos quais os produtores estão insatisfeitos com a prolongada guerra comercial com a China, que atingiu em cheio a demanda norte-americana. Com o anúncio de tarifas a outros exportadores de commodities, Donald Trump envia aos agricultores norte-americanos a mensagem de que há mais fatores que prejudicam as exportações além de sua batalha com a China. Até agora, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) não divulgou a proclamação das tarifas sugeridas por Trump ao Brasil e à Argentina. O governo ainda discute como tornar essa uma medida oficial, já que o Trump não respeitou o processo tradicional nestes casos. O campo é um eleitorado essencial para Trump. Para ganhar a reeleição, a campanha do republicano espera manter o apoio em Iowa, Michigan, Minnesota e Ohio, com intensa produção agrícola.
Os norte-americanos estão perdendo um de seus mais importantes compradores e o receio do setor é de que parte do mercado não seja reconquistado, mesmo com um eventual fim da guerra de tarifas. Donald Trump chegou a anunciar a “Fase 1” de um acordo comercial, mas, na semana passada, disse que a disputa pode se estender para além da eleição. Os agricultores não são, em número, o eleitorado mais expressivo do republicano, mas estão localizados em áreas cruciais para ganhar na contagem dos votos no Colégio Eleitoral. Em 2016, a democrata Hillary Clinton saiu vitoriosa no voto popular, com 2,9 milhões de votos a mais, mas a matemática das eleições norte-americanas favoreceu Donald Trump, que teve vitórias bastante apertadas em Estados como Michigan e Wisconsin. Mais de 75% dos produtores rurais votaram em Trump na última eleição. Parte dos agricultores menciona o dinheiro injetado pelo governo Trump na agricultura como uma medida positiva, apesar de não ser encarada como uma solução que se sustente no longo prazo. Em julho, o governo anunciou um novo pacote de ajuda de US$ 16 bilhões para os agricultores, afetados diretamente pela guerra comercial. No ano passado, o governo já havia oferecido US$ 12 bilhões ao setor.
O maior desafio é o rearranjo forçado dos planos de safra. Como só metade da soja norte-americana é consumida internamente e as exportações sofrem com o embate direto com a China, os produtores tomam decisões, safra a safra, sobre a divisão das plantações. O equilíbrio estabelecido pelo governo com o programa de pagamentos é frágil. Pode seguir por mais um ou dois anos, mas não por muito tempo. O programa de facilitação de pagamento dá apoio e os fazendeiros têm fé de que as tarifas serão resolvidas, continuam a acreditar nisso, por mais penoso que esteja sendo. Eles estão sendo tolerantes, mas daqui a um ano ou dois podem não ser tão pacientes. A associação Environmental Working Group cruzou a concessão dos subsídios com a base trumpista. A análise considera a alocação dos primeiros US$ 8 bilhões do programa. Mais de 2,6 mil condados, dos cerca de 3 mil nos Estados Unidos, receberam recursos do programa, mas mais dinheiro irrigou as regiões que votaram no democrata Barack Obama em 2012 e deram vitória a Donald Trump em 2016. Fonte: Agência Estado. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.