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23/Jul/2019

Sucessão familiar e fatores de influência na decisão

Em meio ao desafio de reter jovens em um campo cada vez mais envelhecido, o papel da família no processo de sucessão é o que acaba determinando a decisão dos filhos de deixarem o meio rural ou darem continuidade aos negócios da família. Embora o cenário externo exerça influência, como rentabilidade da atividade e quantidade de terra, é o ambiente interno que conduzirá o caminho escolhido pela juventude rural, segundo pesquisa feita pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) com 743 filhos de agricultores no Estado, com idades entre 13 e 21 anos. O ponto chave da sucessão está dentro das famílias. Se os jovens crescem ouvindo os pais reclamando da profissão, é provável que migrem para a cidade.

Claro que tem a ver com vocação também, mas, de qualquer forma, os filhos precisam ser preparados para o futuro, segundo o IFRS. O levantamento, realizado em todas as regiões gaúchas, mostra os determinantes do interesse e da falta de vontade em serem sucessores familiares na atividade agrícola. Os resultados contrariam o senso comum de achar que é só a questão financeira que interfere na decisão. E as motivações são muito semelhantes em todas as regiões. Uma das causas que levam os filhos de produtores a quererem ser sucessores, segundo a pesquisa, é a autonomia dada pelos pais para participarem das decisões referentes à propriedade. O diálogo dentro da família é fundamental. Direito à herança todos terão, mas ser o sucessor é uma decisão dos jovens a partir das oportunidades que a família oferece.

Homens ainda são mais estimulados a se manterem na propriedade

O índice de interesse dos entrevistados em ser sucessor é de 45,2%. Quando os resultados são divididos por gênero, o percentual aumenta para 59,6% entre os meninos e despenca para 28,6% entre as meninas. É uma questão cultural e histórica. As meninas ainda são mais incentivadas a saírem do campo, a estudarem nas cidades. Mais um indicativo da influência da família nesse processo. Apesar do ambiente ainda mais propício aos homens, a diferença de gênero no campo vem diminuindo, com cada vez mais mulheres dispostas a assumirem os negócios, quebrando barreiras machistas ainda presentes.

Fatores de Influência:

Entre os que decidiram ficar:

Quantidade de terra que os pais têm;

Boa remuneração das atividades;

Investimentos feitos pelos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral);

Incentivo de políticas públicas;

Autonomia dada pelos pais para participar das decisões;

Relações de confiança com vizinhos e comunidades;

Possibilidade de alimentação e moradia barata.

Entre os que decidiram sair:

Baixo investimento dos pais na propriedade (tecnologia e melhorias em geral);

Vergonha de ser agricultor;

Falta de incentivo de políticas públicas;

A ideia de que a agricultura não dá dinheiro;

Presenciar reclamações constantes dos pais sobre a atividade;

Não gostar da agricultura, não se identificar com a profissão.

Herdeiros precisam se profissionalizar

No caminho para a troca ou compartilhamento de bastão no meio rural, um ponto é visto como chave entre especialistas: a necessidade de profissionalizar os sucessores para enfrentarem um mercado global cada vez mais competitivo. É fundamental que os pais e os filhos tenham essa consciência. Não pode se acomodar por ser proprietário. É preciso desenvolver os jovens como profissionais, para que estejam em constante atualização e modernização em questões de mercado e tecnologia, segundo a Fundação Dom Cabral. A informalidade do campo não pode ser confundida com a falta de necessidade de adotar práticas comuns do mundo empresarial. É preciso construir um alinhamento entre os membros da família, com propósito e visão de futuro.

A transmissão da cultura e do conhecimento são essenciais. A hora certa para os pais começarem a falar sobre sucessão dependerá da maturidade de cada filho, mas pequenos detalhes na infância já podem conduzir o processo, segundo o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). As crianças e os jovens precisam ser ensinados a valorizar o trabalho da família, como a importância da produção de alimentos. E, mesmo quando os herdeiros não têm pretensão de participar das atividades imediatamente, eles precisam ser inseridos no planejamento sucessório da propriedade. Um dia, os herdeiros, querendo ou não, farão parte do negócio. Então, o melhor é que sejam preparados para quando esse dia chegar.

Fonte: Campo e Lavoura. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio