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06/Nov/2026

EUA: derrota eleitoral limita agenda de Donald Trump

A derrota expressiva do Partido Republicano nas eleições legislativas de 3 de novembro enfraquece o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na segunda metade de seu mandato. Com os democratas no controle das duas Casas do Congresso, o governo enfrentará maior resistência para aprovar sua agenda, em um cenário de pressão sobre o custo de vida, a política migratória e os efeitos da guerra no Irã. A mudança amplia as incertezas sobre a governabilidade, embora a política externa deva permanecer predominantemente sob controle do Executivo. A nova configuração do Congresso pode intensificar os conflitos entre a Casa Branca e os parlamentares. No dia seguinte à votação, Trump cumprimentou os democratas e manifestou disposição para trabalhar com a oposição, mas ressaltou que mantém o poder de veto sobre projetos aprovados pelo Legislativo. O presidente já havia sinalizado que pretende utilizar esse instrumento para barrar iniciativas democratas nas duas Casas.

O orçamento federal representa uma das principais ferramentas de pressão do Congresso sobre o Executivo. No ano passado, mesmo em minoria, os democratas conseguiram bloquear por meses a aprovação do orçamento para exigir mudanças em programas de saúde. Com o controle das duas Casas, a possibilidade de novos impasses orçamentários aumenta, assim como a convocação de atuais e ex-integrantes do governo para prestar esclarecimentos em comissões parlamentares, entre eles Elon Musk. Diante desse cenário, Trump poderá apostar no desgaste da oposição por meio de vetos frequentes, na expectativa de que os parlamentares acabem aceitando negociar. Enquanto não houver entendimento com o Congresso, a tendência é de maior utilização de decretos presidenciais. Desde o início do segundo mandato, em 2025, Trump assinou mais de 300 ordens executivas, e a imprensa norte-americana informa que o governo prepara novos atos para endurecer a política migratória.

A vitória democrata, contudo, não significa domínio irrestrito da agenda política. A experiência histórica dos Estados Unidos mostra que períodos de paralisia institucional podem prejudicar tanto o governo quanto a oposição. Trump não poderá disputar um terceiro mandato, enquanto os democratas precisam demonstrar capacidade de exercer uma oposição eficiente e construir uma alternativa eleitoral competitiva para 2028. O desempenho da legenda no Congresso será importante para consolidar essa estratégia, especialmente diante da expectativa de que parte do eleitorado tenha votado pela mudança. A derrota também pode provocar alterações na estrutura do Partido Republicano. Após o resultado eleitoral, alguns aliados de Trump começaram a adotar posições mais distantes do movimento MAGA, principal referência política do presidente. A avaliação entre integrantes da legenda é de que a associação direta ao presidente pode representar um custo eleitoral, diante da perda de cadeiras no Congresso e do enfraquecimento de sua autoridade política.

Esse movimento pode estimular o afastamento gradual de parlamentares, eleitores e doadores, reduzindo o controle de Trump sobre o partido. Um dos sinais dessa mudança veio do vice-presidente JD Vance, que atribuiu à guerra no Irã, iniciada por Trump em fevereiro deste ano, parte da responsabilidade pela derrota republicana. A avaliação reforça a percepção de divergências internas sobre os custos políticos e econômicos da atuação internacional do governo. Na política externa, Trump poderá assumir características de um presidente em fim de mandato com capacidade reduzida de implementar sua agenda, situação conhecida nos Estados Unidos como ‘lame duck’. A resistência no Congresso pode limitar iniciativas domésticas e ampliar a pressão sobre o Executivo, mas não deve retirar do presidente o controle predominante sobre as decisões internacionais. Uma das possibilidades é que Trump concentre esforços na agenda externa, embora essa estratégia possa ampliar o desgaste interno, em um momento no qual os eleitores cobram respostas para problemas econômicos e sociais.

A guerra no Irã tende a permanecer entre os principais pontos de pressão. Trump ainda sinaliza interesse em alcançar um acordo, mas mantém a possibilidade de concluir a ofensiva militar caso não haja entendimento. O conflito também amplia as tensões com o Congresso, que poderá utilizar seu poder de investigação para questionar a condução da operação. Segundo levantamento do Pentágono citado na reportagem, os Estados Unidos já gastaram mais de US$ 47 bilhões com a guerra. O interesse de Israel em prolongar o conflito também pode dificultar uma solução diplomática e elevar os custos políticos e financeiros para o governo norte-americano. Para o Brasil, a mudança na composição do Congresso norte-americano não deve provocar alterações significativas na relação bilateral no curto prazo. Apesar de o País ocupar posição relevante na estratégia de influência dos Estados Unidos na América Latina, a tendência é de continuidade das políticas já estabelecidas entre os dois governos.

As tarifas comerciais aplicadas a produtos brasileiros devem permanecer sob negociação, especialmente porque parte dos itens atingidos não é produzida nos Estados Unidos ou depende de importações para atender à demanda doméstica a preços competitivos. A agenda norte-americana de combate ao que Trump classifica como narcoterrorismo e a iniciativa Escudo das Américas também devem continuar alcançando o Brasil, mas sem mudanças expressivas em relação às medidas estabelecidas em 2026, sobretudo após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O Congresso dos Estados Unidos poderá questionar a concessão de vistos e eventuais interferências em assuntos internos de outros países, mas não terá poder de ingerência direta sobre as decisões do Executivo em política externa. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.