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27/Oct/2026

Acordo Mercosul-UE começa a impulsionar comércio

Os primeiros efeitos da abertura comercial decorrente do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) começam a aparecer, em um mercado que reúne cerca de 720 milhões de pessoas. O tratado prevê reduções tarifárias para 92% das exportações brasileiras e 91% das exportações europeias, ampliando as perspectivas de comércio entre os dois blocos. A avaliação foi apresentada pela cônsul-geral da Bélgica em São Paulo, Valentine Mangez. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam aumento de 30% das exportações brasileiras desde 1º de maio. Parte relevante desse crescimento teria ocorrido inclusive em produtos que já ingressavam nos mercados de destino com tarifa zero. O movimento sugere que os efeitos do acordo podem ultrapassar a redução de alíquotas e contribuir para dinamizar o comércio bilateral de forma mais ampla.

O alcance do tratado não se limita às condições tarifárias. O acordo também abrange compras públicas, cooperação regulatória e técnica e mecanismos de apoio a pequenas e médias empresas. A aproximação das normas e dos padrões técnicos dos dois blocos é considerada relevante para reduzir obstáculos às operações comerciais, uma vez que as barreiras não tarifárias decorrentes de diferenças regulatórias podem representar dificuldades mais complexas para exportadores e importadores do que os próprios tributos cobrados nas fronteiras. A convergência regulatória, contudo, deverá ocorrer de forma gradual, por meio de um processo contínuo de diálogo e cooperação entre as partes. A implementação do tratado não deve eliminar imediatamente as divergências entre os sistemas normativos, mas estabelecer estruturas institucionais para aproximar as economias ao longo dos próximos anos.

O acordo também incorpora compromissos relacionados ao desenvolvimento sustentável, com destaque para questões climáticas e normas sociais, temas relevantes na agenda europeia. Nesse contexto, o tratado amplia a cooperação entre os blocos para além das transações comerciais, com potencial para aproximar instituições e sociedades e estabelecer parâmetros comuns em diferentes áreas. O acordo se apoia em uma relação econômica já consolidada. Empresas europeias mantêm presença histórica no Brasil, enquanto grandes companhias brasileiras operam na Europa, com participação em atividades ligadas à industrialização, à infraestrutura e à geração de empregos. Em conjunto, os países da União Europeia respondem por quase metade do estoque de investimento estrangeiro direto no Brasil, reforçando a relevância dos vínculos econômicos entre as regiões.

No caso da Bélgica, a posição do país entre os investidores estrangeiros no Brasil varia ao longo do tempo, mas a presença empresarial é apontada como indicativo do compromisso de longo prazo com o mercado brasileiro. Os investimentos são decisões tomadas pelas próprias empresas belgas, e não necessariamente resultado de recursos públicos do país. A existência de relações comerciais e investimentos anteriores constitui uma base para a implementação do acordo. Nesse sentido, o tratado busca oferecer um marco atualizado, coerente e previsível para as relações entre Mercosul e União Europeia, combinando redução de tarifas, aproximação regulatória, cooperação institucional e compromissos de sustentabilidade. Os efeitos econômicos dependerão do avanço gradual dessas medidas e da capacidade de empresas e governos de aproveitar as novas oportunidades de integração.

A cônsul ponderou, no entanto, que os benefícios do acordo não se materializam automaticamente. Ela relatou que análises feitas do lado europeu sobre a implementação de outros tratados mostram que parte relevante das empresas, muitas vezes, não utiliza as vantagens disponíveis. "A União Europeia já concluiu muitos acordos comerciais com diferentes partes do mundo e acho que o Brasil e o Mercosul eram uma anormalidade, olhando para a intensidade de nossas relações. E vimos que muitas de nossas empresas não utilizam acordos comerciais", disse. Diante disso, defendeu que a fase de implementação exigirá esforço coordenado de representação diplomática e entidades empresariais para transformar o texto em resultados concretos.

"O trabalho de nossas embaixadas, consulados gerais e federações é de acompanhar as empresas para que possam compreender o acordo e utilizá-lo. Porque, senão, vai ficar só papel", afirmou. Ela acrescentou que, com esse objetivo, foi lançado um diálogo em parceria com a Fiesp e consulados europeus, voltado ao acompanhamento da implementação do tratado. A iniciativa deverá se estender pelos próximos meses, já que a adaptação às novas regras não se resolve em poucas semanas. Ela chamou atenção para a sensibilidade do processo nesta etapa inicial de implantação do acordo Mercosul-União Europeia. De acordo com ela, o acordo ainda está em vigor de forma provisória e depende de votações relevantes do lado europeu. Além disso, há preocupações legítimas envolvendo setores considerados sensíveis e compromissos ambientais.

"Poder demonstrar a added value [valor agregado] dessa implementação é muito importante de ambos os lados”, afirmou. Mangez argumentou que a relação entre os blocos extrapola o comércio e envolve convergência em agendas internacionais. Mercosul e União Europeia atuam em conjunto em frentes como multilateralismo, direitos humanos e mudanças climáticas, além de compartilharem laços humanos, culturais, científicos e educacionais. Para a cônsul, o acordo comercial representa uma nova etapa dessa relação e abre espaço para aperfeiçoamentos ao longo do caminho. "Desejo para todos nós ter a força e a paciência de entrar plenamente nesse diálogo para poder utilizar o acordo com todo seu potencial e, efetivamente, provar o pudim, como se diz, mas também podemos melhorar a receita ao longo do caminho", concluiu. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.