23/Oct/2026
A inadimplência do crédito rural entre produtores pessoas físicas atingiu o recorde de 9,7% em agosto de 2026, ante 0,8% em dezembro de 2022. A alta é explicada principalmente pelo aumento do custo das dívidas, pelas mudanças nas fontes de financiamento e pela concentração dos atrasos em operações com juros de mercado, e não pelo crescimento do estoque de crédito em relação à renda do setor. A conclusão é de estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). A análise cruzou dados do Banco Central, do Cepea, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Mundial para investigar os fatores associados ao avanço dos atrasos no pagamento das parcelas do crédito agropecuário.
A carteira de crédito rural não cresceu além da renda agregada da agropecuária a ponto de justificar, isoladamente, o atual nível de inadimplência. Em 2025, o saldo de crédito rural equivalia a 94% da renda anual do setor, proporção dentro da faixa de 87% a 109% observada entre 2013 e 2019, período em que a inadimplência era equivalente a cerca de um terço da atual. Para o estudo, o recorde de atrasos está mais relacionado à mudança nas condições financeiras das operações do que ao volume total da dívida. O custo do financiamento aumentou significativamente nos últimos anos. A taxa média do crédito rural contratado por pessoas físicas passou de 6,3% em 2021 para 12,2% em 2025. No mesmo período, o custo dos juros avançou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, elevando sua participação na renda da agropecuária de 3,9% para 11,4%.
Esse movimento alterou o peso do serviço da dívida sobre o caixa dos produtores, sobretudo nas operações contratadas quando as margens de produção eram mais favoráveis. A hipótese central do estudo é que parte das dívidas de investimento contratadas entre 2020 e 2022, em um contexto de margens elevadas, venceu quando as margens dos grãos haviam recuado e os juros aumentado. O descompasso entre as condições financeiras existentes no momento da contratação e aquelas vigentes no vencimento teria reduzido a capacidade de pagamento de parte dos produtores. Os autores também identificaram que o juro medido em produto passou de fortemente negativo para fortemente positivo em 2022 e 2023, ampliando a pressão financeira sobre as atividades agrícolas. Nesse cenário, uma resposta baseada no alongamento generalizado das dívidas pode não atender adequadamente às diferentes situações das propriedades.
A avaliação proposta é separar os casos de falta temporária de liquidez daqueles em que há comprometimento da solvência, com análise individualizada das contas e da capacidade de geração de receita de cada fazenda. A composição do crédito também contribuiu para a deterioração dos pagamentos. As fontes privadas com taxas livres, incluindo operações lastreadas em Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), passaram de 5% do crédito rural contratado em 2013 para quase metade em 2023. Essas modalidades acompanharam a elevação da taxa Selic e ganharam participação no financiamento agropecuário. Segundo o estudo, concentravam 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6%, ante 3,8% nas operações com juros controlados. A evolução das fontes de financiamento indica uma mudança estrutural no mercado de crédito rural.
Com a expansão das operações a taxas de mercado, os produtores ficaram mais expostos às oscilações dos juros e às condições financeiras vigentes no vencimento dos contratos. Esse efeito se tornou mais relevante em um período de redução das margens em parte das culturas agrícolas, dificultando a geração de recursos suficientes para honrar compromissos financeiros. O comportamento das receitas também variou entre atividades. Os preços e a renda recuaram no segmento de grãos, enquanto avançaram na pecuária. Na soja, a relação de troca atingiu o pior nível da série histórica considerada pelo estudo. Ao mesmo tempo, uma parcela crescente dos investimentos agropecuários passou a ser financiada por fontes que não integram as estatísticas tradicionais do crédito rural, dificultando a mensuração do endividamento total do setor.
As condições climáticas também influenciaram o quadro, com efeitos distintos entre as regiões produtoras. No Sul, os eventos climáticos elevaram o estoque de operações problemáticas, mas a inadimplência permaneceu proporcionalmente menor, em parte porque produtores ainda conseguem prorrogar e renegociar os compromissos. Já nos Estados produtores de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, região que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o saldo de crédito problemático é proporcionalmente menor, mas os atrasos efetivos nos pagamentos atingiram os níveis mais elevados do País. O diagnóstico, contudo, ainda apresenta limitações. Os dados disponíveis não permitem identificar integralmente a inadimplência por produto ou finalidade do crédito, separar operações de custeio das de investimento, mensurar as taxas aplicadas em renegociações bilaterais ou calcular o volume de dívidas mantidas fora do sistema financeiro.
Essas lacunas dificultam a avaliação da capacidade de pagamento dos produtores e a definição de medidas públicas direcionadas. O estudo destaca que o investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019 e que 64% desse aumento foi financiado fora das linhas tradicionais de crédito rural, por meio de recursos próprios, Cédulas de Produto Rural (CPRs), fornecedores e operações de leasing. As estatísticas disponíveis, entretanto, não permitem determinar quanto desse financiamento representa efetivamente dívida nem dimensionar o risco associado a essas fontes. Como próximo passo, a ideia é medir em quantas regiões e safras a receita obtida cobre o custo total da atividade, com o objetivo de distinguir situações de falta temporária de recursos daquelas em que a capacidade de pagamento está estruturalmente comprometida. A análise busca contribuir para respostas mais direcionadas ao perfil das dívidas e às condições econômicas de cada propriedade, em vez de medidas uniformes para todo o setor. Fonte: Globo Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.