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22/Oct/2026

Dívida Rural: renegociações ganham ritmo no BB

O Banco do Brasil (BB) registrou aceleração nas renegociações de dívidas rurais previstas na Medida Provisória (MP) 1.376/2026 ao longo das últimas duas semanas, após um início mais lento. A instituição já renegociou R$ 3,3 bilhões em operações, enquanto outros R$ 6,5 bilhões, referentes a operações analisadas, aguardam aprovação. Juntos, esses dois grupos somam 6.271 propostas. Além disso, R$ 6,1 bilhões permanecem em análise pelas agências do banco. No total, são R$ 15,9 bilhões em operações renegociadas, em aprovação ou em análise, correspondentes a aproximadamente 13 mil propostas. Líder em crédito rural no Brasil, o BB projeta superar R$ 20 bilhões em reestruturações de financiamentos de produtores rurais até 12 de novembro, quando termina a vigência da MP. A expectativa considera operações com recursos equalizados, recursos direcionados de depósitos à vista, da poupança rural e de linhas a taxas livres.

O banco registra entrada média de aproximadamente R$ 500 milhões por dia em novas operações de renegociação. Considerando os demais agentes financeiros, o volume de dívidas renegociadas por meio da MP 1.376/2026 alcançou R$ 10,7 bilhões, segundo dados do Banco Central. Com o avanço das operações, a expectativa é de que os R$ 25,8 bilhões liberados pelo Tesouro Nacional para subsidiar as renegociações sejam utilizados integralmente até o encerramento do prazo da medida. Desse total, R$ 12,4 bilhões estão destinados ao Banco do Brasil, que prevê utilizar integralmente os recursos disponibilizados. O banco iniciou o processo priorizando produtores inadimplentes, com parcelas de empréstimos em atraso, para permitir a regularização da situação financeira e a retomada do acesso ao crédito para contratação do Plano Safra. Em uma segunda etapa, a instituição passou a concentrar esforços também nos produtores adimplentes que enfrentam dificuldades para honrar os compromissos financeiros.

A procura inicial dos inadimplentes ficou abaixo das expectativas do BB, em parte porque alguns produtores acreditavam que a medida provisória não seria efetivamente implementada e que poderia surgir outro instrumento de reestruturação. Outros, embora enquadrados nas condições da MP, não demonstraram interesse em renegociar nos termos previstos e optaram por buscar alternativas. A maior parte das operações em renegociação envolve recursos a taxas controladas, especialmente no caso de grandes produtores que anteriormente contratavam financiamentos a taxas livres. Já os produtores com operações a taxas controladas ou que passaram por prorrogações anteriores demonstram menor interesse em aderir novamente à medida. Para ampliar o alcance das renegociações dentro do prazo disponível, o BB vem flexibilizando exigências de garantias e outras condições, com prioridade para a avaliação da capacidade de pagamento dos tomadores.

A instituição também realiza busca ativa de produtores para regularizar dívidas por meio da MP ou de linhas próprias de reestruturação. Apesar da aceleração das renegociações, a inadimplência no agronegócio permanece elevada. O BB observa que a procura de produtores inadimplentes ficou abaixo da registrada entre clientes adimplentes com operações já prorrogadas. Um dos fatores apontados pela instituição é a expectativa de parte dos produtores de que sejam anunciadas novas medidas de anistia ou perdão de dívidas. Essa perspectiva pode gerar risco moral, caracterizado pelo atraso deliberado de pagamentos até mesmo por produtores com capacidade financeira para honrar os compromissos, na expectativa de condições futuras mais favoráveis. A expectativa de melhora na rentabilidade da nova safra é considerada um fator de alívio para a inadimplência. A perspectiva de produtividade elevada e de estabilidade da área plantada, combinada à recuperação dos preços de algumas commodities, poderá ampliar a capacidade de pagamento dos produtores.

O arroz, que era negociado entre R$ 58,00 e R$ 60,00 por saco de 50 Kg, passou a apresentar indicações acima de R$ 80,00 por saco de 50 Kg. Na soja, as referências avançaram de R$ 115,00 a R$ 120,00 por saca de 60 Kg para contratos futuros entre R$ 155,00 e R$ 160,00 por saca de 60 Kg. O milho também está cotado acima de R$ 60,00 por saca de 60 Kg, enquanto café e carnes apresentam perspectivas favoráveis de preços. Com os custos de produção já estabelecidos, a elevação das cotações pode ampliar as margens dos produtores e estimular o plantio. O Banco do Brasil projeta estabilização da inadimplência a partir do trimestre atual, seguida de uma redução gradual. Ao fim do primeiro semestre de 2026, o índice de inadimplência da carteira de agronegócios do banco estava em 6,27%, considerando operações com atraso superior a 90 dias. Embora o indicador seja inferior ao registrado no mercado de crédito rural, a inadimplência tem peso relevante para a instituição, uma vez que a carteira de agronegócios representa aproximadamente um terço do total de crédito do BB.

O banco ampliou as exigências de garantias para se proteger contra riscos e prevê que os níveis de inadimplência permaneçam elevados até que a estabilização permita uma melhora mais consistente em 2027. A redução do risco moral também é considerada importante para esse processo. A renegociação de dívidas prevista na MP deverá contribuir para reduzir o provisionamento de perdas com crédito rural no médio prazo. No curto prazo, porém, o efeito tende a ser limitado, uma vez que a reversão das provisões depende das condições e da evolução de cada operação, sem ocorrer de forma uniforme ou imediata. Em relação aos pedidos de recuperação judicial no agronegócio, o BB avalia que o instrumento legal passou a ser utilizado de maneira excessiva, inclusive por produtores com capacidade de pagamento ou possibilidade de vender ativos para reorganizar as finanças. A instituição identifica casos em que pedidos de recuperação judicial evoluíram para falência, com dívidas superiores às originais e perdas potencialmente maiores para os produtores.

O provimento do Conselho Nacional de Justiça publicado no primeiro semestre, com orientações sobre os processos de recuperação judicial, contribuiu para uniformizar o entendimento dos magistrados sobre a aplicação do instrumento. A expectativa é de continuidade desses processos, mas com maior observância das condições e finalidades para as quais foram criados. O BB não considera que o agronegócio brasileiro esteja em crise e avalia que o período de renegociação poderá permitir a reorganização das contas dos produtores em um horizonte de sete a oito anos. O endividamento recorde do setor está associado a fatores como arrendamentos contratados a preços elevados durante períodos de valorização das commodities internacionais, imobilização de capital, investimentos elevados realizados durante o ciclo de alta dos preços, eventos climáticos que prejudicaram a produção e sucessivas prorrogações de financiamentos.

Apesar das dificuldades financeiras, o banco considera que o agronegócio continuou ampliando a produção, a produtividade, a renda, a qualidade de vida no campo e sua contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Na avaliação da instituição, o setor enfrenta um quadro de endividamento, mas não necessariamente de descapitalização generalizada. Nesse contexto, o BB defende avanços no seguro rural e em mecanismos de mitigação de riscos, além de incentivos à formação de reservas financeiras pelos produtores durante períodos de maior rentabilidade, para enfrentar ciclos adversos. O Banco do Brasil pretende manter sua participação no financiamento ao agronegócio, considerando o caráter cíclico da atividade. Ao fim do primeiro semestre de 2026, a carteira de crédito de agronegócios da instituição somava R$ 421,6 bilhões. O avanço das renegociações e a evolução da rentabilidade da nova safra serão determinantes para a trajetória da inadimplência, a recuperação da capacidade de pagamento dos produtores e a continuidade da oferta de crédito ao setor. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.