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21/Oct/2026

Grãos: ataques no Mar Negro elevam risco de alta

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os ataques no Mar Negro reduziram o fluxo de grãos da Ucrânia e da Rússia desde o fim de junho e ampliaram o risco de uma nova alta nos preços dos alimentos. A oferta mundial de grãos tem amortecido os efeitos das interrupções até o momento, mas a capacidade de absorção de novos choques é limitada. O cenário preocupa diante da combinação de restrições logísticas, encarecimento dos insumos e riscos climáticos à produção agrícola. O Mar Negro é um dos três principais fatores de pressão sobre os sistemas alimentares globais em 2026. Os outros são o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringe a oferta de fertilizantes e eleva os custos de energia, e o fenômeno El Niño, que aumenta o risco de perdas de safra. A menor disponibilidade de recursos fiscais dos governos e a redução da ajuda internacional ao desenvolvimento também limitam a capacidade de resposta dos países afetados. A importância estratégica da região está relacionada à participação de Rússia e Ucrânia no comércio internacional de grãos.

Em apresentação realizada em 16 de outubro, durante o World Food Forum, a FAO mostrou que os dois países responderam por cerca de 20% das exportações mundiais de trigo, milho e cevada entre as safras 2022/23 e 2024/25. Diversos países do Norte da África e da Ásia dependem do trigo proveniente desses fornecedores, o que amplia a exposição dos mercados importadores às interrupções no Mar Negro. Desde o fim de junho, a intensificação dos ataques elevou os custos de seguro e frete e prejudicou a navegação. Os portos ucranianos de Odesa, Chornomorsk e Pivdennyi, responsáveis normalmente pela maior parte das exportações do país, foram afetados. Parte da carga passou a ser transportada pelo Rio Danúbio, por ferrovias e por países vizinhos da União Europeia, em rotas com capacidade mais limitada e custos superiores. Os embarques de trigo ucraniano pelo Danúbio alcançaram 400 mil toneladas em agosto, mais de sete vezes o volume registrado em agosto de 2025. Apesar desse aumento, a capacidade alternativa de escoamento não compensou integralmente as dificuldades logísticas.

Entre julho e setembro, a Ucrânia exportou 5,22 milhões de toneladas de grãos e leguminosas, volume 20% inferior ao de igual período do ano passado. A redução do fluxo de cargas também foi observada no Estreito de Bósforo, na Turquia, que conecta o Mar Negro às rotas marítimas internacionais. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a média diária de cargas a granel, incluindo grãos, foi 48% menor entre 11 de setembro e 11 de outubro do que entre 8 de junho e 8 de julho, período anterior ao agravamento das tensões. No mercado de trigo, os embarques realizados em julho e agosto recuaram, na comparação anual, 44% na Rússia e 36% na Ucrânia. Também houve redução nos Estados Unidos, de 24%; na Argentina, de 5%; e na Austrália, de 4%. Em sentido contrário, as exportações aumentaram 15% na União Europeia e 32% no Canadá. Considerando os sete maiores exportadores mundiais, o volume total embarcado caiu 11%, equivalente a aproximadamente 3 milhões de toneladas, segundo dados do Conselho Internacional de Cereais. As restrições logísticas já se refletem nos preços internacionais.

A FAO registrou altas de 6,3% no trigo e de 5,6% no milho nos preços globais em setembro de 2026. Na Itália, o trigo utilizado na produção de pão apresentou aumento de 24%, enquanto o milho subiu 17%, segundo os dados mencionados por Torero. A oferta mundial relativamente confortável e os estoques ainda elevados têm limitado a velocidade de transmissão dos aumentos, mas a persistência das interrupções pode ampliar os efeitos sobre os preços dos alimentos no fim de 2026 e no início de 2027. O risco não se restringe ao trigo e ao milho. A continuidade das restrições pode transferir a pressão para outros produtos agrícolas, por meio da substituição entre grãos e do aumento dos custos de insumos e transporte. Esse mecanismo amplia o potencial de disseminação dos choques pelos mercados de alimentos, especialmente em países dependentes de importações e com menor capacidade fiscal para absorver aumentos de preços. Os estoques de trigo dos principais exportadores se recuperaram na safra 2025/26, mas voltaram a cair em 2026/27.

Segundo a FAO, caso Rússia e Ucrânia deixassem de exportar, os estoques dos demais grandes fornecedores poderiam recuar para níveis historicamente baixos. A redução das reservas disponíveis diminuiria a capacidade de compensar novas interrupções e aumentaria a vulnerabilidade do mercado internacional a choques adicionais de oferta. Na Ucrânia, as dificuldades de exportação também afetam a remuneração dos produtores. Em 2 de setembro, o trigo destinado à moagem estava cotado a US$ 193 por tonelada, aproximadamente US$ 90,00 abaixo do preço na Matif, bolsa europeia de grãos, o que representava um desconto de 31%. Ao mesmo tempo, a safra ucraniana de trigo de 2026 deve alcançar entre 25 milhões e 28 milhões de toneladas, volume de 8% a 12% superior ao do ciclo anterior. A FAO estima que 11 milhões de toneladas de grãos precisam de capacidade de armazenagem na Ucrânia. A combinação de uma colheita maior, dificuldades de escoamento e preços domésticos descontados pressiona o fluxo de caixa dos produtores e pode comprometer sua capacidade de financiar a próxima temporada.

Nesse contexto, a FAO defende a disponibilização de linhas de crédito para sustentar a continuidade da produção agrícola ucraniana. Em relação à segurança alimentar, a FAO avalia que a dependência do trigo proveniente do Mar Negro ainda não provocou uma deterioração desproporcional da situação nos países importadores. O consumo de trigo aumentou em diversos países africanos, principalmente entre aqueles que dependem de importações do cereal. Além disso, poucos países expostos ao abastecimento do Mar Negro em 2021 reduziram o consumo, situação que mantém esses mercados vulneráveis a novas interrupções e reforça a necessidade de diversificação dos fornecedores. Até o momento, não há indicação de negociações para um acordo semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que contribuiu para manter as exportações ucranianas após o início da guerra, em 2022. A ausência de uma iniciativa desse tipo prolonga as incertezas sobre o escoamento da produção da região e aumenta a importância das rotas alternativas, da recomposição dos estoques e da diversificação das origens de abastecimento para reduzir os riscos de novas pressões sobre os preços mundiais dos alimentos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.